Esporte

Jovem é convocado para seleção brasileira de atletismo paralímpico

Paratleta de Portão competirá no Open Internacional de Atletismo e Natação

Olhar para o meu passado e ver até onde eu cheguei, ver os mais novos se inspirando em mim, mexe comigo, é muito emocionante”. É assim que Gilsinei da Rosa, mais conhecido por Gil, enxerga a sua trajetória de vida dentro do esporte e, principalmente, do atletismo paralímpico.

Competidor de corridas de 100 e 200 metros rasos e salto em distância pela classe T36, categoria correspondente a atletas com paralisia cerebral, ao longo dos seus 20 anos Gil coleciona mais de 60 medalhas em sua carreira e, pela primeira vez, foi convocado para a seleção brasileira de atletismo paralímpico para disputar o Open Internacional de Atletismo e Natação, evento que reúne atletas dos cinco continentes.

Toda essa história teve início em 2010, quando o coordenador das Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAEs) do Rio Grande do Sul e professor de Educação Física na APAE de Portão há 20 anos, Paulo José Antoni e a direção daquela época decidiram investir mais no esporte competitivo, além do que já era feito na parte lúdica e de saúde dos alunos.

Durante aquele ano, o professor separou alguns momentos das aulas para fazer treinos mais específicos, focados nas competições. De acordo com Paulo, a instituição sempre levou alunos para os torneios promovidos pelas APAEs, mas, em 2011, quando o Governo do Rio Grande do Sul começou a participar das paralimpíadas escolares, foi uma grande mudança.

Nós começamos devagar e tudo isso se formou meio que como um sonho. Fomos pensando que talvez em um futuro distante conseguiríamos um atleta paralímpico. E mesmo sendo tudo muito novo e experimental, levamos 5 competidores para as paralímpiadas escolares. Naquela competição, o Gil conquistou três medalhas de ouro.

Paulo conta que naquela edição, como era a primeira vez que alunos do Rio Grande do Sul participaram, a seleção foi feita sem os critérios tradicionais de desempenho, com cada instituição levando os jovens que eles acreditavam que se sairiam melhor. A partir de 2012, foram criadas competições que fariam essas avaliações, fazendo uma seleção para as paralímpiadas escolares a partir das performances dos competidores. Com isso, o nível de competitividade aumentou e também a dificuldade de levar alunos para participarem da olimpíada. “Essa é a ideia. Com o tempo a ideia foi se espalhando, mais gente começou a se interessar e com isso aumentou o nível de dificuldade. Isso é muito bom para o esporte”.

LONDRES- Jogos escolares 2012 313

Gil nos jogos escolares em Londres – 2012 (Foto: Arquivo/Paulo Antoni)

Neste período, Gil, que estava com 15 anos e apresentava bons resultados, se inscreveu para disputar pela primeira vez o Circuito Loterias Caixa, que é organizado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro e é considerado o evento paralímpico mais importante do Brasil nas provas de atletismo, natação e halterofilismo. Na primeira participação, Gil, que disputou o torneio contra jovens e adultos também, conquistou duas medalhas de prata nas disputas regionais, mas não conseguiu o índice para se classificar nas etapas nacionais.

Mas isso não foi algo que o desanimou. Pelo contrário, ele sempre procurou se esforçar ao máximo para chegar ao seu melhor e continuar competindo, algo que revela ter carregado consigo desde sempre, tanto no esporte, quanto nas competições.

Eu sempre gostei de esporte, a minha vida inteira. Comecei com uns 7 anos a praticar aqui na APAE. Quando eu fiz a minha primeira corrida de 100 metros rasos, eu corri e devo ter caído umas dez vezes. Mas toda vez que eu caía, eu me levantava e continuava correndo. Aquela vontade de querer continuar correndo e buscar o meu objetivo, que era uma medalha, que dá uma emoção a mais.

Cinco anos atrás, durante o Circuito, ele foi selecionado para participar de um intercâmbio em Londres, sendo o único representante masculino do Brasil como paratleta de atletismo. A viagem foi uma atividade para trocar experiências no parque olímpico do país, que foi sede em 2012 e que pretendia dar novas ideias aos atletas e comitê do Brasil, já que o país seria a próxima sede das Olimpíadas e Paralimpíadas em 2016.

Gil conta que a viagem serviu como uma motivação para que ele continuasse no atletismo, com o foco cada vez maior. “Eu sempre gostei mais de futebol, mas indo viajar com a delegação e estando lá pelo atletismo, me deu vontade de querer continuar nesse esporte e focar no que eu sou melhor”, revela. Ele também afirma que foi uma experiência marcante em sua vida:

Conhecer uma cultura totalmente diferente, pessoas diferentes e comidas diferentes foi uma coisa ótima, isso me ajudou muito. E eu fiquei em segundo no salto em distância naquela época. Quando eu saí do estádio e vieram adultos e crianças me pedir autógrafos, foi algo que mexeu comigo. Ali eu vi o que queria mesmo pra mim.

Paulo revela também que essa grande viagem teve outro impacto importante na vida de Gil. “Ele ir para Londres, acompanhado da delegação, mas sem os pais, mudou a perspectiva da família em relação a ele. Antes a gente acreditava que ele tinha essa proteção grande, um medo muito grande dele cair e se machucar, o que é algo natural de atleta. Depois que ele voltou de Londres, isso mudou, criou uma certa independência”.

Todas essas conquistas vieram através de muito esforço e superação do Gil, que sempre treinou para que pudesse alcançar os melhores tempos e se superar como atleta. Para se manter no nível competitivo, ele se treina de segunda a sexta-feira, no mínimo uma hora por dia. De acordo com ele, cada treino é diferente, sendo de resistência, arrancada e velocidade, por exemplo. Ele também explica como o esporte o ajudou a conseguir uma mobilidade melhor. “Eu tinha muita limitação antes do esporte. Era algo muito forte há dez anos atrás. E pra poder evoluir, não só fisicamente, eu vi que eu precisava de uma motivação. Ver os outros correndo, ou indo mais rápido que eu, me dava aquela vontade de ser mais rápido. O esporte me ajudou nessa parte”.

O professor e técnico Paulo Antoni ao lado de Gil (Foto: Arquivo/Paulo Antoni)

O professor e técnico Paulo Antoni ao lado de Gil (Foto: Arquivo/Paulo Antoni)

De acordo com a diretora da APAE de Portão, Carmen Lúcia de Souza, a experiência de vida do Gil, tanto no esporte, quanto nos outros meios é algo inspirador para as outras pessoas. Ela também conta que ele assumiu um cargo de “autodefensor” da instituição, que seria uma espécie de porta-voz dos alunos, levando às assembleias as necessidades e sugestões de todos.

O Gil quando chegou aqui, os médicos diziam que ele não iria nem falar, nem caminhar e tudo mais. A partir disso, tivemos todo o trabalho da estimulação precoce e dos atendimentos. Hoje ele é o que é, um atleta da seleção brasileira. Ele está sempre se superando, controlando os treinos dos colegas, incentivando quem não ganha medalha a continuar e não desistir.

Carmen também afirma que Gil pretende se candidatar para assumir o cargo de porta-voz dos alunos das APAEs no Estado e possivelmente depois, em nível nacional. “Ver um atleta na seleção é algo que a gente jamais pensou. Nós estamos sempre incentivando, buscando recursos, trabalhando ao lado. Ver o nome dele ali é muito gratificante e temos um orgulho imenso desse menino”, afirma.

Perguntado sobre o que deseja para o seu futuro, Gil tem duas respostas, que se complementam através do esporte. Quando se formar no ensino médio este ano, quer conseguir um emprego de meio turno, para que possa continuar praticando o esporte. Ele diz que o preconceito ainda é grande para entrar no mercado de trabalho, mas que não pretende desistir dessa procura. E, quando fala especificamente do seu futuro no esporte ele revela:

Eu quero muito ir pra Paralimpíada de Tóquio em 2020. Pretendo fazer faculdade de Educação Física, porque eu gosto muito, quero investir no esporte. Eu quero ser um professor que possa ser exemplo para todo mundo, como eu fui e estou sendo como atleta. Continuar evoluindo na minha carreira e buscar o recorde brasileiro, depois o sul-americano e depois pensar no recorde mundial.

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