Esporte

Irmãos de Esteio trazem medalha de prata do Mundial de Sumô no Japão

Conheça a história de Isamu e Yuuki Sato, do Sul do Brasil ao pódio na Terra do Sol Nascente

Os irmãos Isamu (E) e Yuuki Sato conquistaram o vice-campeonato mundial de sumô na categoria juvenil / Foto: Cassiano Cardoso

Não há dúvidas de que o Brasil é o país do futebol, e vice-versa. De acordo com o Diagnóstico Nacional do Esporte (Diesporte), divulgado em junho pelo Ministério do Esporte, 42,7% da população brasileira tem o costume de bater uma bolinha de vez em quando. Em seguida no ranking aparecem esportes como vôlei e natação. As artes marciais representam um percentual de apenas 1,3%. Entre elas, o sumô.

A história dos irmãos esteienses Isamu, 16 anos, e Yuuki Sato, 15, dentro do esporte começa antes mesmo do nascimento. O pai, o advogado Antenor Sato, 45, foi iniciado no sumô ainda criança. O gosto do rikishi (como é chamado o atleta iniciante) pelo esporte cresceu, levando-o a disputar campeonatos. “Minha ligação com o sumô vem de uma tradição familiar. Desde que iniciei, aos sete anos, tenho participado ativamente”, conta Sato.

Se a caminhada do pai iniciou cedo, a dos filhos começou ainda mais. “Nos colocaram para treinar com três anos”, lembra Yuuki. Em se tratando de uma tradição, a mãe, a administradora Anelise Sato, 42, conta que não houve muita opção. “Todos os outros esportes foram opcionais, mas o sumô era obrigatório”, brinca. Ainda assim, de maneira leve: “Inicialmente a cobrança não era forte”, diz Sato. O treinamento passou por cidades com colônias japonesas e forte presença da cultura oriental, como Ivoti, Nova Petrópolis, Gravataí e Itaqui.

Seguindo o sol nascente

Em julho de 2014, recém-saídos do campeonato brasileiro – em que Yuuki garantiu a primeira posição e Isamu ficou em terceiro -, os irmãos iniciaram a preparação para o Mundial, disputado pelo pai em 1998. Na competição, eles disputariam a categoria juvenil, que os fez enfrentar atletas dois anos mais velhos que eles. Contudo, isso não foi problema. “A ideia era ganharmos experiência”, conta Yuuki. Dessa forma, a classificação dos dois para a competição superou até mesmo as expectativas do pai. “Eles seriam muito novos, mas treinamos para encarar a seletiva que ocorreu em São Paulo em abril e eles, surpreendentemente, se classificaram”, lembra Sato. As etapas anteriores da competição, antes da disputa em solo japonês, ainda levaram os irmãos a Bielorrússia, Geórgia e Mongólia.

Com a notícia de que os irmãos Sato haviam alcançado a classificação para o Mundial no outro lado do globo, outra preocupação surgiu: os custos da viagem. “Tentamos patrocínio, mas não foi possível”, lamenta Sato. A ideia então foi juntar dinheiro. Além da venda de rifas, camisetas e souvenirs em eventos, algumas empresas e amigos ajudaram a bancar os custos. Durante toda a corrida pela arrecadação, os irmãos precisaram manter o foco nos treinamentos. A preparação se intensificou, contando inclusive com treinos de judô para auxiliar na condição física e garantir a base que é fundamental para as lutas.

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Delegação brasileira no Campeonato Mundial de Sumô 2015. Acima: Vitória Trajano, Sarah Gomes e Camila Fukushima. Abaixo: Manoel Panissa, Isamu Sato, Yuuki Sato e Vitor Camargo. De preto, à direita, o treinador Fernando Yoshinobu / Foto: Arquivo pessoal

 

Escalando o Fuji

No Japão, os esteienses contaram com mais dois brasileiros na equipe: Vitor Camargo e Manoel Panissa. Os técnicos, Fernando Yoshinobu e William Takahiro Higuchi, vieram de São Paulo para orientar os atletas durante a competição e não participaram dos treinamentos dos irmãos Sato. A preparação ficou mesmo por conta do pai, com treinos individuais, ensinando novas técnicas e formas de lutar com diferentes pessoas. E foi na terra de seus ancestrais que os irmãos Sato encararam sua maior prova.

“A primeira luta foi tensa. Mas foi interessante, porque depois o nervosismo sumiu”, conta Isamu. Do outro lado, acompanhando as lutas em três computadores “para garantir” e sob o efeito de muito café, estavam a família e os amigos. “São lutas muito rápidas, não dá para sair da frente da tela. Mas foi um grande orgulho ver eles ganhando de antigos rivais como a Mongólia”, conta Anelise. A equipe brasileira acabou conquistando a prata ao perder na final para o Japão. Os irmãos, em seu primeiro Mundial – disputado nos dias 29 e 30 de agosto – e lutando contra atletas mais velhos, haviam superado todas as expectativas. “Foi uma experiência emocionante, triunfante e revigorante. Quando recebi a medalha parecia que eu podia lutar mais 20 lutas”, lembra Isamu.

Apesar da pouca visibilidade no Brasil, os atletas notam um crescimento na prática do esporte. “Temos trabalhado intensamente para que o sumô cresça ano a ano. Os resultados têm mostrado evolução, tanto que este ano foi o melhor dos últimos dez”, conta Sato. A mãe lembra do esforço coletivo: “Este é o resultado de trabalho e esforço de muitas pessoas. São medalhas de toda a comunidade que se mobilizou para que eles chegassem lá”.

Ainda assim, a pouca informação acaba criando uma ideia um tanto errada no Brasil. “Os meus amigos perguntavam se não tinha que ser pesado para lutar. Percebo que ainda tem um pouco de senso comum e preconceito na percepção das pessoas quando comento que luto sumô. Então, eu explico as técnicas e dou às pessoas uma nova visão sobre o esporte”, afirma Isamu, que promete seguir lutando para manter a tradição. A experiência, entretanto, foi o ponto alto, segundo Anelise: “Procuramos sempre passar valores como humildade e respeito para eles. Vejo o Mundial também como uma oportunidade, pois lá eles conheceram outras culturas e conviveram com pessoas do mundo todo”.

Após o retorno ao Brasil, os atletas foram recepcionados em Esteio com muita emoção, incluindo desfile no caminhão dos bombeiros na última terça-feira, dia 8.

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Medalha de prata conquistada no Campeonato Mundial de Sumô de 2015 em Osaka, no Japão / Foto: Cassiano Cardoso

 

Entenda o esporte

O sumô é considerado o esporte nacional do Japão, figurando no livro Kojiki (crônica do passado), de 712 d.C., como sendo uma luta entre dois deuses que se originou em 660 a.C. De lá pra cá, o sumô é praticado seguindo as regras e tradições estabelecidas desde a sua origem.  No Japão, os lutadores vivem em academias, onde se hospedam a partir dos 12 anos. Para tanto, precisam passar por um exame rigoroso. Lá, os treinos duram cerca de cinco horas, iniciando às 5h e terminando às 10h.

A temporada oficial é composta por seis campeonatos que duram 15 dias. Oitocentos e cinquenta lutadores divididos em seis categorias participam da disputa. Os integrantes das quatro categorias inferiores não recebem salários, ganhando somente treinamento, alimentação e alojamento. Já a segunda divisão profissional conta com 26 lutadores, enquanto a categoria máxima é composta por 42.

Sumô no Brasil

O primeiro campeonato de sumô no Brasil ocorreu em 1912, em Guatapará/SP. O Campeonato Brasileiro já é realizado há mais de 50 anos. A Confederação Brasileira de Sumô foi criada em 1998 e, dois anos depois, foi realizado o primeiro Campeonato Mundial de Sumô fora do Japão. O esporte foi tão difundido no país que alguns brasileiros lutam profissionalmente nas terras nipônicas.

Curiosidades

  • A luta é marcada por rituais de xintoísmo, uma manifestação religiosa originada na pré-história do Japão. A referência mais antiga do esporte é do século 2 a.C.
  • Dois mitos fazem parte da história de origem do sumô: a influência dos duelos entre ursos da ilha de Hokkaido e a lembrança do desafio entre os deuses Takemikazuchi e Takeminakata, com o objetivo de controlar as ilhas na costa de Izumo.
  • O ringue circular surgiu no século XVI. Antes, os combates aconteciam em qualquer lugar aberto e ganhava quem derrubasse o adversário.

Regras

Os oponentes lutam em um círculo de 4,56m de diâmetro, sobre o chão de terra batida. É considerado perdedor quem sair do círculo ou tocar o chão com qualquer parte do corpo que não seja a sola do pé. Em média, o combate dura 30 segundos, podendo chegar a, no máximo, 3 minutos. É proibido tudo o que possa machucar propositalmente o adversário, como:

  • Soco, pontapé, joelhada, dedada, cotovelada;
  • Puxar cabelos, enfiar dedos nos olhos, dobrar os dedos do adversário;
  • Enforcar o adversário, abraçar entrelaçando os dedos;
  • Segurar na parte do mawashi (vestimenta) que fica na vertical;
  • Ao vencer, comemorar excessivamente ou humilhar o adversário;
  • Utilizar gargantilhas, anéis, brincos, pulseiras, chapéus, perucas etc. durante a luta.

 

Assista a uma das lutas de Yuuki no Mundial:

 

Reportagem: Francine Malessa, Pedro de Brito e Thaciane de Moura.

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