Política

Líderes explicam o movimento contra o impeachment

Para Cristopher Goulart, neto de Jango, tentativa de tirar Dilma do poder é diferente de 64, mas também pode levar a um "estado de exceção"

Ato contra o impeachment reuniu milhares de pessoas no Centro de Porto Alegre. (foto: Vanessa Vargas)

Ato contra o impeachment reuniu milhares de pessoas no Centro de Porto Alegre. (foto: Vanessa Vargas)

O ato “em defesa da democracia” e contra o impeachment da presidente Dilma na Esquina Democrática (onde a Borges de Medeiros e a Andradas se encontram), em Porto Alegre, reuniu milhares de pessoas (80 mil, segundo os organizadores; 18 mil, conforme a Brigada Militar), centenas de cartazes de cunho político e outras tantas bandeiras em apoio ao atual governo. Sob o mantra “não vai ter golpe, vai ter luta”, diversos líderes de opinião discursaram no palco improvisado em meio à multidão na quinta-feira (31).

Um deles foi Claudir Nespolo, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Rio Grande do Sul, uma das 42 organizações do campo e da cidade que compõem a Frente Brasil Popular, organizadora do ato Em Defesa da Democracia. De camisa social gasta e gesticulação firme, Claudir ressaltou que é muito importante o povo vir para a rua protestar contra as recentes articulações do Congresso. “Temos de disputar a correlação de forças, porque eles têm dinheiro e a imprensa, e nós só temos a rua”, pontuou Nespolo.

Sobre a união da esquerda contra o impeachment, ele diz ser fundamental pois é o único meio de denunciar deputados corruptos como Eduardo Cunha (PMDB/RJ) que querem “interromper a democracia”. Nespolo avaliou que o movimento atingiu todas as expectativas ao reunir, além dos porto-alegrenses, manifestantes de diversos municípios do interior gaúcho para discutir “essa barbaridade que é o golpe na presidenta Dilma e nos direitos dos trabalhadores”.

Ainda quanto à mídia, Nespolo foi enfático: “Lamentavelmente, toda grande mídia embarcou no golpe”. Defendeu ainda que os jornalistas, trabalhadores da grande imprensa dominada por uma elite brasileira, segundo ele, pouco têm a ver com os interesses de seus superiores, detentores da última palavra.

Entidades sindicais, movimentos sociais e grupos políticos convocaram o protesto. (foto: Vanessa Vargas)

Entidades sindicais, movimentos sociais e grupos políticos convocaram o protesto. (foto: Vanessa Vargas)

Gritos como “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” foram entoados pelos participantes. Enquanto a noite avançava, era cada vez maior o número de pessoas apoiando o PT. Ary Vanazzi, presidente do partido no Rio Grande do Sul, afirmou que ir para a rua “é a única forma de apoiar a Dilma, defender a democracia e derrotar o golpe”. Para ele, tão importante quanto a manifestação contra o impeachment é fazer com que a presidente mantenha as políticas sociais, aprovando seus projetos.

Vanazzi destacou que nos últimos 30 dias o povo se reuniu três vezes em defesa do atual governo, o que considera uma demonstração da “força política do trabalhador”. Com relação à unificação da esquerda brasileira, Vanazzi considerou: “Pela primeira vez desde 1964, com esses episódios que a burguesia brasileira organizou [referindo-se aos atos pró-impeachment], nós conseguimos a unidade mínima no Rio Grande do Sul e no Brasil”. Vanazzi também elogiou o posicionamento do PSOL, que está na Frente Brasil Popular mesmo após sua ex-candidata a presidente Luciana Genro pedir antecipação das eleições. E completou: “O Brasil hoje se dividiu ao meio: temos um metade de ideologia neoliberal, com uma minoria golpista, com uma ideia do Estado mínimo; e a maioria na outra metade, que tem uma ideia de um Estado capaz de resolver os problemas, de fazer política e distribuição de renda. E essa divisão vai aumentar cada vez mais daqui por diante”.

 

(fotos: Vanessa Vargas)

Um dos mais aplaudidos ao se dirigir à multidão foi Christopher Goulart, neto do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964. O suplente de senador pelo PDT gaúcho falou que não compara trabalhismo com a política do PT por entender que é uma outra origem de proposta. Logo, as razões para a deposição de Jango são diferentes dos motivos levantados contra a presidente Dilma. “Acontece que existem reflexos que se assemelham. Por exemplo: entidades pontuais que apoiaram o golpe em 1964, como a OAB; uma classe média alta que bancaria hoje a deposição de meu avô.”

Outras nuances do momento político de 1964 são percebidas por Christopher: “Naquele momento, o golpe se deu em relação ao avanço das reformas estruturais do Estado brasileiro. Também se usavam os argumentos de comunismo, mas lá tínhamos a situação de Guerra Fria. Hoje isso persiste, sem a conotação de Guerra Fria, mas as motivações são as mesmas. Quando se contrariam privilégios, quando se busca quebra de paradigma, quando se quer subverter uma ordem injusta no sentido da emancipação social, política e econômica, se prepara esse quadro de resistência”.

Ao falar de como se daria o “golpe” no atual contexto histórico, o neto de Jango analisou: “Nós temos um avanço muito forte de um Estado policial judicialesco, onde não se respeitam as prerrogativas básicas da Constituição, e isso também pode ser um estado de exceção. Tanto quanto uma ditadura militar. A minha preocupação é o que pode vir depois da derrocada de uma presidente da República fundamentada num impeachment sem crime de responsabilidade. Não se justifica a deposição de um presidente simplesmente por uma, provável ou não, incompetência administrativa ou baixa popularidade”.

Já de noite, a manifestação seguiu o caminhão de som até o Largo Zumbi dos Palmares. Lá, músicas e palavras de ordem continuaram ecoando entre os milhares de participantes, apoiados por moradores que coloriram suas janelas de vermelho-PT. O ato chegava ao fim, prometendo que a luta vai continuar.

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