Esporte

Lugar de mulher também é em campo

Meninas superam preconceitos e dificuldades para realizar sonho de seguir carreira no futebol

Aquela velha história de que “futebol é coisa de homem”, apesar de ser comumente escutada, está longe de ser realidade. Contrariando rótulos e encarando as dificuldades, cada vez mais meninas lutam para realizar o sonho de jogar futebol e ganhar espaço em uma profissão tão masculinizada. Pouco a pouco, mudanças vem surgindo e elas começam a ganhar oportunidades nos clubes.

Foi o que aconteceu com a atleta Júlia Oliveira, 18 anos, lateral do Esporte Clube Pelotas. O interesse pelo futebol começou logo aos seis anos, quando os pais a colocaram em uma escolinha de futebol em Canoas, cidade de onde é natural. Ela passou por mais duas escolinhas na Região Metropolitana até realizar testes no clube pelotense, onde ingressou em fevereiro de 2016.

Júlia deixou a família, os amigos e a cidade para se dedicar exclusivamente ao futebol. “Eu fui para o clube com o objetivo de ser jogadora de futebol, adquirir o ritmo de treinos e jogos. No começo, minha família ficou bem receosa, pois abriria mão de tudo que eu tinha em Canoas. Mas no fim eles perceberam que esse era meu objetivo e hoje sei que tudo valeu a pena”, comenta. Em julho,  ela embarca para os Estados Unidos, onde irá disputar o National Junior College Athletic Association, fruto de uma bolsa que ganhou atuando no clube.

Júlia Oliveira treina na praia do Laranjal, em Pelotas. (Foto: Matheus Kendzerski)

Júlia Oliveira em treinamento funcional na Praia do Laranjal, em Pelotas. (Foto: Matheus Kendzerski)

A decisão da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), que decretou que a partir de 2019 apenas clubes com times femininos poderiam participar da Libertadores, fez com que muitos times aderissem à ideia de contar com um elenco formado apenas por mulheres. Inter e Grêmio anunciaram em fevereiro as equipes. Enquanto o Colorado se prepara para disputar o Gauchão, o Tricolor atualmente disputa o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, na série A1.

A lateral Jissele Agnes, 22 anos, é uma das atletas que compõem o elenco gremista no Brasileirão. Ano passado, ela venceu o Campeonato Gaúcho adulto atuando pelo Duda, de Canoas. A boa atuação na competição rendeu espaço no elenco do tricolor gaúcho, que montou a equipe feminina em parceria com a Associação Gaúcha de Futebol Feminino (AGFF).

Atualmente, a vida de Jissele gira em torno do futebol. “Entrei no clube em fevereiro e no dia 12 de março já estávamos estreando no campeonato. Treino quatro vezes por semana, trabalho e ainda viajo toda a semana com o clube. Apesar da vida corrida, futebol é minha paixão”, relata.

A ponta-esquerda Ana Clara Esteves se prepara para disputar o Campeonato Gaúcho pelo Internacional, no segundo semestre do ano. Natural de Uruguaiana, ela viu a oportunidade de entrar para o Colorado por indicação da atual treinadora do time, Tatiele Silveira. “Eu jogava junto com a Tati na Ulbra, em Canoas. Quando ela me contou sobre o projeto do Inter, participei de uma peneira e fui selecionada. Hoje sei o quanto o clube se esforça pelo futebol feminino e fico feliz por essa oportunidade”, conta.

Jissele Agnes é a lateral gremista no Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. (Foto: Thiago Lopes)

Jissele Agnes é a lateral gremista no Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. (Foto: Thiago Lopes)

Preconceitos e desafios

O preconceito e a falta de valorização do futebol feminino ainda são as maiores dificuldades enfrentadas pelas meninas. “Acredito que o preconceito seja nosso maior desafio.  O futebol é um esporte muito masculinizado, então cria-se uma barreira muito grande para nós, mulheres, mostrarmos nosso potencial. Se você é mulher e quer jogar futebol, tem que provar que joga bem para ter oportunidade”, desabafa Jissele.

As três concordam que a falta de visibilidade e de apoio atrapalham muito no avanço do futebol feminino no Estado. “O futebol feminino é um mundo à parte do masculino. Acredito que a prática desse esporte é quase uma exploração: não tem remuneração, falta apoio e visibilidade”, aponta Júlia.

Os clubes contribuem fornecendo a estrutura, uniformes, bolsas de estudo e transporte. O resto das despesas fica por conta das atletas. “Recebemos alguns benefícios, como ajuda de custos, plano odontológico, Unimed. O clube tenta contribuir da melhor forma possível. O Inter, por exemplo, faz com que o valor pago pelas mulheres que se associam ao clube seja repassado para o futebol feminino”, comenta Ana Clara.

Rotina de estudos e treinos

Com a rotina intensa de treinos e viagens, sobra pouco tempo para se dedicar aos estudos. Por conta da mudança para Pelotas, Júlia teve que trancar o curso de Psicologia, depois de quatro meses estudando. “Eu acredito que seja praticamente impossível conseguir conciliar futebol e estudos. Eu não consegui continuar estudando e optei por seguir no futebol. Claro que foi uma decisão difícil, principalmente pelas pressão familiar, mas não conseguia dar conta”, salienta.

Estudante do 4º semestre de Jornalismo da Uniritter, Ana Clara segue tentando conciliar treinos, estudos e trabalho na Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Porto Alegre. “Posso dizer que é bem difícil. Como o Inter ainda não está disputando nenhum campeonato, consigo manter todos os meus compromissos. Mas não sei como será no futuro”, comenta.

Jissele compartilha do mesmo pensamento. Além dos treinos e viagens com o clube, ela se dedica ao trabalho como professora de futebol no Ipanema Sports, em Porto Alegre, e ao curso de Educação Física na Unilasalle. “É uma rotina bem desgastante e cansativa. Mas enquanto eu conseguir conciliar, mesmo com toda a correria, vai ser assim”, afirma.

Ana Clara no Beira-Rio (Foto: Arquivo Pessoal)

A ponta-esquerda Ana Clara é uma das meninas que compõem o elenco do Internacional.  (Foto: Arquivo Pessoal)

O futuro da profissão

Mesmo com a rotina frenética, as dificuldades e a falta de apoio, as meninas destacam a importância do esporte em suas vidas, e preveem uma melhora na visibilidade do futebol feminino. “Desde as Olimpíadas, quando as pessoas puderam acompanhar mais as meninas do Brasil, o futebol feminino ganhou um pouco mais de destaque. À medida que o futebol vai sendo mais divulgado, abrem-se portas, inclusive para as futuras gerações de meninas, que já se inspiram nos exemplos que aparecem”, aponta Ana Clara.

“Todas as mulheres que chegaram ao sucesso, como é o caso da Marta, passaram por cima de todas as dificuldades, e nós sabemos disso. Ouvimos muitos ‘nãos’ nesse percurso, mas o importante é não desistir e seguir lutando pelo futebol feminino”, acredita Júlia.

Para Eduarda Luizelli, coordenadora de futebol feminino do Internacional, a entrada de futebol feminino nos clubes de visibilidade já pode ser considerado um avanço. “Ver os clubes abraçando essa causa é um passo importante. Seguimos em busca de parcerias, patrocínios e mais apoio, mas não podemos deixar de perceber que o momento é favorável”, opina.

Para Jissele, o Rio Grande do Sul ainda está atrasado no que diz respeito ao assunto, mas ela é otimista quanto ao futuro da profissão. “O Sul ainda está muito atrás dos outros estados, assim como nacionalmente não se percebe muita evolução. Mas acredito que o esporte vai melhorar e estamos trabalhando para isso”, salienta.

Diante de todos os obstáculos, o futebol feminino veio para mostrar que a paixão pelo esporte supera qualquer adversidade. Mais do que isso, veio para provar que lugar de mulher também é dentro de campo.

 

 

 

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