Economia

Jovens na mira do desemprego

Estudo do Ipea lista indicadores que sublinham as condições adversas que brasileiros de 14 a 24 anos enfrentam no atual mercado de trabalho

(Foto: Valdecir Galor/SMCS/Fotos Públicas)

(Foto: Valdecir Galor/SMCS/Fotos Públicas)

 

Alexsandro de Oliveira, 18 anos, deixa o prédio do Sistema Nacional de Emprego (Sine), no centro de Porto Alegre, com a esperança de que a vida melhorará em breve. Pai de um menino de um ano e sete meses, o morador de Viamão, na Região Metropolitana, carrega dois papéis nos quais deposita a sua confiança. Os documentos apresentam datas de entrevistas cujos processos seletivos recrutam interessados em trabalhar em um supermercado e em uma rede de pizzarias da Capital. Apesar das incertezas que rondam os próximos dias, ele garante estar “tranquilo”.

Longe do mercado de trabalho há dois meses, Alex integra uma parcela da população que vem sentindo na pele a força da crise econômica que assombra o país. No primeiro trimestre deste ano, o índice de desemprego atingiu 26,36% entre brasileiros com idades entre 14 e 24 anos, conforme levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ou seja, o estudo leva em conta tanto trabalhadores em fase adulta quanto adolescentes com menos de 16 anos, que podem atuar apenas na condição de menor aprendiz.

O Ipea também salienta que a proporção de jovens desocupados, que girou em torno de 8% em 2015, subiu para 13,2% em 2016. Por outro lado, após atingir o pico de 44% no terceiro trimestre de 2012, os ocupados eram 37% entre os últimos meses de janeiro e março — o restante dessa parcela é formada por aqueles que só estudam e os “nem-nem”, que não frequentam instituições de ensino e tampouco estão inseridos no mercado.

A título de comparação, o índice geral de desemprego do país atingiu 10,9% no primeiro trimestre deste ano, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Essa situação sempre atingiu mais os jovens, mas o que não é normal é uma taxa tão acentuada”, frisa o professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFRGS Giácomo Balbinotto Neto.

A avaliação do Ipea leva em conta estatísticas e microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE,  e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Ao analisar o quadro indicado pelo estudo, o professor de Economia Social do Trabalho da UFRGS Cássio Calvete menciona que o crescimento da desocupação entre jovens tem diferentes origens. No entanto, acredita que a falta de experiência profissional é a principal delas. “Em todo o mundo, o jovem acaba tendo mais dificuldade para se inserir no mercado”, ilustra.

Para Neto, a situação adversa tende a ganhar ainda mais força ao longo de 2016. O professor enxerga um tímido alento aos jovens no final do ano, com a abertura de vagas temporárias em atividades de comércio e turismo. “O essencial para o país é a retomada da atividade econômica, o que poderá ocorrer apenas em 2017”, estima.

Opinião semelhante é a da economista Iracema Castelo Branco, coordenadora do Centro de Pesquisa de Emprego e Desemprego da Fundação de Economia e Estatística (FEE). Para ela, a melhora do cenário encontrado por jovens passa, sobretudo, pela recuperação das enfermidades em nível macro. “A principal necessidade é o país voltar a crescer e, consequentemente, a gerar mais empregos”, sustenta.

Iracema menciona que o resgate da atividade econômica possibilitaria, por exemplo, que os jovens permanecessem mais tempo nos bancos da faculdade. “É bom que eles tenham condições de apenas estudar sem a obrigação do trabalho. Com o avanço da escolaridade, a probabilidade de que ganhem mais no futuro é maior”, destaca.

Relação entre livros e trabalho

De acordo com a pesquisa do Ipea, a taxa de jovens que somente estudavam estava em 35% em 2012 e subiu até 38,2% no último trimestre de 2014. Entretanto, com o aprofundamento da crise econômica, regrediu para 36,3% entre os últimos meses de janeiro e março.

Ao olhar para a situação nacional, Iracema traça um comparativo com os números da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA). As estatísticas locais indicam que, apesar do período de recessão, o contingente de jovens com idades entre 16 e 24 anos que se dedicam apenas aos livros cresceu de 21% em 2009 para 26,8% no ano passado. Além disso, nos quatro primeiros meses de 2016, o índice variou entre 31,7% e 30,4%.

“A gente, aqui no Sul, ainda observa que boa parte dos jovens só estuda. Mas, é claro, se for mantido o quadro de deteriorização econômica no país, com desemprego e queda de renda, é de se esperar que as famílias não consigam manter os filhos apenas nas escolas e faculdades”, explica Iracema.

 

Embora insuficientes, ações relacionadas à vida acadêmica que possam amenizar os impactos da recessão entre os jovens, conforme a pesquisadora, são bem-vindas. Uma delas é o estímulo ao empreendedorismo, que fomenta o pensamento criativo em meio à competitividade do mercado de trabalho. “É algo válido, mas tem alcance limitado quando não há poder econômico”, pondera Iracema.

Entrevista de emprego: o que fazer?

Para a professora da graduação em Gestão de Recursos Humanos da Unisinos Ana Cláudia Bilhão Gomes, é natural que os jovens, em razão da pouca experiência profissional, sintam insegurança durante processos seletivos. Segundo ela, é importante que os candidatos tentem identificar as suas qualidades e busquem informações sobre o ambiente das empresas.

“No momento da entrevista, é fundamental demonstrar interesse, prestar atenção nas perguntas, dar respostas claras e de acordo com o questionado. É um momento um pouco tenso, mas, mesmo assim, manter a calma, demonstrar autoconfiança e ser você mesmo ajudam muito”, enaltece.

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