Esporte

Futebol e educação: a função do esporte além das quatro linhas

Atleta da base do Juventude aprende que futebol não é só tática e técnica

O jovem Vinicius Feltes Zimmer é só mais um dos milhares de garotos no Brasil que têm um sonho em comum: tornar-se atleta profissional de futebol. Mas, para que isso aconteça, muitas etapas devem ser vencidas, e é o que o garoto de 15 anos está fazendo. O atleta sub-15 do Esporte Clube Juventude tem uma rotina acelerada, que lhe dá pouco tempo para ter uma vida de lazer como outros jovens de sua idade.

Antes das 7h, Vinicius levanta para ir à Escola Estadual de Ensino Médio Bernardo Petry, em Vale Real, onde cursa o primeiro ano do Ensino Médio. Às 11h50min, quando a aula termina, começa sua corrida contra o tempo. Em apenas dez minutos tem que almoçar, pegar um táxi até o ponto de ônibus, que fica a cerca de três quilômetros de distância da escola, e ir até Caxias do Sul, onde ainda caminha três quadras para chegar à sede do clube.  Porém, em épocas chuvosas, há um fator que complica ainda mais a rotina: quando pega o táxi, o jovem passa por uma ponte que, por conta da chuva, acaba ficando submersa. Então, o táxi, que antes lhe custava R$ 7, pode chegar a R$ 35. Tudo porque, em vez de ir somente até o ponto de ônibus, ele deve seguir até o distrito de Vila Cristina, que fica a 20 quilômetros da escola.

Seu treino começa às 14h15min, com duração de duas horas. Após, Vinicius anda novamente três quadras para pegar o ônibus que o leva até sua casa, em Vale Real, por volta das 18h. No entanto, ele não é o único a fazer sacrifícios para tentar seguir seu sonho. Os pais, o metalúrgico Euclides Zimmer e a professora Veranise Feltes Zimmer, são responsáveis por pagar o transporte do jovem para os treinos. “A gente gasta mais ou menos  R$ 15 por dia, pois são R$ 7 do táxi e R$ 8 do ônibus pra ir, e pra voltar ele consegue pegar o ônibus da empresa Caxiense, que é pago pelo Município”, relata Zimmer.

Vale Real tem uma escolinha de futebol conveniada ao Esporte Clube Juventude, que é auxiliada pela prefeitura. Muitos jovens que se destacam na escolinha acabam seguindo para o clube alviverde. Com isso, além do apoio a entidade, o Município também concede auxílio aos atletas que treinam em Caxias do Sul. Por meio da Lei N° 1.188, de 25 de março de 2015, há o repasse de até 20 passagens mensais para que os alunos possam frequentar os treinos. O ex-jogador do Juventude, campeão da Copa do Brasil pelo clube em 1999 e atual prefeito de Vale Real, Édson Kaspary, reafirma a importância da inserção desses jovens no esporte. “A questão da escolinha no município vem desde 2002, quando pendurei as chuteiras. O incentivo já vem de outras administrações, e serve como forma de estímulo aos jovens que gostam do esporte. Na verdade, o futebol, nesse caso, é só um meio para que essas crianças possam se tornar bons cidadãos a partir dos ensinamentos na escolinha e no clube”, diz Kaspary.

 

Apesar da rotina de treinos, Vinicius não deixa os estudos de lado. Foto: Guilherme Rossini/Beta Redação

 

No clube caxiense, a política é muito parecida com a citada pelo prefeito de Vale Real. Segundo Renato Tomasini, um dos funcionários das categorias de base do Juventude, há muitas questões que devem ser levadas em consideração além da capacidade técnica e física dos jovens. “Como clube formador, obviamente procuramos jovens de bom nível técnico. No entanto, aqui levamos os estudos muito a sério. Temos uma psicopedagoga que, além de verificar os boletins escolares dos atletas, também analisa outros fatores que determinam o desenvolvimento deles como pessoas”, comenta Tomasini. O pai de Vinicius diz que não levava muita fé no filho, mas ao vê-lo jogar pelo Juventude percebeu que realmente ele tinha talento. “Não sei se o Vini realmente vai ser um profissional do futebol. Já houve até propostas de alguns empresários para gerenciar a carreira dele, mas acho que ele é muito novo ainda, e não consigo pensar no meu filho como uma mercadoria, como eles acham que é. Desde que ele começou no Ju, aos 12 anos, nunca ficou de fora de nenhum jogo, e acho que isso é muito importante, manter a regularidade. Mas o que mais me orgulha mesmo é que quando chego para falar com os professores dele no clube só ouço elogios, contam como ele é educado e aplicado”, relata o pai do jovem.

No ano que vem, Vinicius pretende ser efetivado para o sub-16, que é quando o contrato como atleta da base se encerra. “Espero subir mais um estágio e, quem sabe, me tornar profissional, mas é cada coisa no seu tempo.”

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