Cultura

Luiza Carravetta e as histórias da guria do IAPI

Em seu novo livro, a professora abre sua vida e afirma que a riqueza espiritual não depende de dinheiro

A Vila do IAPI, em Porto Alegre, um dos mais antigos e maiores complexos habitacionais de país, já foi berço de diversas personalidades gaúchas. Elis Regina, David Coimbra, entre outros. Mas, desta vez, a história é a de uma mulher forte, mas que também representa o carinho, ternura e simplicidade. Uma mulher viajada. Viajada MESMO! São 65 anos conhecendo o mundo e muitas das experiências que ele proporciona. É “a guria do IAPI”, Luiza Carravetta. Jornalista, especialista em Língua Portuguesa, doutora em Letras, pós-doutora em Televisão, Produção, Direção e Roteiro, e com mais de 30 anos de docência.

Em seu novo livro, intitulado, justamente, A Guria do IAPI, ela conta sua própria vida, a história de uma menina pobre, criada numa vila, que consegue traçar uma trajetória acadêmica, tornar-se professora universitária, sendo referência para seus colegas e para seus alunos. E é partindo dos relatos, das lembranças, das experiências e de seu cotidiano, que a professora compartilha conosco exemplos de superação, mostrando que é possível vencer a pobreza material e que nem tudo se resume a dinheiro.

A Guria do IAPI, por Luiza Carravetta. Foto: Michelle Oliveira/Beta Redação.

“A Guria do IAPI”, por Luiza Carravetta. Foto: Michelle Oliveira/Beta Redação.

A Beta Redação conversou com Carravetta a respeito do lançamento de seu novo livro que, segundo ela, foi extremamente difícil de escrever. A ideia partiu de um encontro com as colegas do ginásio depois de 40 anos.

“A minha turma de ginásio decidiu se reunir. Era um grupinho pequeno congregado na casa de uma colega. Tive a ideia de que cada uma de nós contasse um pouquinho da sua história. Voltei daquela reunião e fiz uma crônica. Vivi uma infância e uma adolescência muito ricas. Fui das décadas de 60 e 70, e essas décadas foram as de maiores revoluções. Éramos gurias e nessa fase tu acaba dando uma direção para tua vida. Montei um esquema com sete histórias e uma delas era a minha. Mas não era só a minha, era a história das gurias da Vila do IAPI, histórias de gurias de uma vila muito pobre. Éramos do Ginásio Vila Terezinha, era o ginásio das freiras, então tinha as mais variadas classes sociais. Entre essas classes sociais tinha a minha”.

Carravetta nos conta que nem sempre as coisas foram fáceis em sua vida. Foto: Michelle Oliveira/Beta Redação.

Carravetta nos conta que nem sempre as coisas foram fáceis em sua vida. Foto: Michelle Oliveira/Beta Redação.

Foi durante alguns devaneios que ela entendeu que escrever histórias de outras pessoas não era necessariamente o que ela queria fazer. “Comecei a fazer então um plano de fundo, com pesquisas, mas me dei conta de que estava tentando contar sete histórias quando na verdade queria escrever a minha. Então, precisei me abrir comigo mesma. Eu sabia que ia me expor, expor diversas coisas, mas a minha vida é muito rica em superação. Inclusive digo isso no meu livro, que “‘sou pós-graduada em perdas’. E será que eu colocando isso para fora também não estarei ajudando as pessoas a se entenderem um pouco melhor, a se encontrarem mais, a terem mais sensibilidade para lidar com o outro?”.

“Passei a pensar em qual narrativa essa história teria e me dei conta de que a imagem povoou a minha vida sempre. Um dos meus tios, irmão do meu pai, vindo da Itália, era projetista do Cinema Imperial, na Praça da Alfândega. Eu era uma pirralha e, enquanto meu pai conversava com meu tio lá, eu ficava olhando os filmes pelo buraquinho. Quando estava nos Estados Unidos com a minha filha, assisti o filme Cinema Paradiso (1988) com áudio em italiano, e quando vi aquela cena em que o menino olha também o filme pelo buraquinho eu soluçava de tanto chorar”, relembra.

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A partir daí, Carravetta teve a ideia de pôr em cada capítulo de seu livro o nome de um filme que tenha marcado a sua vida, buscando ligar a história da trama à sua. Além de Cinema Paradiso, tem As Pontes de Madison, Ghost, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Este último, em específico, a autora alega ter sido extremamente difícil de escrever. “Este fala sobre a minha separação, que foi uma coisa muito traumatizante, mas achei que eu não colocasse aquilo minha história ficaria incompleta. Então, escrevi na praia. Outro capítulo muito difícil de escrever se chama ‘Estamos Todos Bem’, onde faço uma relação do filme com a minha família, que era uma família gringa”.

Segundo Luiza, o nome da coleção do livro também é muito oportuna. “‘Viagens da Ficção’, pois é uma viagem para o meu eu interior. Tem fatos reais, mas também pode ser ficcional e tem toda a questão da superação. Mas a maior superação, para mim, é tu sair de uma pobreza material para uma riqueza espiritual. Eu passei muita dificuldade, muita, do ponto de vista econômico, para se chegar numa riqueza, mas a riqueza que eu falo é de valores morais e éticos. A questão do material é efêmera. Quando a gente partir, leva só a roupa do corpo, que muitas vezes nem é a gente que escolhe. Minha vida foi muito pobre do ponto de vista econômico, mas muito rica de vivência”.

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Luiza também afirma lembrar de ver Elis Regina pela Vila do IAPI e que pretende levar o seu livro para mais perto dos moradores do bairro. “A Elis morava um pouco mais pra cima de onde eu morava. Ela era um pouco mais velha do que eu. Elis cantava no Clube do Guri, de manhã, e quando nós íamos para a Matinê, no Cinema Rei, às vezes a víamos lá e achávamos o máximo. Ela era a guria da rádio. Mais velha, sempre arrumadinha, com aqueles vestidinhos. De tantas personalidades que saíram do IAPI, nunca ouvi ninguém falar de lá, falar com orgulho. Tanto que depois que o livro for lançado quero fazer uma palestra no (Colégio) Gonçalves Dias, no Julinho, palestras para falar da Vila, sobre a minha história nesses lugares que passei. Palestras gratuitas, pois acho que nem tudo que a gente recebe deve ser em dinheiro”.

Ela finaliza nos contando que guarda um trecho específico de seu livro com muito carinho. É uma carta escrita por um ex-colega de trabalho da Universidade, onde ele fala abertamente como a vê e cita um dos principais trabalhos da vida acadêmica da professora: um vídeo feitos com as Carmelitas. Veja aqui:


A Guria do IAPI também é tema de um blog onde Luiza Carravetta divide suas aventuras e experiências por onde passa. Você encontra essas histórias em https://asaventurasdaguriadoiapi.wordpress.com/. O livro sobre “A Guria do IAPI” ainda não foi lançado. O evento ocorre no dia 3 de junho, às 16h, na Livraria Cultura do Bourbon Country, em Porto Alegre. Vamos?

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