Cultura

Impactos de viver em outro país: um olhar sobre o choque cultural

Intercambistas e especialistas falam sobre a experiência cultural de viver fora do Brasil

Foto: Sony Pictures, Divulgação

 

Possivelmente, você já assistiu ao clássico filme Karatê Kid, seja no lançamento de 1984 ou na regravação de 2010. Na segunda versão, adaptada pelo diretor Harald Zwart – com atuações de Jackie Chan e Jaden Smith – , é relatada a trajetória de um garoto de 12 anos, Dre Parker, que se muda para Pequim, na China, devido ao trabalho de sua mãe.

O enfoque inicial do longa é a dificuldade do menino em se adaptar às diferenças entre os Estados Unidos e o país oriental, uma vez que alimentação, vestimenta, costumes – e até mesmo o modo como os chineses se relacionam – são muito distintos. Assim, o personagem reflete alguns impactos de vivenciar uma diferente cultura. No caso dele, inicialmente, o choque cultural é negativo: o menino fica deprimido e ansioso em voltar para casa.

A questão é que essa história não é exclusiva de Dre Parker. Ela pode ser da Ana, do João, da Fabiane, do Marcelo ou da Juliana. Aliás, a maioria dos que decidem embarcar em um intercâmbio pode sofrer um choque cultural, ou seja, ter dificuldades em se adaptar a outro lugar e ou realidade.

A estudante de Administração Nicole Rech, de 21 anos, passou 11 meses morando em Mumbai, na Índia. Após relutar um pouco, ela decidiu embarcar para o país oriental devido a uma oportunidade de estágio, o que agregaria muito ao seu currículo. Porém, quando chegou lá, viu que basicamente tudo era inusitado.

“A verdade é que, quando cheguei ao aeroporto, achei tudo muito lindo! Aí, quando saí de lá e entrei no meu primeiro tuk tuk (que é o táxi sem portas que eles têm por lá), comecei a entender que realmente ia ser diferente. Li em algum lugar, e para mim essa definição ajuda a entender o país, que a Índia é um assalto aos cinco sentidos: o barulho das buzinas, o aroma dos melhores perfumes e do lixo em todo o lugar, o sabor da comida que não parece com nada que eu já tinha provado, o jeito que as pessoas se vestem, a quantidade de pessoas nas ruas, o calor”, conta em detalhes.

Nicole afirma que sentiu um impacto cultural muito forte e, inclusive, enfrentou momentos muito difíceis. “De início, a principal dificuldade foi com a alimentação, por dois motivos: a pimenta e a higiene. Meu paladar não era acostumado à quantidade de pimenta que eles usam, e, como a higiene não é o forte deles, eu sofria muito”, diz. “Além disso, eu gastava muita grana porque ainda não sabia o que era caro e o que era barato. Acredito que parte disso é porque queria manter minha vida ‘abrasileirada’ num local que não comporta”, analisa.

Porém, para a estudante, há muitas peculiaridades que a fazem crer que a Índia é extremamente interessante. “É muito legal ver a grandiosidade dos casamentos (e como ainda há casamentos arranjados), a quantidade de línguas que eles falam no país (mais de 20 dialetos), os temperos e o sabor da comida, a quantidade de religiões coexistindo (muçulmanos, hinduístas, budistas, sikhs). Isso é fantástico”, relata.

O choque cultural, para Nicole, é parte do processo natural de morar em outro país: “O importante é estar mentalmente preparado. Parte disso é não ir pensando que você vai levar a mesma vida que no país de origem, pesquisar bastante sobre o local e se jogar na experiência”. E continua: “Uma vez que você supera o choque inicial, vai descobrir um novo mundo – e também aprender muito sobre você”.

 

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Fotos: Nicole Rech, Arquivo Pessoal

 

Caio Farias Osório, de 22 anos, estudante da UFRGS, relata uma experiência diferente. Ele morou por um mês na Cidade do México, no México, durante um intercâmbio profissional pela Aiesec, ONG que possibilita o desenvolvimento pessoal e profissional de jovens através de programas em outros países. Para ele, o impacto cultural não foi tão forte, visto vez que o país está situado na América e apresenta hábitos relativamente similares aos do Brasil: “Não tive dificuldades de adaptação, mas notei algumas diferenças culturais, sim”.

Ele exemplifica: “Por lá, as pessoas são muito mais religiosas. Em toda casa que entrei, havia uma altar para a Virgem de Guadalupe, algo como a Nossa Senhora Aparecida por aqui”. Além disso, Caio conta que a Cidade do México traz mais segurança aos moradores e turistas: “Me senti muito mais seguro do que em Porto Alegre. Podia caminhar nas ruas tranquilamente”.

O estudante também acredita que é muito comum sentir impactos culturais, mas que isso é positivo em diversos aspectos. “Uma boa dica para não ter problemas de adaptação é pesquisar bastante sobre o país antes de viajar. Isso porque, se você souber como tratá-los – e o que não fazer! -, não haverá surpresas”, completa.

 

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Fotos: Caio Farias Osório, Arquivo Pessoal

 

Segundo pesquisa elaborada pela Belta (Brazilian Educational & Language Travel Association), houve um aumento de 500% no número de estudantes brasileiros que fizeram intercâmbio entre os anos 2003 e 2013. E uma pesquisa divulgada pela STB (Student Travel Bureau) afirma que 230 mil estudantes realizaram intercâmbio estudantil em 2014. Isso quer dizer que há milhares de brasileiros suscetíveis a sofrer com o choque cultural devido à viagem.

A diretora regional da AFS Intercultura Brasil, ONG voltada a intercâmbios estudantis e profissionais, Anita Spies da Cunha, conta que há muita procura para esse tipo de viagem. Por isso, a organização busca oferecer um excelente suporte ao intercambista para que ele sinta menos impactos e menos dificuldades de adaptação.

“Todo mundo conhece alguém que viajou para fora em um outro tipo de programa e voltou com a com a cabeça mais fechada do que foi. Isso acontece porque a pessoa vai sem preparação, e qualquer diferença cultural que enxerga faz ela levantar um muro, se distanciar da cultura onde se encontra”, diz.

Anita relata que há dois tipos de momentos durante a adaptação ao país: “O primeiro momento intenso de choque cultural ocorre no começo do intercâmbio, que é quando o intercambista questiona e se impressiona com diferenças de hábitos e coisas aparentes, como comidas, roupas, moradia. Passada essa adaptação, o intercambista acaba vivendo posteriormente um outro momento difícil, quando começa a perceber as diferenças culturais mais profundas, como conceitos de higiene, beleza, hierarquia etc.”. E continua: “Esse é o principal momento de aprendizado na vida do intercambista, mas ao mesmo tempo é um dos mais difíceis, pois ele passa a comparar os valores do país de origem com os valores do país de intercâmbio”.

Anita compartilha que já ouviu situações em que o choque cultural foi muito forte. “Algumas vezes, o intercambista não consegue superar as diferenças culturais, então acaba pedindo para voltar antes. Outros não pedem para voltar, mas ficam tristes e deprimidos”, conta. “É claro que o começo é mais difícil quando alguém vai para a Índia do que quando alguém vai pros EUA, mas no momento que as primeiras questões são superadas, a dificuldade se torna igual. Depende muito mais de pessoa para pessoa do que do país de destino”, constata.

Do ponto de vista comportamental, Flávio Voight, psicólogo especialista em Psicologia Analítica, esclarece que o impacto é inevitável. “A melhor maneira de se preparar é adaptando as expectativas. Pode acontecer do intercambista se empolgar com a possibilidade de conhecer novos lugares e esquecer que vai, sim, ocorrer um processo de adaptação e que nem tudo vai ser tão bom quanto ele imaginava.” Para ele, é importante manter as expectativas realistas para prevenir o susto ao se deparar com as diferenças.

Perceber com naturalidade o enfrentamento de adversidades também é um ponto trazido pelo psicólogo. “Saber que toda adaptação vai ter alguma dificuldade pode ajudar a digerir as diferenças do novo ambiente como um desafio saudável e enriquecedor para a personalidade”, destaca. “Afinal, nem sempre é fácil se adaptar ao diferente.”

Voight sustenta que eventualmente podem ocorrer problemas de adaptação, mas que há muitos benefícios em uma viagem: “Há uma rotina de novidades. Os amigos, os lugares não podem vir nas malas, mas o crescimento e as experiências ficam para sempre. Além do mais, a pessoa que volta para casa depois de um período de viagens não é mais a mesma pessoa que foi. Essa nova pessoa também vai precisar passar por um processo de adaptação ao ambiente do próprio país, por mais que já o conheça. E isso é natural”, finaliza.

No fim do filme Karatê Kid, Dre Parker passa a se adaptar e se ambientar à China. Por lá, ele aprende a lutar, faz novos amigos e adquire hábitos distintos. A vida do garoto mudou quando deu uma chance a uma nova cultura e fez da viagem um rico aprendizado. E um spoiler: ele teve um final feliz. A verdade é que essa também pode ser a história da Ana, do João, da Fabiane, do Marcelo ou da Juliana. Essa pode ser a história de intercambistas que percebem que a experiência de viver em outro país é insubstituível e deve ser aproveitada ao máximo.

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