Política

De volta às ruas, a voz de quem foi detida

A Beta Redação acompanhou a estudante Nicole Loss - uma das quatro mulheres presas pela BM em manifestação recente - em novo protesto contra o governo Temer

Por volta das 18h da quinta-feira passada (18), mais um protesto começava na Esquina Democrática em Porto Alegre. A quantidade de gente concentrada no ponto de encontro era bastante significativa, quase bloqueando os acessos para a Rua dos Andradas. O cheiro de quentão era o aroma do local, que contava com vendedores ambulantes anunciando seus produtos para os manifestantes. Bandeiras do PT, PSol, PCdoB e PCB podiam ser vistas mais no centro do cruzamento, onde um malabarista entretinha os presentes com clavas em chamas.

Nos acessos até ali, o trânsito estava congestionado no padrão hora do rush da capital, nada fora do comum. Vindo da zona sul em direção ao Mercado Público, via-se um aumento gradativo da quantidade de policiais nas ruas.

Sete dias antes, um ato similar terminara com a prisão de quatro jovens, todas mulheres. Elas responderão a acusações de desacato, resistência à prisão e tentativa de agressão. Acompanhando uma dessas jovens, a reportagem da Beta Redação seguiu a manifestação que partiria do Centro sem um trajeto divulgado. Nicole Loss, 21 anos, é estudante de Artes Visuais na UFRGS e contou que não dormia bem há dias. A jovem tentava socorrer uma amiga que era detida quando se viu submetida à força pelos policiais. “Às vezes sinto vontade de não fazer nada sobre o que aconteceu, mas quando bate isso eu entro naquela reportagem do cara que passou 20 dias num grupo de Whatsapp, o Direitas Já, sabe? Tenho essa salvo nos meus favoritos”, conta ela, referindo-se à reportagem de Diógenes Muniz publicada pela Ponte Jornalismo.

Os manifestantes começavam a subir a Avenida Borges de Medeiros enquanto um grupo de senhores de cabeça branca conversava alheio a tudo aquilo. Ao passar pela Avenida Senador Salgado Filho, uma marcha, com faixas que identificavam estudantes de Arquitetura da UFRGS, correu para entrar em ritmo acelerado no movimento. Um cheiro esquisito chegou pelo ar e Nicole disse: “Quando sinto cheiro de queimado, olho para os lados”. Ela fazia referência aos odores de uma ação da Brigada Militar para dispersar uma multidão, ou a protestos que envolvem fogo em patrimônio.

Da Borges, a passeata entrou à direita na Rua Jerônimo Coelho e pareceu tomar o rumo do Palácio Piratini. Fomos surpreendidos pelo canto “tá dominado, tá dominado, antifascismo colorado”, bradado por homens que vestiam camisetas do Inter e carregavam uma faixa. Palavras de ordem eram gritadas pelos caminhantes, e minha acompanhante e eu tentávamos decifrar o que diziam. Lembrei dos primeiros jogos de futebol que assisti. Comentamos também sobre como são imprevisíveis as possibilidades de um comportamento de massas.

 

Nicole comentou que depois de sua imagem ter sido veiculada nas redes sociais e nas notícias, tem sido reconhecida na rua. A Beta Redação optou por preservar seu rosto nesta reportagem. (Foto: Johnny Oliveira)

Nicole comentou que depois de sua imagem ter sido veiculada nas redes sociais e nas notícias, tem sido reconhecida na rua. A Beta Redação optou por preservar seu rosto nesta reportagem. (Foto: Johnny Oliveira)

 

A menina magra e de estatura mediana em pouco se parece com alguém que possa apresentar ameaça física para um homem equipado como um policial militar. Segundo Nicole, ela recebeu dois golpes de cassetete nas costas depois de já estar imobilizada pelos policiais. Agora, andava calmamente no ritmo da multidão, entoava os cantos e me perguntava como eu faria para colocar o número de presentes nesta reportagem. Respondi que nunca sei em que números sobre manifestações acreditar, se dos organizadores, da polícia ou dos órgãos de pesquisa. “Soma os três dados e divide por três”, sugeri, e ela concordou um pouco descrente.

Com o Palácio Piratini protegido por um gradil separando a sede do governo dos manifestantes, o grupo apenas contornou a Praça da Matriz e seguiu pela Rua Duque de Caxias. Ali encontramos Julia da Costa, outra das quatro mulheres detidas na manifestação anterior. Júlia acompanhava o protesto de muletas e recebia elogios dos que passavam por ela. “Guerreira”, disse um jovem, dando dois tapinhas em suas costas. A partir daí, ficamos junto de Julia, caminhando em ritmo mais lento para acompanhar os seus passos auxiliados pelas muletas. “Não atire, protesto não é crime” dizia uma faixa enquanto os prédios da Duque de Caxias deixavam a Lua cheia aparecer. Com uma acústica diferente, o som das vozes era amplificado, e as mulheres gritavam “Nem recatada e nem do lar, a mulherada tá na rua é pra lutar”. A partir daí, Nicole não passou mais do que poucos metros sem olhar e se certificar de onde estava Júlia, atrasando o passo para emparelhar com a amiga.

A vereadora Sofia Cavedon (PT) caminhava perto de nós. Um rapaz disse que outro grupo da manifestação estava no bairro Cidade Baixa e que lá também estava a cavalaria da polícia. Júlia brincou que estava ficando com as costas mais fortes por conta das muletas. Nicole chamou a minha atenção para os senhores de idade que passavam com cartazes de “O SUS é nosso”, fazendo referência às declarações do novo ministro envolvendo possíveis cortes no Sistema Único de Saúde.

A marcha passou pela Praça Dom Feliciano e desceu para a Avenida João Pessoa. Ali foi possível ver a dimensão do movimento devido ao relevo da rua, a partir do viaduto. Eram muitas pessoas, definitivamente… mas os números vão ficar por conta de outras imprensas. “Em 2013 tinha aquele negócio de ‘se apoia, pisca a luz’”, lembrou Nicole, e logo em seguida alguns apartamentos começaram a fazer o pisca-pisca. A Casa do Estudante Universitário (CEU) ostentava uma grande faixa preta e vertical com a palavra “golpe” em letras brancas, e seus moradores estavam na sacada com apitos e gritos. Antes de subir o viaduto, momentos de silêncio em que se pôde conversar como em uma sala de estar. Um conhecido disse: “Fiquei cinco minutos no banheiro e não para de passar gente aqui”. O clima era pacífico, calmo mesmo. Caminhava-se devagar, era possível conversar, cantar, e alguns artistas passavam fazendo uma espécie de teatro. Comentei que era realmente um clima tranquilo aquilo tudo, e Nicole respondeu: “Tô feliz de estar aqui nessa paz”.

 

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(Foto: Johnny Oliveira)

 

Ficamos um pouco para trás para permanecer ao lado de Julia, que caminhou por um tempo amparada por um amigo, mas havia retornado para as muletas. O diretório do PMDB, na Avenida João Pessoa, estava muito pichado com palavras de ordem, e, no Parque da Redenção, do outro lado da avenida, alguns policiais ficavam à frente de suas viaturas. Depois observamos dois micro-ônibus da BM e mais algumas viaturas que estavam ali perto, na Rua José Bonifácio.

A marcha entrou na Avenida Venâncio Aires e nos despedimos de Julia. Logo depois, dobramos na Rua General Lima e Silva. Parecia que o destino era o mesmo da semana anterior, o Largo Zumbi dos Palmares, também conhecido como Largo da Epatur. “Tá chegando aquele lugar”, avisou Nicole, referindo-se ao local da ação policial da quinta-feira anterior. Ali, na Avenida Loureiro da Silva, o movimento se espalhou pelas várias pistas das duas mãos, desfazendo a multidão e criando mais espaços entre as pessoas.

Chegando no Largo, a cena se transformou de marcha em ocupação da rua. Criaram-se rodinhas de conversa, pessoas sentaram no chão e, ao sentar no meio da rua, Nicole lembrava que fazer isso é um ato político. A polícia observava desde o Largo dos Açorianos, enquanto a EPTC se preocupava em bloquear as ruas. Os cantos entoados tomaram ares de resistência, sugerindo a permanência na rua.

Entoavam, também, uma cantoria para implicar com a polícia: “Que vergonha, que vergonha deve ser, espancar trabalhador para ter o que comer”. Surgiram aí manifestantes usando máscaras e portando pedras, que traziam outras grandes pedras para serem quebradas e divididas. Eram poucos em relação aos presentes, mas suficientes para criar um clima de tensão que antes não havia. Um deles gritou “O de jaqueta da Adidas é P2”, fazendo referência aos policiais supostamente infiltrados nos movimentos. Um dos rapazes de máscara jogou uma pedra no suspeito de ser P2, mas errou o alvo por centímetros. O homem de jaqueta foi para trás das viaturas da BM e usou o celular por alguns minutos. Um rojão foi jogado em direção à Brigada, mas ficou pelo meio do caminho. Poucos minutos depois, um jovem lamentava ter errado o lançamento.

Nesse momento, era pequena a quantidade de pessoas que ficava na área mais próxima à polícia, ocupando o asfalto da Avenida Loureiro da Silva, e mais distante do aglomerado que se encontrava mais pra o Largo da Epatur, próximo da Rua José do Patrocínio. Ficava fácil enxergar os manifestantes que estavam organizando uma linha de frente para um possível confronto, quebrando pedras e cobrindo o rosto. Um homem aproximou-se de nós e nos ofereceu vinagre, que aceitamos por prevenção. Vinagre é o antídoto para gás lacrimogêneo. Era possível ver a cavalaria debaixo do viaduto que dá continuação para a Borges no sentido zona sul. Todos ficaram tensos quando repararam nos PMs, que pareciam esperar o momento de brandir a espada. Alguns se aproximaram dos policiais para dialogar, e ali perto deles encontravam-se também os fotógrafos e cinegrafistas dos veículos de comunicação de Porto Alegre. A tentativa de diálogo se deu por encerrada quando mais um rojão estourou perto da conversa.

Em um cordão, os jovens das máscaras marcharam alguns metros em direção à polícia aos gritos de “Recua, polícia, recua”. Alguns advogados, os mesmos que ofereceram auxílio para Nicole e as outras mulheres, avisaram que era melhor irmos embora, que a polícia viria mesmo para cima. Decidimos então nos juntar com mais amigos para sair dali e lembramos que, em 2013, alguns jovens relatavam perseguição da polícia a indivíduos que, depois de dispersada a manifestação, caminhavam sozinhos pelo Centro Histórico ou pela Cidade Baixa.

E assim tomamos rumo. Deixando pra trás uma passeata que foi pacífica até se deparar com cavalos e cavaleiros. O final teve tom de enfrentamento com a Brigada Militar, mas este não ocorreu. Um jovem gritou aos brigadianos: “Só prende mulher, né, trouxa”. As pedras lançadas foram poucas, para não dizer que vi apenas uma. Rojões, dois, do mesmo grupo de jovens. Essas pessoas com o rosto coberto pareciam querer afirmar para a polícia que haveria resistência em caso de investida por parte dela, mas alguns sempre vão mais longe e tentam provocar o confronto. A pergunta que ficou soando pelas ruas da Cidade Baixa e do Centro da capital, para muitos, foi: “Adiantou para que mesmo esse protesto?”. O fim da passeata virou uma grande reticência sobre o que o movimento deve fazer.

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