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Jornada tripla de trabalho

A rotina de quem concilia família, carteira assinada e extra como motorista autônomo

Marcos Benz Ulguim, representante comercial de dia e motorista do Uber e da Cabify à noite. Foto: Luis Felipe Matos/Beta Redação

Marcos Benz Ulguim, representante comercial de dia e motorista do Uber e da Cabify à noite. Foto: Luis Felipe Matos/Beta Redação

 

Aplicativos de transporte, como o americano Uber e o espanhol Cabify, além de proporcionarem mais opções de locomoção e conforto para os passageiros, são também uma segunda alternativa de renda para seus motoristas.

Em seu site, o Uber convida os motoristas a tornarem-se autônomos. “Muita coisa está acontecendo na cidade e a Uber facilita muito para você aproveitar e ganhar dinheiro”, afirma o texto em destaque na página. Para o Cabify, a ideia é aproveitar o tempo ocioso de seu carro (ou carros, já que a plataforma anuncia o cadastramento de frotas) para trazer uma renda extra aos interessados.

Marcos Benz Ulguim é um dos porto-alegrenses que optou por esta nova forma de renda. Contudo, antes de ser motorista com o Uber e o Cabify, ele já era representante comercial em uma distribuidora de medicamentos hospitalar na Capital do Rio Grande do Sul. E continua sendo.

São 15 anos com carteira de trabalho assinada, que garantem a Marcos seu salário como vendedor de medicamentos para hospitais do Estado. Sua rotina é contatar os clientes da empresa por telefone ou registrar os preços dos produtos pelos sistemas de pregão eletrônico, como o Bionexo, para efetivar as vendas e sua comissão extra. “Eu ganho comissão pela venda e recebo o meu fixo também”, explica ele.

Casado com Ana Carolina Borges e pai de três meninas, Marcos percebeu que para colocar todas as contas em dia, precisava ganhar mais. Isso, sem perder de vista sua história como vendedor e a certeza do seu provento mensal. Depois da repercussão sobre os ganhos com o os aplicativos de transporte e de conversar com amigos, o representante de vendas resolveu cadastrar-se no Uber. “Anda tudo muito caro. É o colégio, é a creche. Com as três meninas, essa foi a maneira que achei para ganhar uma renda extra.”

Marcos identificou nos aplicativos de transporte uma forma flexível de trabalhar. Ele determina o horário, optando pelos com maior demanda de clientes. Dessa forma, não fica esperando muito tempo por uma corrida ou até mesmo a tarifa pode aumentar conforme a procura. “Tenho que dormir cedo de segunda a sexta. Mas uso mais aos finais de semana, me ligando nas saídas de shows, jogos de futebol e aproveitando a tarifa dinâmica que paga mais.”

 

 

Com toda essa correria, ele precisa fazer algumas manobras para aproveitar o tempo que sobra. Para Ana Carolina, o novo trabalho tira o tempo do marido com a família. “Sinto falta de sairmos e dele fazer alguma atividade com as crianças”, lamenta ela. Técnica de enfermagem, ela trabalha de segunda a sexta em dois hospitais de Porto Alegre e afirma ainda que preocupa-se com a segurança de Marcos. “Até a hora dele chegar, eu não durmo direito.”

Marcos conta que a insegurança aumentou com a aceitação de dinheiro em espécie pelo Uber. Contudo, lembra-se de apenas uma situação pela qual tenha corrido o risco de ser assaltado. “Me chamaram numa região mais afastada. Quando cheguei, conferi a identificação do cara e, assim que abri a porta, ele chamou mais uns três junto. Não tinha mais como recusar.” No final, não aconteceu aquilo que o motorista temia, mas o deixou tão preocupado que decidiu parar por aquela noite e voltar para casa.

Novas tecnologias apresentam novas relações de trabalho

Apesar de existirem há quase uma década, os aplicativos de compartilhamento de transporte ainda são uma novidade no mundo. E, por serem tão recentes, as leis trabalhistas brasileiras não estão preparadas para compreender inteiramente os vínculos entre empresas e motoristas. Em sentença assinada em 13 de fevereiro deste ano, o juíz Márcio Toledo Gonçalves, da 33ª Vara trabalhista de Belo Horizonte/MG,  reconheceu o vínculo trabalhista entre a Uber e o motorista Rodrigo Ferreira, autor da ação.

A defesa da empresa alegou a impessoalidade entre as partes. Segundo ela, o aplicativo apenas aciona o motorista mais próximo para atender ao chamado do cliente, o passageiro que utiliza o aplicativo. Mas o argumento não foi procedente, segundo o juíz. Para ele, um dos critérios que o levou a essa decisão é o fato de a empresa selecionar seus motoristas. “Não se pode confundir a pessoalidade marcante da relação motorista-Uber com a impessoalidade da relação usuário-motorista. Assim, da mesma forma que, na maioria das vezes, não podemos escolher qual cozinheiro irá preparar nosso prato em um restaurante ou qual vendedor ira nos atender em uma loja de sapatos, não é dado ao usuário do aplicativo o poder de indicar qual motorista o transportará.”

Conforme pode ser consultado no Processo de 2° Grau: RO-0011359-34.2016.5.03.0112, a empresa Uber ficou responsável por pagar férias, horas extras e demais direitos trabalhistas ao motorista Rodrigo Ferreira.

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