Esporte

A importância do esporte para as crianças

Ascensão dos jogos digitais pode estimular o sedentarismo infanto juvenil

Exercícios físicos melhoram a qualidade do aprendizado de crianças e jovens. Beta Redação/Luciano Del Sent

Exercícios físicos melhoram a qualidade do aprendizado de crianças e jovens. Beta Redação/Luciano Del Sent

 

O que você acha de caminhar, correr, fazer uma repetição de polichinelos ou de alguns abdominais? Já cansou só de pensar? Prefere deitar na cama e jogar algum game on-line com os amigos? Então cuidado, pois, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade provocada pelo sedentarismo é um dos maiores problemas de saúde pública entre crianças e adolescentes. Estima-se que, até 2025, 75 milhões de indivíduos menores de idade acabem sofrendo com essa doença. A OMS recomenda que adolescentes pratiquem ao menos 60 minutos de atividade física diária, o que dificilmente é cumprido pelos jovens.

De acordo com a Psicoterapeuta Vanessa Cardoso Diehl, as áreas da neurociência, da psicologia e da educação percebem a mudança de comportamento nas crianças que têm uma vida sedentária na frente de jogos eletrônicos. “Elas são mais irritadiças, com baixa tolerância a frustração, bem como a área da atenção geralmente é mais rebaixada que a das crianças que têm uma vida mais ativa.” Além disso, a falta da prática esportiva traz às crianças a dificuldade em aceitar limites, com a falta de rotinas e a má alimentação, o que as deixa mais propensas à obesidade e a outras doenças do sedentarismo. Conforme Vanessa, o aumento da miopia é outro problema a ser relacionado ao uso indiscriminado de games pelas crianças devido ao grande esforço da visão.

Mente sã, corpo são e vice-versa!

 

Alunos do quarto ano realizam alongamento antes da educação física, no Colégio Batista, em Porto Alegre. Beta Redação/Luciano Del Sent

Alunos do quarto ano alongam antes da educação física, no Colégio Batista, em Porto Alegre. Beta Redação/Luciano Del Sent

 

Exercitar o corpo também é um excelente modo de exercitar a mente. É comprovado que a oxigenação do cérebro é estimulada através dos exercícios físicos, atuando diretamente na melhoria do aprendizado. Conforme Vanessa explica, o esporte melhora as habilidades motoras, de sequência, seriação, frustrações, atenção, memória, socialização, dentre muitas outras áreas de desenvolvimento. Além disso, as crianças que praticam esportes regularmente desenvolvem áreas motoras finas e amplas, bem como as questões de regras e limites são mais equiparadas e com maior aceitação as regras no coletivo.

Para a educadora física Karina Rosi Miquini de Freitas, do Colégio Batista de Porto Alegre, a prevenção de doenças cardiovasculares e a melhora do condicionamento físico são fatores importantes do esporte. “A atividade física também trabalha valores. A partir do momento que a bola bate em ti e tu não admite que foi queimado, num jogo de queimada, a gente está trabalhando a índole, a personalidade. Assim como num jogo cooperativo estamos trabalhando o coleguismo, respeito ao próximo e as opiniões diferentes. Então não é só o corpo, mas uma formação integral que é realizada.”

Exagerar nos jogos virtuais pode gerar lesões posturais, como escoliose (curvatura lateral da coluna vertebral), entre outros tipos de desalinhamento da coluna. Claudio Fauth Araujo, educador físico, comenta que os jovens sedentários possuem problemas físicos e clínicos, como má postura e elevadas taxas de glicose, triglicerídios, o que pode levar à hipertensão. “Quem pratica algum tipo de esporte regular dificilmente terá algum desses problemas”, destaca o professor, que ainda salienta a importância de um profissional adequado para orientar o indivíduo sobre qual esporte escolher e como usufruir do exercício desejado.

Porque ficar em casa?

O aumento da violência e o estilo de vida corrido dos adultos são considerados alguns dos motivos para que os jovens saiam menos de casa e, deste modo, façam menos exercícios físicos. “Atualmente é muito complicado devido os muitos afazeres e ao pouco tempo que os pais possuem. Logo, eles só têm tempo para levar seus filhos em praças nos finais de semana e, eventualmente, em alguma escolinha. Assim, as crianças não têm muito como praticar algum esporte fora da escola”, destaca a Educadora Física do Instituto de Educação São Franscico de Porto Alegre (IESF) Cristiana Suarez Brayer.

Para Victor Fiuza, aluno do nono ano do IESF, a prática esportiva na escola é essencial porque se trabalha em grupo e em contato direto com esportes propostos em conjunto com a interação com os colegas. “Curto bastante sair com os amigos, ir na praça e jogar bola. Tenho um grupo onde todos finais de semana fazíamos isso, mas paramos por causa da violência”. Fã de games, como League of Legends (LOL) e Counter Strike (CS), ele afirma ainda que joga on-line com os amigos frequentemente. “Prefiro jogar com a presença dos amigos, pois é diferente estar na frente do computar ou na frente deles. Eu sempre busco integrar alguém, mas como estamos acostumados, muitas vezes, cada um joga em sua casa.”

Pedro Dariva Fidelis, amigo e colega de Victor, afirma que joga mais virtualmente do que faz atividades físicas, embora esteja matriculado na academia e jogue vôlei no colégio. “Em dias normais, jogava 12 horas de LOL direto e nos finais de semana mais uma 15 horas por dia. Eu perdia compromissos como a aula pra ficar jogando ou o sono por ficar acordado até tarde no computador”, comenta. Ele também fala que diminuiu o tempo online para cinco horas de segunda a sexta-feira, embora, quando está focado a melhorar seu desempenho nos games, volte a jogar em torno de 12 a 17 horas por dia. Ele gosta tanto de games que pode, no futuro, trabalhar nessa área, conforme ele mesmo comenta. “Caso tenha uma probabilidade real de entrar no cenário competitivo do jogo (LOL), vou tentar exercer como trabalho, pois tenho muito tempo de jogo e um nível alto.”

O papel das escolas

A valorização da participação do aluno durante a educação física é primordial, visto que as crianças possuem pouco tempo à prática diária de exercícios. De acordo com Cristiana Brayer, a prática esportiva nas escolas era diferente dessa realizada, atualmente, pois visava-se encontrar no aluno um atleta. O chamado método tecnicista valorizava a técnica e o desempenho motor, não permitindo o estilo próprio da criança. Contudo, atualmente há uma busca por crianças mais independentes e com uma boa capacidade de fazer escolhas e de conviver em grupo sem grandes conflitos. “Hoje, valorizamos muito a participação, a inclusão de todos e o estilo próprio de cada um. Sem dúvida não procuramos atletas em nossos alunos e sim crianças saudáveis”, destaca Cristiana, que trabalha com 270 alunos do oitavo e nono ano do IESF.

 

Atentas, crianças recebem instruções das atividades físicas. Beta Redação/Luciano Del Sent

Atentas, crianças recebem instruções das atividades físicas. Beta Redação/Luciano Del Sent

 

A prática de esportes deve ser regular e levada a sério pelas instituições escolares e não como uma passa tempo ou somente diversão, afirma a psicopedagoga Vanessa Diehl. “Crianças com diferentes tipos de transtornos ou síndromes geralmente têm indicação de esportes extracurriculares, pois os benefícios vão além da área física, abrangem as áreas emocionais, maturacionais e neurológicas.” Por isso, ela comenta que deve-se repensar a criação dessa nova geração de crianças e adolescentes, bem como os currículos escolares para que abranjam todos os aspectos de desenvolvimento do ser humano, sendo um dos principais a parte física, que diretamente afeta todas as outras áreas.

De acordo com Claudio, educador físico formado, em 1971, na primeira turma de Educação Física do Instituto de Educação de Porto Alegre (IPA), os clubes de futebol investiam nas escolas em busca de novos atletas, o que não acontece, atualmente. “Antigamente, os grandes clubes de futebol tinham interesse em fazer convênios com as escolas para descobrir novos valores. Isso não existe mais, o que desestimulou o jovem que via nessa iniciativa uma perspectiva a mais para reativar o esporte”. Ele considera que a prática esportiva nas escolas possui duas fortes participações na construção de uma sociedade: a formação de caráter da juventude e afastamento das drogas.

É necessário que haja um equilíbrio entre a prática digital e a física. A manutenção e a análise das medidas corporais das crianças e dos adolescentes são possibilidades para nivelar esse processo. A professora Karina de Freitas revela que, a partir da adolescência, muitos jovens perdem o interesse pelas práticas esportivas. “Quando eles entram no ensino médio, se sentem mais velhos e começam a se aceitar como são. Por exemplo, aceitam que tem sobrepeso e que não são bons em determinadas atividades. Esse é o momento do professor estar presente.” Na Escola de Educação Básica Rainha do Brasil, em Porto Alegre, onde lida com alunos do primeiro ano do fundamental ao terceiro do ensino médio, Karina realiza uma avaliação física bimestral para avaliar o desenvolvimento das crianças e dos jovens. “Eu vejo as medidas de cada um e, no final do ano, eu sei com quais exercícios posso ajudar cada aluno, tentando moldar as atividades para que a maioria participe. É necessário que o profissional faça essa adaptação.”

 

Formador de caráter e estímulo ao companheirismo, o esporte nas escolas é essencial. Beta Redação/Luciano Del Sent

Formador de caráter e estímulo ao companheirismo, o esporte nas escolas é essencial. Beta Redação/Luciano Del Sent

 

Atualmente, a utilização de ferramentas digitais para o estímulo da prática esportiva às crianças e os jovens faz-se necessária. E foi pensando nesse sentido que a professora Cristiana Brayer mistura educação física com o game Pokémon Go!, o qual consiste em capturar monstrinhos com o smartphone. Nesse aplicativo, também há a opção de percorrer de 2,5 à 10km a pé para chocar um ovo e assim ganhar um novo Pokémon. “Numa turma de oitavo ano, colocamos ovos de Pokémon Go para chocar e corremos por 12 minutos! Com um pouco de criatividade do professor e a ajuda dos alunos para opinar, podemos criar alternativas atrativas.” Já a professora Karina, além deste jogo, utiliza outros, como o game de dança Just Dance, que simula o movimento do usuário, e o clássico Pacman, para atrair a atenção das crianças aos exercícios físicos.

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