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Mais Médicos: entre elogios e críticas

Programa será prorrogado por três anos e segue alvo de debate

O presidente Michel Temer sancionou, no último dia 12, lei que prorroga por três anos o programa Mais Médicos. Quinze dias depois, a área da saúde foi impactada novamente com a autorização do Ministério da Educação (MEC) para abertura de 37 cursos de Medicina no país. Quatro universidades gaúchas tiveram propostas aprovadas: Unisinos, em São Leopoldo, Feevale, em Novo Hamburgo, URI, em Erechim, e Faculdade Estácio, em Ijuí. 

O Estado conta com mais de 1,5 mil médicos que integram o Mais Médicos, criado em 2013. Uma das 383 cidades gaúchas contempladas pelo programa é São Vendelino, com 2.140 habitantes, no pé da serra gaúcha. Com apenas uma Unidade Básica de Saúde (UBS), o Pequeno Paraíso, como é chamado pela população local, tem quatro médicos. Dois deles são a brasileira Noeli Teresinha Adamatti, 49 anos, e o cubano Dixan Escalona Salazar, 34 anos.

Noeli formou-se na Universidade de Caxias do Sul (UCS) em 1992. É especialista em Saúde da Família e Medicina do Trabalho. Escalona, por sua vez, veio ao Brasil, em 2014, graças ao Mais Médicos. Formado em 2010 pela Faculdade de Ciências Médicas Zoilo Enrique Marinello, em Las Tunas, há cerca de 670 quilômetros de Havana, o profissional conta ter sofrido dificuldades de adaptação quando chegou ao Rio Grande do Sul, há três anos. “Quando soube que viria para São Vendelino, fiquei preocupado. Ao fazer uma busca no Google, vi que se fala um dialeto alemão aqui. Mas a língua oficial foi a principal dificuldade no início, porque meu português era muito ruim”, recorda. 

Escalona atende de segunda a sexta-feira, na única UBS existente em São Vendelino (Foto: Guilherme Rossini/Beta Redação)

Escalona trabalha de segunda a sexta-feira, na única UBS de São Vendelino (Foto: Guilherme Rossini/Beta Redação)

Mesmo com a prorrogação por três anos do Mais Médicos, o cubano diz que a volta a seu país é uma certeza. “Por mim, eu ficaria mais três anos, mas infelizmente terei que retornar, pois mandarão nova remessa de médicos para nos substituir. Além disso, eu só ficaria no Brasil se fosse para seguir em São Vendelino. A adaptação é muito difícil, principalmente por conta da população. Precisei de dois anos para ter boa aceitação do povo”, revela. 

O médico completará três anos no país em março de 2017, quando seu contrato será encerrado. Provavelmente, outro médico cubano ocupará seu lugar.

As críticas do conselho

O Mais Médicos é alvo de questionamentos principalmente por conta da formação dos profissionais estrangeiros. O Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu nota, no último dia 28, em que questiona a presença dos médicos no país, exigindo doutores formados no Brasil.

O conselho cobra “o preenchimento das vagas abertas na fase atual do Programa Mais Médicos apenas por médicos graduados no Brasil, detentores de títulos reconhecidos pelo Ministério da Educação e pelos Conselhos de Medicina, evitando-se expor a população à atuação de profissionais formados em outros países e que não foram submetidos ainda ao processo de revalidação de seus diplomas, exigência feita em países onde os governos expressam real preocupação com a qualidade da assistência oferecida.”

Além disso, o CFM critica a abertura de novos cursos de medicina no país. “A Plenária do Conselho Federal de Medicina (CFM), em sua reunião de setembro, aprovou manifestação pública na qual exige que os órgãos de gestão busquem respostas para problemas que comprometem a qualidade da formação de futuros médicos pela abertura imprudente de escolas”, diz a nota.

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CFM mantém oposição a médicos estrangeiros e se coloca contra novos cursos de medicina no Brasil. (Foto: CFM/Divulgação)

O cubano Escalona afirma que, apesar das críticas do conselho, os cursos de Medicina em Cuba são plenamente satisfatórios para o exercício da profissão em qualquer país. “Em Cuba, são seis anos de curso, divididos em dois ciclos: básico e clínico. Após esses dois ciclos, de dois anos e meio cada, o profissional passa um ano com tutor, atendendo em um consultório. Nesse ano, além da prática, também estudamos muito para um teste final. É necessária aprovação para ter o título de médico”, explica. 

Após a conclusão dessas etapas, frisa o médico, são realizadas especializações. “Eu fiz a minha em Saúde da Família, que durou três anos, para que então pudesse servir em outros países”, destaca.

Ao analisar o assunto, Noeli relata que no Brasil o curso tem a mesma duração. “A minha graduação foi de seis anos. No sexto, fiz estágio no Hospital Conceição, em Porto Alegre. Na época, não tínhamos hospital-escola. As turmas eram divididas, e as aulas práticas da graduação ocorriam nos hospitais de Caxias do Sul. O estágio era feito nas duas cidades. As melhores classificações davam o direito a escolher o hospital. Após os seis anos, fiz as minhas duas pós-graduações em Estratégias de Saúde da família e Medicina do Trabalho, ambas na UCS”, relata.

Contraponto: a visão da universidade 

Doutora em Medicina, Nêmora Barcellos será a coordenadora do novo curso na Unisinos, cujo início é projetado para 2017.  Segundo ela, as atividades seguirão as demandas da maioria das graduações do país.

“A ênfase do curso da Unisinos é na formação de um profissional responsável, qualificado e ético para atender a todas as demandas da população, segundo os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS)”, comenta. 

A profissional diz que a estrutura para as atividades está em fase de finalização. “A Unisinos mapeou toda a rede de saúde da região e vem trabalhando em conjunto com os municípios que deverão acolher nossos alunos. Novas articulações ainda serão desenvolvidas para finalizar o desenho dos campos necessários para os primeiros dois anos e assim por diante”, completa. 

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