Esporte

Mais Guffo e menos Neto, por um futebol com menos achismos

Porque a análise tática no Brasil está demorando tanto para se especializar?

Quase todo o brasileiro, principalmente os que gostam de futebol, cresceram ouvindo as verdades dogmáticas do futebol. Você, que acompanha o brasileirão, com certeza já ouviu alguém xingando quando o time bate escanteio curto. Também já deve ter ouvido que o time precisa ter um craque para ganhar jogos, que um ataque que marca muitos gols é mais importante que uma defesa pouco vazada. Que a saudosa seleção de 70 era a que realmente sabia jogar ofensivamente e dominar o jogo. Que o melhor time, o favorito, na maioria das vezes ganha. Agora, o que você nunca deve ter visto é algum tipo de dados que suportem essas frases.

O futebol, diferentemente de outros esportes, usarei aqui como base o basquete e o futebol americano, ainda conta com uma certa resistência às estatísticas, principalmente da parte da mídia, que em sua maioria, faz análises táticas de forma empírica e exclusivamente opinativa, tanto que chamamos nossos comentaristas de homens de opinião, e não de analistas. Nossa imprensa analisa o jogo com base em sua experiência e no que enxerga, mas, será que os comentaristas são capazes de acompanhar todas as ações de uma partida?

No livro “Os Números do Jogo”, extremamente recomendado para quem realmente quer entender como funciona o futebol, Chris Anderson e David Sally nos mostram que o cérebro humano não consegue acompanhar mais do que a metade do que acontece em uma partida, as estatísticas são necessárias para podermos entender completamente a partida. Neste mesmo livro, os dois autores analisaram 10 anos de partidas de futebol, de futebol americano, de basquete, entre outros esportes e nos mostram diversas peculiaridades que surpreendem o leitor. No futebol, o time favorito ganha apenas 50% das partidas, o time com o melhor ataque, é campeão em apenas 51% dos campeonatos analisados, o time com a melhor defesa, em 49%, também já acontece de o time com o melhor ataque e a melhor defesa da liga não sagrar-se campeão ao final da temporada.

 

Também conhecido como a Bíblia da análise estatística

Também conhecido como a Bíblia da análise estatística

 

Entre os outros mitos que os autores derrubam nos textos estão o do escanteio, em uma análise de 134 partidas da Premier League(primeira divisão da Inglaterra) os autores calcularam que um time faz um gol de escanteio a cada 10 jogos, a maioria dos escanteios não resulta nem em finalizações, apenas 20,5% deles resultaram em finalizações. Seguindo a análise, apenas uma finalização à cada nove resulta em gol. Pondo isso em números, um escanteio vale em média 0,022 gol, multiplicado pela média de escanteios que um time consegue por jogo, resulta em 1 gol a cada 10 partidas, como citado acima, nessa análise foram observados 1434 lances. Some isso aos riscos de sofrer um contra-ataque e talvez você até goste da próxima vez seu time cobrar um escanteio curto.

Antes de terminar, você sabia que a grandiosa seleção de 70 fez a maioria dos seus gols em contra-ataque? Dos 19 marcados, 15 foram em saídas rápidas em contra-ataque.

Então, porque nós insistimos em manter as análises do nosso futebol em achismos e não em fatos? Porque não nos espelhamos em análises de outros esportes como o futebol americano e o basquete? Para responder tal questão resolvi conversar com quem está atualmente no mercado e ver o que eles pensam.

 

A cultura americana após Moneyball

Em resumo, Moneyball é um livro e um filme que conta a história de Billy Beane e Bill James, as duas pessoas que revolucionar a maneira de se gerir um time e de analisar um jogo de baseball, foram os precursores da análise estatística deste esporte. Para ter uma ideia, assista abaixo o trailer do filme, que é altamente recomendado se você gosta de esportes.

 

 

Após este acontecimento, a cultura esportiva nos Estados Unidos mudou completamente, tudo começou a ser questionado e analisado através de dados. Segundo Neimar Souza May, analista de futebol americano do blog Bolão NFL e do canal Fake Sherman, “após Moneyball, tudo é estatística”, e os esportes americanos quando vieram para o Brasil trouxeram esta cultura, por isso as análises de basquete e futebol americano nacionais são baseadas em estatísticas.

O primeiro motivo então, pode ser a cultura americana, eles são apaixonados por estatísticas. “Os americanos já têm em sua cultura a valorização por estatísticas. Aqui no Brasil, o trabalho do comentarista já fica prejudicado porque a busca por dados é muito menos intensa. Em qualquer órgão de imprensa dos Estados Unidos, há setores responsáveis apenas por estatísticas, e isso dá um suporte aos analistas.”  disse Wendell Ferreira, do blog Prime Time do jornal Zero Hora.

 

A evolução das análises caminham em ritmos diferentes para cada esporte.

Enquanto qualquer um pode conseguir qualquer estatística desejada nas ligas de esportes americanos, segundo um dos analistas que conversei, Felipe Resende, do blog Aves Patriotas, a análise de futebol mais técnica existe, porém é algo que hoje é mais de nicho, não possui ainda grande aceitação no mercado e os comentaristas seguem analisando “de olho”.

 

Exemplo de imagem usada em análises de futebol americano, note que todas as rotas dos jogadores estão desenhadas para um melhor entendimento do todo

Exemplo de imagem usada em análises de futebol americano, note que todas as rotas dos jogadores estão desenhadas para um melhor entendimento do todo

 

Os analistas de futebol no Brasil são em sua grande maioria simples opinadores, e não analistas de fato, tanto que é usado o termo homem de opinião ou comentarista, e não analista.

E pior ainda, quando surge alguém que deseja produzir algum conteúdo mais técnico, mais profundo, vira motivo de chacota. Quantas vezes já não ouvimos que “estão reduzindo futebol à números” ou que tal pessoa faz parte da “geração playstation”?
A dificuldade de se conseguir as estatísticas

Eis aqui talvez um dos pontos chave para as análises táticas de futebol não terem conquistado tanto espaço, as estatísticas não estão disponíveis. Enquanto na NBA você consegue qualquer dado sobre qualquer jogador já resumido analisado e contextualizado no intervalo de tempo desejado, no futebol, algumas empresas de coleta de dados enxergaram nisso um nicho de mercado, e elas cobram por estas estatísticas e cobram muito caro.

Denis Botana, do site Bola Presa falou que a poucos anos a liga começou a disponibilizar dados que ninguém entendia direito o que era, dados que computavam toda a movimentação do jogo e que só agora os especialistas estão conseguindo de fato entende-los. Enquanto isso no futebol quem deseja algo do gênero tem que pagar caro, tão caro que só se torna viável para clubes e grandes órgãos de imprensa.

“No futebol, mesmo se você quiser, é difícil sequer encontrar as estatísticas que você quer”, disse Denis. Isto é um problema, porque se a grande imprensa não tem interesse em analisar os jogos desta forma, donos de blogs e torcedores também ficam impossibilitados de fazer o mesmo em blogs ou redes sociais. Estas análises de fãs poderiam ser um facilitador para o mercado enxergar a importância de termos mais espaço para este tipo de análise.

 

Imagem usada para análise de um dos posts do blog de Denis, os dados e a imagem são fornecidos pela própria NBA

Imagem usada para análise de um dos posts do blog de Denis, os dados e a imagem são fornecidos pela própria NBA

 

Duas referências em análise tática no Brasil

Por mais resistência que exista, por mais chacota que sofram e por mais restrito que ainda seja o mercado, existem no Brasil alguns poucos e excelentes analistas de futebol. Tive a oportunidade de conversar com dois deles: Leonardo Miranda, do blog Painel Tático do Globo Esporte, e Gustavo Fogaça(Guffo), do blog Esquemão e da Rádio Gaúcha.

 

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“Eu decidi “cair pra dentro” do jornalismo esportivo com esse perfil. Se não fosse assim, nem o faria.” disse Guffo sobre o seu estilo de análises. A imagem acima foi utilizada em um post sobre a seleção brasileira e é uma espécie de mapa dos passes. Bem raro ver algo do gênero em análises de futebol né?

 

Ambos produzem um conteúdo de opinião pautado em fatos e dados, ao conversar com eles vi que eles não têm o espaço que merecem, este tipo de conteúdo ainda é um nicho no Brasil, mas está crescendo. Guffo, acha que ainda existe um preconceito da grande mídia quanto ao nível de entendimento do consumidor, e isso causa as análises mais rasas, porém ambos enxergam um mercado com espaço para ambas as coisas, todo o tipo de conteúdo de futebol no Brasil vai ter público.
Já Leonardo tem uma opinião um pouco diferente “Acho que a mídia deve se especializar e procurar evolução, mas esse movimento deve vir acompanhado também do consumo consciente do público. De nada adianta apostar em novos profissionais sem que o público acompanhe.”

 

Uma unanimidade entre os especialistas

Absolutamente todos os entrevistados acharam que uma análise mais profunda de dados e estatísticas impacta positivamente o esporte, pelos mais diversos motivos, mas o sim foi unânime, listo aqui na íntegra as respostas de cada um deles:
“Muitos técnicos e atletas, de diferentes divisões, dão um feedback bem positivo sobre as análises. Fico sempre muito feliz por saber que o que escrevo atinge e melhora profissionais que trabalham com futebol”  Leonardo Miranda;

“Acredito que sim, mas ainda acho pelo menos tão importante quanto a análise de fundamentos e técnica. Aliados aos números avançados e registros históricos, uma equipe pode apontar de quais formas terá mais chance de sucesso e como poderão melhor explorar as fraquezas de seus adversários e como lidar com suas maiores ameaças” Felipe Resende;

“Afetam positivamente porque tornam o público mais exigente. E quem faz o futebol (dirigentes, treinadores, atletas) também começam a ver que eles não são os únicos que entendem o que acontece. “Não tem mais bobo no futebol” – essa frase nunca foi tão atual!” Gustavo Fogaça;

“Muitas vezes alguém é fã de alguma coisa, quer se aprofundar e não acha como, aí é normal um desânimo. Se um garoto gosta de basquete, encontra um lugar para ler mais a fundo e aprende, pode acontecer dele não ficar satisfeito e querer dar ainda mais passos para frente: buscar cursos fora do país, ler outros especialistas no exterior, tentar se tornar técnico ou qualquer coisa assim. Um passo seguinte seria a influência da análise, da crítica, sobre o jogo em si. É algo que acontece (ou acontecia) na arte, onde o trabalho do crítico era o de pensar o trabalho que o artista faz, muitas vezes pedindo, exigindo ou inspirando “respostas” do artista. Em um mundo ideal, as pessoas envolvidas no jogo (atletas, técnicos, managers) leriam o que se escreve sobre basquete e usariam isso para seguir pensando o esporte. Seria uma forma da análise mais profunda ajudar a melhorar o jogo” Denis Botana.

“Certamente, e é por isso que cada vez mais os próprios clubes investem em setores de estatística. Ainda que o futebol americano seja mais complexo, o futebol tem sido cada vez mais levado para o lado na ciência nos grandes centros mundiais. Por isso, é importante que o Brasil não fique para trás e, com a utilização dos dados, consiga ver tendências de crescimento e caminhos para a evolução”, Wendell Ferreira;

“Com certeza ajuda. Não só no esporte como em tudo na vida. A partir do momento que se tem claramente o desempenho de alguém, fica muito mais fácil trilhar sua melhora. Assim como a partir do momento que tens o detalhamento de cada jogador da liga, fica mais fácil separar os mais talentosos e que merecem mais dinheiro”, Neimar Souza May.

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