Política

Memes políticos: o poder do universo on-line

Divulgação

O que é um meme? De forma bastante simplista, pode-se dizer que este termo significa uma ideia, um tema, um conceito ou uma informação que é transmitida rapidamente. Na internet, o termo se destaca quando se fala de imagens, normalmente sátiras, que se difundem no universo on-line através de redes sociais, blogs, sites e, também, em grupos de conversas.

Contudo, segundo o doutor em Comunicação Pedro Reis, esta seria uma maneira popular de classificar um conceito bastante amplo. “Vulgarmente, na internet, meme é algum tipo de imagem ou texto – foto, desenho, filme etc. – que, a partir de uma apropriação, é transmitido com o objetivo de passar um determinado sentido”, ensina, ressaltando que a comunicação mediada pelo computador é sempre plural e, por isso, está interconectada com outros campos. “O mundo digital atua como um intercontexto entre outros intercontextos, especialmente o das trocas linguísticas. Afinal, seria complicado entender um meme de um país do qual não se conhece a língua, nem os contextos de vida específicos e regimes históricos das pessoas que ali residem”, exemplifica.

Desta forma, segundo o comunicador, o meme é o resultado de uma relação entre esses meios. “O que vulgarmente chamamos de memes, ou artefatos culturais que se ‘memetizam’, são fruto da relação entre essas mídias pessoa-a-pessoa e o que se chamava de mídias de massa ou tradicional, que eu prefiro chamar, mais geralmente, de Cultura da Mídia”, opina.

Os memes políticos

Em âmbito governamental, os memes ganharam bastante espaço. Por se tratarem de figuras públicas, frases e situações vividas por políticos tornam-se uma fixação dos internautas, que transformam esses momentos em imagens e acrescentam frases divertidas a elas. Esse fenômeno poderia ser definido como viralização, que nada mais é do que a repercussão de determinado conteúdo. “O processo de viralização acontece muito mais como contágio”, opina o doutor. E acrescenta: “Qualquer coisa que tenha algum apelo pode viralizar”. Mas Reis ressalta que há uma diferença entre estes dois conceitos. “Veja como o meme que surge da viralização não tem diretamente a ver com o contexto do vídeo ou momento original”, observa.

Em época eleitoral, esse tipo de comportamento ganha ainda mais destaque. Os debates políticos, por exemplo, receberam diversos memes que se propagam até hoje na internet. E, além disso, há pessoas que se deixaram influenciar por esse tipo de informação. O relações públicas Roberto Klein, por exemplo, decidiu o seu voto para presidente da República por conta de uma imagem que lhe chamou a atenção. “Eu não costumo assistir a debates políticos, pois não considero válido esse tipo de abordagem. Porém, como trabalho com redes sociais, não posso evitar de ver os memes”, conta. E assim, dessa forma, ele viu as montagens com Eduardo Jorge, candidato do Partido Verde (PV).

Reprodução / Internet

“Não sabia que ele era uma pessoa tão mente aberta e que defendia algumas ideias parecidas com as minhas, principalmente questões ambientais. Depois de ver o meme, fui me informar mais sobre o partido e sobre o candidato. Assim, percebi que ele merecia meu voto”, recorda.

Mas esse não foi o único meme que os debates políticos realizados com os presidenciáveis ganharam. Confira, abaixo, alguns exemplos que viralizaram:

O mundo digital se torna, cada vez mais, parte indispensável da vida das pessoas. Por isso, não há quem não saiba o que é um meme e que não tenha uma opinião sobre eles. Em uma pesquisa realizada com 100 pessoas, há as que aproveitam a internet para se informar sobre política, as que gostam de dar boas risadas com os memes e as que não acompanham muito esse tipo de conteúdo. Veja o resultado da pesquisa passando as imagens para a direita:

Já quando o assunto é o período eleitoral, o sociólogo e educador Marcelo Dysiuta relembra da situação na qual as redes se encontravam em outubro de 2014. “Em tempo de eleições, não tem como aguentar as redes sociais. Elas tornam-se um verdadeiro esgoto, repleto de calúnias e pessoas, muitas vezes, desrespeitosas”, opina. “Como não há regulamentação no universo digital, esse espaço torna-se terra de ninguém”, continua.

Quanto aos memes, Dysiuta explica que os jovens são os que mais interagem. “Acho que quando é algo humorístico, tudo bem. Mas não acho que isso informe ou desinforme. Afinal, os discursos políticos são muito longos e, às vezes, usar apenas uma frase proferida durante cerca de 40 minutos pode retirar a fala do contexto e ela pode perder o sentido”, exemplifica.

Reprodução / Internet

Nesse tipo de situação, Dysiuta acredita que é preciso haver mais educação por parte da sociedade. “Precisamos aprender a usar a internet de forma saudável”, fala. O mundo digital, segundo ele, possui infinitas possibilidades que, muitas vezes, não estão sendo exploradas. “Há muito mais no universo virtual do que fotos na frente do espelho. É um desperdício usarmos ele apenas para isso”, diz.

Da mesma forma, é preciso saber filtrar o que é verdade e o que é mentira. Por isso, é importante cuidar com os memes e o tipo de informação que eles passam.

Direito de imagem

É possível perceber, no entanto, que os memes usam imagens não creditadas e que, muitas vezes, não teriam seu uso autorizado. Nesse tipo de situação, caberia o seguinte questionamento: e o direito de imagem?

De acordo com o advogado Cristiano Prestes Braga, que concentra sua atuação nessa área, é importante lembrar que o direito de imagem é algo protegido pela Constituição Federal do Brasil e pelo Código Civil Brasileiro. “Esse direito é inalienável e intransmissível (não é possível dissociá-lo do seu titular), vitalício (perdura durante toda a vida do titular), imprescritível (não existe prazo para exercê-lo) e absoluto (oponível contra todos)”, ensina.

Contudo, segundo ele, esse direito pode ser autorizado. “O uso da imagem de uma pessoa necessita da respectiva autorização, com exceção dos casos em que o interesse público ou social prevalece sobre o interesse particular. Por exemplo, uso da imagem para informação de pessoa com notoriedade pública para informação com finalidade cultural, para informação de ordem pública ou para representação de cenário público. Nenhuma dessas exceções, porém, pode ter qualquer finalidade comercial”, complementa.

De acordo com Braga, é preciso, então, observar a necessidade de obter a autorização da pessoa retratada. “O grande desafio, no caso dos memes, é equacionar o direito de informação e de livre expressão ao direito de imagem”, diz. Mas adverte: “Ao mesmo tempo, não é recomendável tornar os memes ilícitos, deve-se respeitar os limites da proteção à imagem das pessoas, sob pena de estar-se autorizando abusos que infringem à manutenção da ordem pública”, finaliza.

Reprodução / Internet (Dilma Bolada)

Reprodução / Internet (Dilma Bolada)

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