Cultura

Crise e esperança na cena literária

Editores buscam parceria nas livrarias menores para divulgar obras de autores locais

A jovem livraria Taverna vem conquistando um importante espaço no mercado editoral Porto Alegrense. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

A jovem livraria Taverna, que abre espaço à produção local. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

Dificilmente um editor se diz otimista quanto ao cenário literário de Porto Alegre. Ligações e mais ligações, algumas editoras contatadas, e as visões não diferem muito entre os diferentes profissionais. Apesar de possível, o mercado para livros de autores e editoras locais é restrito.

Entre editoras que fazem ou faziam uso de leis de incentivo, a percepção é de que de dois anos pra cá os investimentos diminuíram muito. Para essas e para as que não fazem esse uso, existe ainda o fantasma das grandes redes nacionais de livrarias, que priorizam o catálogo de grandes editoras e por vezes levam ao fechamento de pequenas lojas que acabavam por dar vazão à produção local.
Mas calma lá, leitor. Existe esperança para quem gosta da literatura produzida e editada aqui.

Libretos

“O cenário é de terra arrasada”, afirma Clô Barcellos, editora da Libretos. Segundo ela, a falta de políticas públicas e de editais para o setor da literatura diminuiu a quantidade de lançamentos da editora. Os problemas são a concorrência com grandes editoras do centro do país – que “é impossível”, segundo ela – e a distribuição dos exemplares, mais difícil nas grandes redes. Assim como para outros editores, a saída vista por Clô são as livrarias de calçada, pequenas lojas independentes, não franqueadas, que podem ajudar a cena literária local a recuperar sua força.

Um dos próximos lançamentos da Libretos, ainda neste semestre, é um álbum sobre a Praça da Matriz, intitulado Poderes e Mistérios, que segue os moldes de outras publicações feitas pela editora. Para este ano, estão previstas ainda outras cinco publicações.

Dublinense

A Dublinense divide-se em três selos: a Não Editora, destinada à nova literatura gaúcha; a Dublinense, que trabalha com títulos mais comerciais, literatura estrangeira e livros técnicos; e o Terceiro Selo, destinado a apostas literárias, com caráter menos comercial. A visão de Rodrigo Rosp, editor da empresa, é de que o cenário literário, mesmo com a crise do setor, é de ebulição e de força. Segundo Rodrigo, a editora dá espaço para literatura gaúcha, sendo essa fatia de autores responsável por 90% dos lançamentos da Dublinense. Os trabalhos chegam até a editora enviados pelos autores e também através de um rede de contatos dos editores, o que provê a quantidade necessária de títulos para os lançamentos.

Para este semestre estão previstos três livros: O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares, quinto livro da Coleção Gira, que contempla literatura portuguesa contemporânea, pela Dublinense; Psicodinâmica do Trabalho, de Christophe Dejours, livro de psicanálise do autor francês, também pela Dublinense; e, pela Não Editora, Correr com rinocerontes, de Cristiano Baldi, primeiro romance do autor gaúcho, que já lançou livro de contos pela Livros do Mal.

Arquipélago Editorial

Em média, um lançamento por mês, entre abril e novembro. Essa é a meta da Arquipélago Editorial, segundo o editor Tito Montenegro. Para distribuir esses trabalhos, a editora conta com os canais tradicionais, através de distribuidoras e livrarias, mas também investe em participações em eventos e venda digital. No seu site, a Arquipélago vende kits temáticos ou de autores, tudo a preços promocionais. Além disso, dependendo do autor e do livro, a editora promove bate-papos voltados ao público-alvo da obra.

Besouro Box

Segundo André Luis Alta, o número de lançamentos da Besouro Box diminuiu, mas ainda assim ele garante entre cinco e seis lançamentos para o primeiro semestre deste ano e 10 para o segundo. A editora trabalha com autores de todo o Brasil e também distribui seus livros pelo país, principalmente pelas regiões sul, sudeste e centro-oeste. Conforme André, um dos principais impactos da crise do setor é o fechamento de livrarias em Porto Alegre, e esse é um dos fatores que levaram a Besouro Box a não limitar o seu mercado à Capital. O foco da editora são livros infanto-juvenis, de História, de reportagem e livros espiritualistas.

 

Livrarias de calçada são os pulmões da literatura na cidade

 

Fachada da livraria Taverna. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

Fachada da livraria Taverna. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

Quem caminha pela Fernando Machado, passa o posto da polícia e atravessa a Bento Martins, do lado direito de quem vai ao Gasômetro, encontra a Taverna. Uma fachada simples, com portas de vidro de correr, e estantes de madeira. Livros, chope artesanal e café. Lá dentro, em mesas e cadeiras também de madeira, os sócios André Günther e Ederson Lopes recebem a Beta Redação.
A Taverna trabalha com editoras independentes de Porto Alegre e dá visibilidade para o artista local, colocando lado a lado nas prateleiras, por exemplo, livros do português Valter Hugo Mãe e de autores gaúchos. A livraria, que existe há 2 anos digitalmente e há 11 meses em loja física, tem aumentado seu faturamento progressivamente. A receita, segundo os sócios, é trabalho de pesquisa para trazer livros interessantes para o acervo e um olhar cuidadoso com as redes sociais. Segundo eles, seguidamente as postagens da Taverna ganham reproduções de editoras grandes, exatamente pelo cuidado dedicado ao que vai para as redes.

Para Ederson, a questão de se trabalhar com literatura local em uma livraria que é local traz para o negócio a vantagem de se conhecer a realidade do público da cidade e seus limites. E essa relação se intensificará em breve, quando a livraria se tornar também editora. O primeiro lançamento, previsto para julho, é Vida e Morte de Rimbaud na Terra do Sempre, um livro póstumo de poesias do escritor Stéfano Deves.

Também em julho, e entrando em agosto, a literatura e os estabelecimentos locais ganharão espaço no 1° Festival de Livrarias de Porto Alegre, que vai durar duas semanas. No festival, as livrarias pequenas irão expor no Centro Municipal de Cultura e também terão programação especial nas lojas.

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