Geral

Internet limitada no Brasil: quem pode ser afetado pelas mudanças

Gamers, pesquisadores, alunos do EaD, youtubers e todos nós seremos impactados pela medida que acaba por limitar o acesso à informação disponível na web

13510623_1022574044525507_266148604_nOs brasileiros foram pegos de surpresa quando, em abril deste ano, a empresa de telefonia Vivo comunicou que seus contratos firmados a partir de fevereiro já contariam com as novas regras de franquia de dados nos serviços de internet banda larga, que estabelecem um limite para o consumo, a exemplo do que já acontece com os contratos de internet móvel.

Embora essa medida já fosse praticada por outras operadoras, como NET e Oi, foi a partir do anúncio da Vivo que a indignação coletiva teve início. Tendo como palco a própria internet, usuários comuns, gamers, pesquisadores, ativistas digitais, entidades de defesa do consumidor e até a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) se manifestaram em repúdio às mudanças.

Pressionada pela opinião pública e por setores do governo, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) decidiu proibir a adoção dessa prática pelas operadoras de internet banda larga por tempo indeterminado.

Mas o temor de que a medida seja adotada de forma efetiva ainda não cessou, e gera preocupação entre aqueles que dependem do acesso à internet para trabalhar, pesquisar, estudar, se informar e se divertir. Descubra, a seguir, como as operadoras desejam que a cobrança funcione, e entenda quem seriam os principais afetados pelas mudanças.

Novo sistema de cobrança se baseia no consumo de dados

De Norte a Sul, o Brasil nunca esteve tão conectado. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2014, divulgados no início de abril pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade dos 67 milhões de domicílios brasileiros tem acesso à internet, seja por meio de conexão banda larga fixa ou móvel.

Só que, segundo as operadoras, esse crescimento da demanda é um empecilho para garantir a qualidade da conexão. O argumento é de que o modelo de oferta de internet fixa ilimitada – adotado atualmente – é insustentável, porque a receita gerada não cresce no mesmo ritmo do tráfego de dados.

Se o modelo de contrato que prevê um limite de dados for adotado pelas operadoras, o usuário terá o acesso à internet interrompido ou a velocidade reduzida drasticamente ao consumir o volume de bits contratados.

E não é preciso ser um hard user para que isso aconteça. Apenas para efeito de comparação: assistir a uma hora de vídeo em alta resolução no serviço de streaming Netflix consome cerca de 3 GB, segundo estimativas da empresa. Assim, dois episódios por dia são suficientes para acabar com uma franquia de 180 GB por mês – enquanto o maior plano previsto pela Vivo é de 130 GB.

É fácil perceber, portanto, que a limitação tem o potencial de mudar drasticamente os hábitos de consumo do usuário brasileiro. Mas quem realmente sai perdendo com a internet limitada?

Quem será afetado pela internet limitada no Brasil

A rigor, todos os consumidores serão afetados pela mudança, e isso provoca interferências inclusive sobre o exercício da cidadania, como apontam as publicações da International Telecommunication Union (ITC).

Pelo resultado da enquete online realizada pelo Senado Federal entre 16 de maio e 15 de junho, os internautas não têm dúvidas de que a implementação do novo sistema de cobrança seria prejudicial: 99% das 608.470 pessoas que responderam ao levantamento – participação recorde – é contra a limitação de dados na internet de banda larga fixa. Além disso, 89% dos participantes entendem que os gastos dos clientes vão aumentar caso a medida seja efetivada.

Para Rafael “Chanceler” Costa, Head of Public Relations da paiN Gaming, uma das quatro maiores equipes de eSports do Brasil, limitar – e tornar mais caro – o acesso à internet é um retrocesso tecnológico. “Cada vez mais a tecnologia avança e, com isso, empresas prestadoras de serviços precisam se modernizar e se adaptar a esta nova realidade”, argumenta.

Confira a seguir as perspectivas futuras dos principais usuários que seriam afetados pela medida.

Gamers e profissionais do eSport

O mercado global de esportes eletrônicos deve gerar receitas superiores a US$ 436 milhões em 2016, de acordo com dados da consultoria Pricewaterhouse Coopers. Uma das fontes de renda dos jogadores profissionais é a transmissão de partidas via streaming, em sites como Twitch, Livestream e Azubu. Com a limitação no consumo de dados, a tendência aponta para queda da audiência e, consequentemente, da receita.

Mas, para Rafael Costa, da paiN Gaming, o maior prejuízo para quem vive dos eSports – ou esporte eletrônico, competições de games – diz respeito ao treinamento. “A limitação da banda larga como um todo prejudicará inclusive o treino de nossos jogadores, que disputam partidas online para se preparar para campeonatos, melhorar entrosamento etc. Isso sim será muito prejudicial tanto para a paiN quanto para qualquer outra empresa que atua nos eSports”, finaliza.

Pesquisadores

O mundo acadêmico será fortemente impactado caso o limite de dados seja adotado pelas operadoras. Cientistas, pesquisadores, estudantes e professores terão de escolher quais arquivos baixar e quais ignorar, monitorando o fluxo de dados.

Trata-se de um passo para trás na luta pela descentralização do poder da informação e pela democracia digital, conceitos historicamente defendidos por especialistas e ativistas como Steven Levy e Aaron Swartz, ícones que dedicaram boa parte de suas vidas a tornar a internet livre e acessível a todos.

Para se ter uma ideia do risco que essa restrição representa para o acesso à informação e o exercício da cidadania, basta perceber que o vazamento de documentos que ficou conhecido como “Panama Papers” não seria acessível para pesquisadores independentes.

Foi isso que concluiu o analista de sistemas Pedro Cordeiro, que criou um post no fórum Reddit para relatar o problema. Segundo ele, fazer o download dos dados do “Panama Papers” (cerca de 2,6 TB de informações) levaria pelo menos 20 meses para usuários cujo consumo de dados é restrito a 100 GB.

Alunos de cursos a distância

A popularização da educação a distância (EaD) permitiu que alunos com dificuldades de acesso pudessem estudar no conforto das próprias casas. A economia de tempo e dinheiro é apontada como uma das principais vantagens desse modelo de ensino, recomendado principalmente para alunos autodidatas.

Segundo o Censo da Educação Superior 2013, o mais recente do segmento, mais de 15% das matrículas em ensino superior são em cursos de ensino a distância. Atualmente, o Brasil oferece mais de 1,2 mil opções nessa modalidade. Mas tudo pode mudar caso a restrição do consumo de dados seja adotada.

Cobrada pela sociedade civil, a Associação Brasileira de Educação à Distância (Abed) emitiu uma carta aberta manifestando seu repúdio à possibilidade de implantação da internet limitada no Brasil. “A definição de limites para acesso à Internet trará sensíveis prejuízos não apenas às instituições, incluindo o trabalho de seus professores, tutores e demais profissionais de EaD, mas também aos alunos, que passarão a ter limitações para acessar os ambientes virtuais de aprendizagem, incluindo recursos como vídeos e games, para participar de webconferências síncronas e para postar atividades nas datas previstas”, sustenta o documento.

Geradores de conteúdo digital

Com mais de 12 milhões de inscritos, o Porta dos Fundos é o maior canal brasileiro no YouTube, o mais popular site de compartilhamento de vídeos do mundo. De olho na demanda por conteúdo em vídeo, dezenas de vloggers colocaram a cara para bater e, muitas vezes do próprio quarto, com uma câmera amadora, passaram a gerar conteúdo para o site.

Kéfera Buchmann, Whindersson Nunes e Maju Trindade são exemplos de youtubers que começaram sem produções elaboradas e hoje possuem uma fiel audiência com milhões de inscritos, o que viabiliza expansão para outras áreas – Kéfera escreveu o livro Muito mais que 5incominutos, o mais vendido na Bienal do Livro realizada no Rio de Janeiro em 2015, enquanto Whinderson se aventura como comediante em espetáculos de stand-up.

Com a restrição, quem sonhava em começar nesse ramo ou já vive dos vlogs terá de repensar a estratégia e se preparar para a iminente queda na audiência. Com menos dados para consumir, é provável que os internautas sejam mais seletivos, reduzindo o número de vídeos assistidos.

Você

Caso os limites sejam adotados pelas operadoras, a restrição de dados será fixada por plano contratado. Assim, famílias que compartilham o acesso à mesma internet por meio de conexões sem fio terão de monitorar o consumo de dados entre todos os integrantes, para evitar pagar mais caro pela conexão.

A mudança promete modificar o cenário online brasileiro, justamente em um momento de ascensão. Segundo o relatório Digital, Social & Mobile in 2015, da agência We Are Social, os brasileiros passam quase quatro horas por dia conectados às redes sociais. Esse número coloca o país na quarta posição no ranking mundial, atrás apenas de Argentina, Filipinas e México.

Com mais de 2,5 milhões de usuários no Brasil, segundo a consultoria de marketing eMarketer, o serviço de streaming de vídeos Netflix encontra em solo brasileiro um terreno fértil para expandir suas operações. Para se ter uma ideia, representamos mais da metade dos assinantes no continente latino-americano. Ainda de acordo com a consultoria, o percentual de internautas que assistem a vídeos online no Brasil é de 86,5%, o mais alto do continente.

A restrição, é claro, também pode reduzir os investimentos em publicidade nesse setor. Com mais de US$ 3 bilhões movimentados em 2014, de acordo com a eMarketer, a publicidade digital brasileira é responsável por metade do volume arrecadado em todo o continente.

 

internet limitada no Brasil

Fonte: eMarketer

 

Atualmente, a restrição no consumo de dados está suspensa pela Anatel por tempo indeterminado. Portanto, a redução da conexão e o bloqueio do acesso são práticas ilegais, e devem ser denunciadas. Se acontecer com você, a recomendação do Instituto Brasileiro de Defesa ao Consumidor (Idec) é protocolar uma reclamação junto ao Procon da sua região, antes de recorrer à Justiça.

Para se manifestar contra a medida, você pode assinar um dos abaixo-assinados que circulam pela internet, como este, que já conta com mais de 1,6 milhão assinaturas. No Facebook, a página do Movimento Internet sem Limites possui 470 mil curtidas, e ajuda a informar os usuários, além de articular internautas descontentes.

Leia outras matérias desta série:

Sua Internet banda larga pode ser limitada em breve

A internet em outros países (comentada por quem está lá)

Lida 1112 vezes
  • Publicado em: 23/06/2016

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.