Cultura

Grafites e pichações como forma de expressão e liberdade

Combatidos em São Paulo, pichadores explicam suas motivações para deixar marcas no território urbano

Grafiteiros e pichadores figuraram na maioria das páginas de jornais na região sudeste no início de 2017.  “Tinta cinza de Doria apaga grafites e pichações na cidade de São Paulo.” Essa é a manchete que exemplifica todas as outras lançadas na mídia. No entanto, ao apagar essas pinturas, o prefeito paulistano removeu um pouco da riqueza e da diversidade da cidade, e é essa a principal reivindicação da população.

“Essas formas de expressão são muito legítimas, têm alegria, têm estética, têm estar junto na luta, têm ludicidade. O picho tem assinatura, tem ousadia, tem aventura, tem risco. Tem coisas que só um grito pode dizer. Tem coisas que só a arte comunica”, explica a doutora em História e professora de antropologia da Unisinos Sinara Robin.

Diogo Cardozo, 28 anos, é morador de Campinas e começou a pichar em 1999, quando seus pais se separaram. “Eu comecei lá atrás, como uma válvula de escape, e acabei tomando gosto pela coisa. Hoje é um hobby para mim e para muitas pessoas que a gente vê fazendo”, explica o promotor de vendas.

Já Kbç, 25 anos, começou a pichar na fase da rebeldia adolescente e se apaixonou pela prática. “Comecei aos 12 anos, naquela época de emoção juvenil, e isso acabou se tornando parte da minha vida”, comenta o cozinheiro.

Os dois contam que praticam a pichação pelos mesmos motivos: incomodar e afetar de alguma forma o sistema – de não deixar pessoas como eles passarem despercebidas. Sinara explica a rua é “um lugar democrático por excelência” e que, por isso, é onde as pessoas devem exercer a cidadania; contestar. “A rua é ocupada pelos mais diversos grupamentos, cada um com a sua estética e cada um expressando seus jeitos de ser, estar e viver na cidade”, explana a professora de antropologia.

O morador de Capão da Canoa Junior Lucas, 23 anos, trabalha produzindo grafites em paredes, quadros e pranchas de surfe. O grafiteiro, que iniciou aos sete anos, explica que o grafite e a arte foram dons que ele encontrou em sua vida. “Sempre gostei e pratiquei muito desenho, gosto da arte e de como ela interage. Sinto que tudo que faço vem da alma e apenas flui”, conta Lucas, que já pintou mais de 100 pranchas de surfe e inúmeras paredes.

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Alguns dos trabalhos produzidos por Lucas. Foto: Arquivo pessoal

“A arte tal qual tradicionalmente é referida nesta nossa sociedade é sacralizada, eternizada em espaços especiais, guardada”, comenta Sinara. Apesar de suas diferenças básicas, a pichação convive com o risco e deixa sua marca. Já o grafite, em geral, dialoga com o mundo afora, num movimento constante. As duas acabam se diferenciando desse tipo de arte tradicional, pois concorrem com o risco do apagamento ou de uma outra inscrição que venha a se sobrepor.

 

Na parte superior da imagem é possível ver a marca “AGORA”, de Kbç. Foto: Arquivo pessoal

Conforme explicado pela doutora em História, o picho tem “assinatura”, e é o que dizem Cardozo e Kbç. Segundo eles, quando iniciam essa prática, a primeira coisa é encontrar uma identidade que represente o que você é. “No meu caso, eu escrevo AGORA  e a minha tag, que é como chamamos a nossa assinatura, Kbç”, explica o cozinheiro.

Um dos pichos de Cardozo, com sua marca THUGS escrita

Um dos pichos de Cardozo, com sua marca THUGS. Foto: Arquivo pessoal

Cardozo relata que existem “grifs”,  grupos em que eles são convidados a participar depois de criarem sua marca, desenvolverem seu estilo e adquirirem experiência o bastante para fazer parte. “Nas grifs, nos encontramos em locais chamados de points, onde produzimos as pichações com nossas marcas. A ideia é que sua marca e suas artes criem um grande choque visual, isso é a nossa principal intenção”, explica o promotor de vendas.

“Os grafites são feitos coletivamente acompanhados de música, de coletividade. Aprecio, tento ler e me solidarizo com estas manifestações”, diz Sinara. Apesar das diferenças, as duas formas de expressão devem ser consideradas arte. “Pinturas murais se remetem a tempos imemoriais, desenhos e pinturas de sociedades em escritas deixam sua história e suas marcas. Está no imaginário humano essa forma de expressão.”

 

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