Política

Charmosos, bons moços e heróis: como a imagem constrói candidatos

Com perfis bem definidos, políticos ligados ao esporte e à religião ganham espaço no Congresso Nacional

Em épocas de eleição eles sempre aparecem. Frequentam cultos religiosos, andam pelas ruas da comunidade, ajudam vizinhos, marcam presença em jantares de clubes da vizinhança. Mas eles buscam apenas um objetivo: o seu voto. Esses são exemplos de políticos que usam de sua imagem, muitas vezes já estabelecida, para tentar convencer o eleitor de que são as melhores opções para o cargo público almejado. Observando esse tipo de candidato, a Beta Redação quer saber: será que a imagem pode influenciar no voto? Segundo dados da Pública, agência de jornalismo investigativo, existem no Brasil, atualmente, 10 grupos diferentes de deputados da Câmara Federal representantes dos mais diversos setores e origens.

Esses grupos são conhecidos como “bancadas” (não dos partidos, mas de determinados setores e interesse). A Pública, inclusive, lista as seguintes bancadas de interesse como tendo assento no Congresso Nacional: ruralista, evangélica, empresarial, empreiteiras e construtoras, parentes de deputados, da mineração, da bola, da bala, da saúde e direitos humanos.

 

O número de participantes das bancadas existentes no Congresso Nacional variam de 20 a 200 deputados. Foto: Lucio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados

Ao todo existem 514 deputados federais no Congresso Nacional. Foto: Lucio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados

 

A Frente Parlamentar Evangélica, também conhecida como Bancada Evangélica, formada em Brasília em 2010, possuiu 196 deputados federais, sendo que 74 foram reeleitos e 122 eleitos pela primeira vez. Na composição dessa frente estão 23 partidos: PMDB, PSDB, PRB, PSB, PP, PR, PSC, PSB, PSD, PMB, PTB, PT, DEM, Pros, PDT, PPS, Rede, PHS, PC do B, PV, PT do B, PTN e PMN. Já a Bancada da Bola, que recebe o nome de Frente Parlamentar Futebol-Negócio, é composta por 14 deputados. Desses, 5 foram reeleitos e 9 eleitos. Os partidos políticos desses candidatos são PTB, PSD, PT, PV, PSDB, PR, PP, PHS e PDT. Os dados estão disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

De “do povão” a salvador da pátria, todo candidato tem um pouco

Uma pesquisa divulgada na Revista Temática de abril de 2013 pela especialista em Assessoria de Comunicação Iluska Nóbrega Miranda aborda os possíveis métodos adotados por políticos para conquistar votos e deixar sua imagem mais agradável. Segundo a pesquisadora, os atores políticos se baseiam nas mesmas diretrizes: não falar muito alto, prestar atenção nas falas e pedidos dos eleitores, não responder insinuações e, principalmente, deixar claro que seu papel, independente do cargo a que concorrem, fará muita diferença para a sociedade.

No artigo intitulado Imagem do Ator Político, Iluska utiliza as características analisadas pelos pesquisadores Roger-Gérard Schwartzenberg e Renata Suely de Freitas, em livro publicado em 2009. Segundo ela, os autores elencam as seguintes características como perfil dos personagens da política: o líder charmoso, o herói, o nosso pai e o igual a todo mundo. O primeiro, o líder charmoso, é característico de personalidades com ar de superioridade. É sedutor e acredita na elegância para conquistar os votos. Com boa oratória, tenta persuadir os eleitores com atos de solidariedade. O segundo, o herói, é considerado um ídolo. Tem boa conduta, impõe respeito e atenderá todas as necessidades dos eleitores. O terceiro perfil caracteriza o “pai do povo”. A imagem desse político será trabalhada em cima das doutrinas populistas. Ele irá vender a imagem de quem se preocupa com a população menos privilegiada. Por último, o igual a todo mundo. Segundo Iluska, esse ator político tentará passar a ideia de que trilhará o caminho da política com sinceridade, terá uma história humilde, lutará pelos direitos do bairro onde reside, passando mais segurança para os eleitores.

Para a pesquisadora, os políticos escolhem um caminho com objetivos para continuar na carreira política. “Ao escolher o papel que desempenhará, o ator político precisa ser coerente. Caso contrário, não terá uma imagem forte.” Ou seja, necessita ter foco e uma imagem ou discurso cativantes. Outra observação feita pela autora são as regras vigentes de visibilidade. Segundo ela, autoras como Célia Lúcia Silva e Ângela Cristina Marques destacam que existem métodos a serem seguidos para elaboração dos perfis políticos, como a criação, produção, manutenção e gerenciamento eficaz das estratégias comunicativas. Dessa maneira, o ator político deve promover sua imagem pública dentro e fora dos períodos eleitorais. “É necessário um acompanhamento pré-eleitoral, eleitoral e, principalmente, pós-eleitoral, com o objetivo claro de garantir o fortalecimento da imagem do ator político e de suas bases de governo”, afirma Iluska.

 

Ao todo existem 514 deputados federais no Congresso Nacional. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

O número de participantes das bancadas existentes no Congresso Nacional varia de 10 a 200 deputados. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

 

A política do esporte e da religião

Por ser um Estado laico – sem religião definida -, o Brasil convive com uma diversidade de culturas religiosas e, como consequência disso, muitos representantes são vistos como líderes. O que se tornou comum entre os brasileiros são os líderes que adotaram a religião como identidade política, ou seja, buscam apoio para as candidaturas por meio das afinidades entre os fiéis. Para o Pastor da Igreja Brasa Zona Norte Ricardo Glavam, a relação entre a política e a religião é muito relevante, pois ele considera a igreja como um braço da sociedade e, por isso, com direitos a reivindicar. Para Iluska, existem dois pontos importantes na relação entre política e religião: a igreja ainda não sabe lidar com a circulação dos atores políticos nos cultos e, ao mesmo tempo, ela deseja participar e construir uma consciência política junto aos fiéis. “A igreja não faz política partidária, mas lida com políticas para os necessitados. Nós temos posição a respeito de família, roubo e desvio de verba. Hoje, a igreja foi chamada para fazer política social e fazer a diferença”, analisa Glavam.

 

Na última eleição, foram 74 deputados federais reeleitos da bancada evangélica. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

Na última eleição, 74 deputados federais da Bancada Evangélica foram reeleitos. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

 

Para Iluska, o ator político que adota a religião como forma de auxílio à candidatura se enquadra no perfil “igual a todo mundo”, representando uma religião em específico e seus posicionamentos. Mas a pesquisadora ressalta que há características pessoais que ganham mais destaque, como no caso do deputado federal Marco Feliciano, que utiliza a imagem do líder charmoso. Em relação a isso, o pastor Glavam acredita que há candidatos sem compromisso com as questões sociais. “Tem muitos candidatos que utilizam o nome da igreja, mas simplesmente lidam com o próprio sonho e ego”, acrescenta.

Já no esporte, o Brasil é pentacampeão de futebol e, inclusive, carrega a fama de “país do futebol”.  Nossa famosa habilidade e o bom desempenho nos campos levam atletas a ganhar destaque na mídia e fama fora dos gramados. Muitos, após encerrarem suas carreiras como jogadores, conseguiram ocupar espaços como auxiliares, técnicos, dirigentes e até mesmo presidentes de clubes esportivos. Outros, alcançaram tal admiração dos torcedores que conseguiram ir além dos times de futebol e chegaram à Câmara dos Deputados, assembleias legislativas ou se elegendo vereadores. Romildo Bolzan Jr., atual presidente do Grêmio Porto-alegrense e ex-prefeito do município de Osório, afirma que a única ligação entre a política e o esporte é a visibilidade e uma nova oportunidade de trabalho e carreira. “Não concordo em alguém se aproveitar politicamente da estrutura ou de cargos em um clube como trampolim para uma vida na política”, ressalta.

 

Intitulados de "bancada da bola", os ex-jogadores ainda ocupam pouco espaço no Congresso Nacional, com apenas seis partidos aliados. Foto: Tainá Rios?Beta Redação

Formando a “Bancada da Bola”, ex-jogadores e dirigentes ainda ocupam pouco espaço no Congresso Nacional, com apenas seis partidos aliados. Foto: Tainá Rios/Beta Redação

 

Analisando a tipologia dos perfis descritos por Schwartzenberg e Freitas, os atuais políticos ligados ao esporte se conectam com a ideia do herói. A pesquisadora Iluskha usa como exemplo o atual senador pelo Rio de Janeiro e ex-jogador Romário. “Romário consegue ser visto pelos seus eleitores – e pela mídia – como um herói pelo fato de a sua vida ser rodeada de superação. Ele utiliza a sua história de vida como elemento na criação da sua imagem: uma pessoa humilde que veio de uma favela do Rio, que é pai de uma criança com necessidades especiais, e que através do esporte conseguiu lutar por aqueles que se sentem representados por ele”.

Já aqui no Sul, mais localmente, apesar da rivalidade da dupla Gre-Nal, os candidatos da Bancada da Bola podem e devem conquistar os eleitores de ambos os times. “O candidato precisa ser transparente, correto e respeitoso com os adversários. Sendo competente, o reconhecimento virá”, afirma. Para o presidente do Grêmio não existem impedimentos para que os candidatos busquem apoio na torcida adversária. Segundo o mandatário tricolor, a atuação nas câmaras ou nas assembleias depende somente do posicionamento do candidato eleito.

A Igreja Brasa Zona Norte não permite panfletagem ou divulgação de candidatos dentro da instituição, mas não vê problemas nas manifestações políticas quando realizadas fora das portas da instituição. “Por exemplo, a gente não faz orientação em relação ao voto, a consciência é livre. As pessoas precisam saber em quem estão votando. Mas alguns nós conhecemos, nós endossamos, que a gente conhece porque seguem as mesmas diretrizes da igreja”, pondera. Já em relação aos incentivos que o Grêmio contribui nas campanhas dos ex-atletas, Bolzan afirma que não existem iniciativas do clube em reuniões e outros eventos sobre as candidaturas. Em se tratando dos candidatos que assumem as bancas religiosas e do esporte, a pesquisadora Iluska observa esses perfis com uma nova definição: “candidato apelativo”. “Hoje, por exemplo, passamos por uma grande polêmica na qual os políticos que assumem o papel religioso, a Bancada Evangélica, têm se destacado bastante, que é o homossexualismo. Os posicionamentos desses políticos têm papel decisivo no seu sucesso. Da mesma forma, trago como exemplo os eventos desportivos que o país têm sediado, fazendo com que seja de suma importância o posicionamento dos políticos que carregam o esporte no seu perfil”, afirma Iluska.

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