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Suicídio: é preciso saber com quem falar sobre o assunto

Campanha Setembro Amarelo usa a internet - potencialmente uma influência maléfica para quem apresenta tendências suicidas - para conscientizar sobre as doenças relacionadas e apresentar canais de ajuda

Luana Schranck e Pedro Nunes

 

Redes sociais podem ser um espaço perigoso para quem  está passando por um período muito difícil da vida. Beta Redação/Luana Schranck

As redes sociais são atualmente um importante meio de comunicação. Nos últimos anos, seu crescimento foi grande. Conforme a empresa eMarketer, cerca de 1,5 bilhões de pessoas as utilizam. No Brasil, há 87,6% de usuários virtuais. Se as redes sociais trazem muitas vantagens para interação entre as pessoas, tornaram-se também um campo praticamente sem limites para os usuários postarem e opinarem sobre qualquer assunto, o que muitas vezes causa problemas.

O poder da redes sociais pode ser bastante maléfico para quem se encontra em uma situação vulnerável por estar passando por um momento difícil na vida.  Existem, por exemplo, grupos nas redes sociais que incentivam pessoas a cometerem o suicídio. O mistério que ronda este tipo de comunidade e a dificuldade de identificar os responsáveis são um grande problema.

O aumento do número de suicídios nos últimos 10 anos, como mostram dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi de 10,4% no mundo. Em razão disso, o Centro de Valorização da Vida (CVV) lançou no Brasil, em 2014, a campanha Setembro Amarelo. Em 2015, o projeto foi expandido mundialmente pela Associação Internacional de Prevenção do Suicídio (IASP). O objetivo é a prevenção e o slogan da campanha é “falar é a melhor solução”. No entanto, é preciso saber como e com quem falar sobre o assunto.

O anonimato que as redes sociais proporcionam faz com que elas possam ser um espaço de comunicação perigoso para quem está sofrendo e naquele momento não consegue enxergar que a depressão, uma das causas do suicídio, é uma doença que pode ser tratada.  O caso mais conhecido no Rio Grande do Sul, e provavelmente no Brasil, é o do adolescente Vinicius Gageiro Marques, de 16 anos, que teve ajuda de internautas de um fórum para cometer suicídio. Na tarde de 26 de julho de 2006, Yoñlu, como era conhecido virtualmente, foi induzido a tirar a própria vida por um grupo de pessoas que participavam desse fórum. A história do adolescente virou filme, que será lançado no segundo semestre de 2017.

Para a coordenadora adjunta do curso de Psicologia da Unisinos, Fernanda Barcellos Serralta, as redes sociais não afetam nem de maneira negativa, nem positiva a pessoa com depressão. “Contudo, podemos estabelecer relações saudáveis, produtivas, criativas e que promovem bem-estar e satisfação, mas também podemos estabelecer relações destrutivas, aditivas, produtoras de mal-estar e sofrimento.” De acordo com ela, no entanto, ninguém se mata apenas por influência. “Ninguém comete suicídio porque algum site incentiva esta prática, mas é claro que isso não significa que a existência desses grupos seja inócua. Ao contrário, constituem uma influência negativa, continuada e acessível, que aumenta o risco de comportamentos suicidas naqueles que estão fragilizados, deprimidos, desesperançados ou confusos.” Ela ainda afirma que a influência negativa é mais forte em adolescentes, como era o caso de Yoñlu, então é necessário cuidado e atenção especial nessa fase da vida, monitorando, se for o caso, os históricos de pesquisas dos computadores dos jovens.

Fernanda afirma também que ficar muito tempo navegando na internet pode ser uma das características de quem está com depressão, já que pessoas com a doença buscam algo para preencher o vazio que sentem.  “Essas pessoas também requerem atenção e cuidado, pois indicam um uso nocivo ou inadequado das redes sociais que produz ou agrava uma situação de sofrimento psicológico que necessita tratamento”, destaca. Mas, evidentemente, não se pode generalizar e afirmar que todas as pessoas que passam muito tempo na internet são depressivas. Cada indivíduo tem uma história e uma situação diferente.

Cyberbullying

Um problema relacionado às redes sociais e ao uso da internet, conforme Fernanda, é o cyberbullying, uma violência virtual em que a vítima sofre comentários depreciativos ou tem fotos divulgadas sem autorização. Ela explica que a violência virtual é muito mais perversa e destrutiva do que a feita pessoalmente em razão da ocultação do indivíduo que está humilhando as vítimas. “O agressor fica mais protegido no anonimato, o que potencializa o nível da agressão. Esses fatores podem aumentar o sentimento de desamparo e impotência da vítima, que não consegue evitar a situação de agressão”, ressalta a psicóloga.

A psicóloga clínica Elisa Menger diz que o cyberbullying pode provocar depressão. “A vítima do cyberbullying pode não suportar a situação de humilhação, não conseguindo resolver determinadas situações e tendo uma baixa no humor, levando à tristeza profunda. A vítima pode apresentar sentimentos relacionados a vergonha, humilhação e culpa”, destaca Elisa. Ela salienta que é sempre preciso ficar atento nos adolescentes e, caso os pais percebam algum comportamento depressivo no filho, é necessário buscar ajuda psicológica.

Diversos casos de cyberbullying são divulgados todo ano, principalmente envolvendo adolescentes. Uma pesquisa feita pela Intel Security aponta que 89% de jovens do mundo já sofreram algum tipo de violência virtual. “Há ainda que considerar que os jovens tendem a desconsiderar o perigo das situações de maior exposição que a internet e a tecnologia digital proporcionam. Não avaliam os riscos quando postam fotos, comentários, vivências e opiniões. Muitas vezes, ingenuamente, expõem-se de modo que ficam mais vulneráveis a este tipo de agressão”, comenta a psicóloga Fernanda.

Casos de cyberbullying já foram relacionados ao suicídio de jovens, embora o suicídio envolva uma interação complexa de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociológicos, culturais e ambientais. Um desses casos foi o da norte-americana Megan Meier, de apenas 13 anos. A garota, que tinha histórico de depressão e tomava remédios para perder peso, matou-se após uma série de ataques virtuais perpetrados no site de relacionamento MySpace por um “amigo” – na verdade, como se descobriu depois, um perfil falso criado pela mãe de uma ex-amiga de Megan. Outro caso parecido aconteceu com o britânico Simon Kelly, de 18 anos, que passava por uma depressão profunda. Simon transmitiu seu suicídio ao vivo pela câmera do computador, e ninguém que estava assistindo tentou impedi-lo.

Em 2013, uma gaúcha de Veranópolis se matou após ter suas fotos íntimas divulgadas na internet. No Piauí, no mesmo ano, outra menina tirou a própria vida após o ex-namorado espalhar pelas redes sociais fotos dela seminuas. Ambas pesquisaram na internet formas de se matar. Este ano, na Rússia, uma adolescente de 12 anos se jogou de um prédio. Meses após a morte, a mãe da menina descobriu que a filha procurava na internet uma maneira de tirar a própria vida.

De acordo com a psicóloga do Núcleo da Pesquisa da Psicologia em Informática (NPPI) da PUC de São Paulo Bruna Benício, a internet pode ser um dos influenciadores para uma pessoa cometer suicídio, embora isso não possa ser considerado fator único. “A depressão pode ocorrer por uma combinação entre fatores orgânicos e ambientes e, a partir dela, levar o sujeito ao suicídio. Quanto aos fatores ambientais, a internet pode sim, certamente, ser um deles”, afirma. Como não existe uma forma efetiva de “controle” do conteúdo publicado,  há informações inadequadas na internet para quem está passando por um momento difícil na vida, assim como grupos bastante maléficos.

 

Vítimas que encontraram grupos do gênero

Após perder a mãe, Claúdia*, de 25 anos, entrou em uma depressão profunda. Mesmo em tratamento psiquiátrico e tomando forte medicação contra a doença, tentou o suicídio duas vezes. “Eu era muito próxima da minha mãe. Meus dois irmãos já tinham saído de casa, então éramos só nós duas. Quando ela faleceu, há quatro anos, fiquei sozinha em casa. Logo, tentei tirar minha própria vida.”

A jovem conta que as duas tentativas de suicídio foram pesquisadas na internet, onde encontrou um grupo que induzia vítimas de depressão a tirar a própria vida. “Não foi tão difícil encontrar. Só pesquisei um pouco mais e encontrei. As pessoas do grupo davam várias sugestões. Um me perguntou se eu queria que fosse rápido, sem dor e até se queria algo impactante”, conta a jovem.

Após as duas tentativas, em ambas as vezes, ela foi socorrida pelos irmãos e encaminhada ao hospital. O sofrimento da família de quem se mata ou tenta o suicídio é enorme. Cláudia foi internada em uma clínica para tratamento intensivo, saindo de lá depois de seis meses. “Nunca mais procurei esses grupos, alguns dizem que podem ajudar a acabar com o nosso sofrimento. São perfis fakes, e é praticamente impossível identificar quem está por trás disso.”

Clara* começou a ter crises de pânico logo depois de um assalto ocorrido na empresa onde trabalhava, em Porto Alegre. De acordo com a jovem, em dezembro de 2012, durante o expediente, ela e seus colegas foram feitos reféns em um assalto dentro da empresa. “Foi muito complicado. Achei que tinha levado um tiro, porque na minha mesa e na do meu colega, que sentava atrás, estava tudo cheio de sangue. Minha roupa, cabelos, braços. Só que era um dos assaltantes que havia dado um tiro na própria mão”, comenta. Assim, Clara passou por tratamento psicológico e teve que ser afastada do trabalho. Naquele momento, tentou o suicídio com medicação, sendo internada em uma clínica psiquiátrica.

Desde então, o quadro foi piorando. Clara recebeu o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline (condição mental grave e complexa, com sintomas instáveis, compreendendo um padrão de instabilidade das relações interpessoais,  dos afetos e da impulsividade, com problemas em relação à autoimagem) e Bipolaridade. Tentou o suicídio mais três vezes, sempre através de métodos consultados na internet. “A internet é um grande problema para quem tem inclinação ao suicídio, ela mais te ajuda a tentar se matar do que a viver”, afirma Clara.

Silvana*, 43 anos, de São Bernardo do Campo (SP), também sofreu com a depressão e já tentou suicídio. Casada duas vezes e com quatro filhas dessas relações, ela se viu em um momento difícil ao perder um bebê, em 2009, no segundo casamento. Entrou em depressão e começou a se mutilar. Chegou a escrever um diário para que suas filhas lembrassem da mãe quando ela já estivesse morta.

Diagnosticada também com Borderline, Silvana descobriu mais tarde que seu marido a traía com outra mulher. O quadro agravou-se. “Eu dependia dele até para respirar”, conta ela. Após ter mais uma filha, que hoje está com oito anos, Silvana viu seu estado emocional piorar e pediu uma licença médica, pois já não tinha condições de lecionar.

No período em que esteve afastada, Silvana começou a frequentar comunidades na rede social Orkut que falavam sobre comportamentos suicidas. ‘’Fui virando zumbi, tomava remédios e ia ao psiquiatra duas vezes por mês’’, conta. ‘’Entrei num grupo em que uma jovem se matou depois de conversar com um participante.” Mas ela conta que também encontrou grupos que a auxiliaram a não tirar sua vida. “Eu tive apoio. Eles me mostraram que eu não estava sozinha, que eles também sentiam a mesma dor e compulsão que eu tinha.’’

 

A internet é um meio que pode ser usado em prol ou contra a vida. Foto: Luana Schranck/Beta Redação

 

A internet também pode ajudar

A psicóloga Bruna Benício afirma que é importante denunciar os grupos que incentivam o suicídio, mesmo que os membros não sejam identificados. “É preciso evitar esses grupos com as políticas públicas que possam impedi-los de prosseguir.” A melhor maneira de ajudar, de acordo com Bruna, é disseminar o conhecimento sobre sinais de risco para o suicídio e oferecer atendimento de fácil acesso e de qualidade para aqueles que estão em sofrimento psicológico.

A especialista e psicóloga Júlia Balieiro Benedini conta que a internet pode também ajudar a evitar o suicídio. Conforme ela, existem grupos de apoio em que voluntários conversam e trocam ideias com quem está com depressão e com tendências suicidas. “Há sites, como o http://www.setembroamarelo.org.br/, que auxiliam essas vítimas a repensarem a vida, a refletirem sobre a decisão de querer tirar a própria vida, e falam de como lidar com a situação”, destaca Júlia.

O Facebook, maior rede social do mundo, que contabiliza mais de 1 bilhão e meio de usuários, lançou recentemente no Brasil uma ferramenta de prevenção ao suicídio. Feita em parceria com o CVV, ela permite que os usuários reportem postagens que contenham, de alguma forma, conteúdos suicidas. Para usar a ferramenta, o usuário que verificar um post com conteúdo suspeito pode alertar ao Facebook. Ao perceber que alguém postou um conteúdo que possa indicar uma tendência ao suicídio ou automutilação, o usuário pode escolher “denunciar a publicação”, clicando na seta no canto direito superior do post.

O Facebook perguntará o que está acontecendo e a resposta deve ser: “acredito que não deveria estar no Facebook”. Depois, a questão é “o que há de errado?”, então o usuário poderá escolher uma opção relacionada ao suicídio.

A pessoa que postou a mensagem com conteúdos que possam supor tentativa de suicídio receberá, então, uma mensagem em seu Facebook. Ela vai avisar que um de seus amigos está preocupado com ele (sem identificar quem fez a denúncia), oferecendo algumas opções possíveis: enviar uma mensagem a um amigo, conversar com um agente do CVV –  no telefone 141, por chat ou  por e-mail  – , ou ainda receber dicas do que fazer.

 

A ajuda contra o suicídio pode ser encontrada no site do Setembro Amarelo. Foto: Luana Schranck/Beta Redação

 

Atenção aos sinais

De acordo com a psicóloga clínica Elisa Menger, é preciso ficar atento a frases que normalmente são ditas por pessoas com tendências suicidas, como por exemplo:

– Minha vida não tem sentido, não sei por que estou vivendo;
– Me sinto triste todos os dias, não aguento mais;
– Eu preferia estar morto;
– Eu não posso fazer nada, não aguento mais;
– Sou um fracassado em tudo que eu faço, me sinto muito angustiado com isso;
– Não consigo me sentir feliz, os outros vão ser mais felizes sem mim;
– Sou um peso para a minha família;
– Tenho vontade de me cortar o tempo todo e quando estou sozinho fico tão angustiado que penso como acabar com esse sentimento.

Elisa ressalta que a baixa de humor e autoestima também são indícios do problema e que é preciso cuidado com os seguintes sintomas: “Humor deprimido na maior parte do dia, podendo apresentar tristeza e sentimento de vazio, acentuada diminuição do interesse ou prazer nas atividades do dia, perda ou ganho significativo de peso, insônia ou hipersonia quase todos os dias, agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias, fadiga ou perda de energia quase todos os dias, sentimentos de inutilidade ou culpa, capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, pensamentos recorrentes de morte, afastamento social”.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, uma pessoa se mata a cada 40 segundos no mundo e a cada três segundos outra atenta contra a própria vida. Ou seja, enquanto você lia esta reportagem, cerca de 15 pessoas se suicidaram. São números assustadores. A internet pode ser um problema para quem está sofrendo, mas, como diz o slogan da campanha Setembro Amarelo, é preciso falar sobre esse assunto, e a internet também pode ajudar na compreensão dessa realidade.

  • os nomes das entrevistadas foram trocados para preservar suas identidades.

Colaboração: Luciano Del Sent.

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