Esporte

Fórmula Truck faz da segurança seu principal patrimônio

Com uma história cheia de idas e vindas, a modalidade que corre em veículos de 4 toneladas requer inúmeros itens de segurança para ser disputada.

A temporada que marca os 21 anos da única categoria regulamentada de caminhões a disputar corridas no Brasil começou no dia de 19 de março, no Autódromo do Velopark, em Nova Santa Rita, na região metropolitana de Porto Alegre. A prova, vencida por Paulo Salustiano, foi acanhada, com apenas oito caminhões em disputa, mas foi cheia de emoções, como é a própria categoria.

A Fórmula Truck é, desde sua criação, em 1996, objeto de olhares atentos de milhares de apaixonados pelos pesados, sinônimo de alta tecnologia e uma história respeitável no quesito segurança. Mas a história nem sempre foi tão cheia de sucessos e em muito se confunde com a de seu criador, Aurélio Batista Félix, que morreu em 2008.

O embrião da competição surgiu em 1987, com a 1ª Copa Brasil de Caminhões, que teve apenas uma corrida antes de ser cancelada. O evento foi criado pelo jornalista português Francisco Santos. A corrida ocorreu no autódromo de Cascavel, no Paraná, e terminou de maneira trágica.

O piloto Jeferson Ribeiro da Fonseca, então presidente da pista de corridas, perdeu o controle do Scania 113 que conduzia, saiu da pista e capotou. Ele não resistiu aos ferimentos causados pelo acidente. A CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) decidiu, então, proibir corridas que envolvessem caminhões no Brasil, alegando, que havia risco para os pilotos.

Um dos corredores daquela competição, o empresário e dono de transportadora Aurélio Batista Félix, queria continuar a correr. Mas, para isso, colocou na cabeça que a segurança de todos deveria estar em primeiro lugar. Seis anos se passaram e a vontade de Aurélio de montar uma nova competição de caminhões só aumentava.

Em 1993, o empresário criou a Racing Truck, embrião da Fórmula Truck. Investindo pesado na segurança, ele montou uma equipe responsável por desenvolver equipamentos que pudessem levar a categoria de volta às pistas. Quase tudo em um caminhão normal foi modificado para que eles pudessem correr. Cabine, motor, suspensão, carenagem e outros são apenas alguns dos itens modificados pelo grupo para conseguir trazer para as pistas os pesados do asfalto.

Saiba mais sobre o Fórmula Truck

Dois anos se passaram até que Aurélio entrou na Justiça. Queria uma liminar para poder demonstrar a empresários, imprensa e grande público, sua categoria de automobilismo. Foram feitas corridas de exibição que chegaram a reunir, em um só evento, 15 mil espectadores. A CBA, que havia proibido a modalidade em 1987, começou a analisar a possibilidade de liberar provas do tipo. O motivo era a comprovação de que os equipamentos de segurança desenvolvidos por Aurélio e sua equipe eram superiores a da categoria-irmã europeia.

Para o piloto Régis Boéssio, a categoria brasileira se mostra muito criteriosa quanto a questão de segurança. “Eles exigem bastante e estão sempre buscando melhorias. Tudo para a segurança dos pilotos”. “O criador, o Aurélio, zelou muito pela segurança. Ele fez um projeto bem sólido. E desde que os caminhões sejam construídos dentro dos padrões estabelecidos, eles tem muita proteção”, afirma.

Também pudera um caminhão de 2017 pode alcançar facilmente os 1.200 cavalos de potência e 210 km/h. Com peso estimado em 4 toneladas, os caminhões da Truck receberam com justiça o nome de “brutos do asfalto”.

A Truck volta às pistas

As coisas andaram rápido e, já em 1996, a categoria recebeu a certificação da Confederação. A solidez da tecnologia e da segurança dos caminhões da Truck permitiu o rápido crescimento da categoria. A primeira aparição da categoria na TV foi em 1998, na TV Globo, dentro do “Esporte Espetacular”. Depois, o SBT comprou parte dos direitos de televisão e passou a exibir compactos das corridas no dominical “Siga Bem Caminhoneiro”. Mas, desde 2002, o evento tem todas as corridas transmitidas pela TV Bandeirantes, em rede nacional, ao vivo. A categoria também ficou marcada pelas narrações de Luciano do Valle, falecido em 2014.

Em 2008, a morte do criador da categoria, Aurélio Batista Félix, aos 49 anos, por causa de uma hemorragia estomacal, ocorreu após a primeira corrida do ano, em Guaporé. Com histórico de problemas cardíacos, ele chegou a ser socorrido, passou por cirurgia e sentiu-se mal novamente. Na segunda vez, não resistiu.

A categoria, idealizada e mantida por ele – nenhum piloto precisa pagar sequer o diesel para correr – é mantida desde então pela esposa de Aurélio, dona Neusa Navarro. Os filhos também assumiram a gestão do empreendimento, que continuou crescendo.

Acidentes incríveis e nenhuma morte

A Fórmula Truck, como toda corrida, tem acidentes. Os que acontecem na categoria são espetaculares por si só, mas alguns são impressionantes e assustam. Em 2003, o caminhão do piloto Macarrão pegou fogo na reta principal do Autódromo de Interlagos, no meio de uma prova da categoria marcada pelo forte calor paulistano.

O Volvo conduzido pelo piloto teve uma falha mecânica e as chamas poderiam causar uma tragédia se o veículo batesse em uma área próxima da arquibancada. Macarrão, mesmo com a cabine em chamas e quase sendo ferido pelo fogo, conduziu o pesado para fora da pista até a entrada do “S do Senna”, onde saltou do caminhão em chamas. Ele teve apenas queimaduras leves, enquanto que o caminhão foi completamente destruído.

Em 2010, outro acidente incrível, também em São Paulo. O caminhão 55 de Diumar Bueno foi atingido na cabine pelo de Bruno Junqueira em um efeito de catapulta (veja no vídeo abaixo). A cabine foi arrancada pela força do impacto do outro veículo. Nenhum dos pilotos teve ferimentos graves.

Dois anos depois, Diumar iria sofrer outro acidente grave. Na quarta rodada de treinos livres para o Grande Prêmio  de Guaporé, o piloto perdeu o freio do veículo Volvo número 11 a 205 km/h antes de chegar no final da reta dos boxes. Bueno, ao perceber que não tinha condições de impedir uma colisão, jogou o caminhão na grama na tentativa de atolar o veículo no barro ou diminuir a velocidade dele, aproveitando que a área de escape ainda estava úmida por causa da chuva, na semana anterior.

Nada surtiu efeito e a colisão se deu de frente a impressionantes 185 km/h. Com o impacto, a proteção de pneus da curva veio abaixo e o caminhão despencou um morro de 15 metros de altura, batendo em árvores, até cair em uma avenida que dá acesso aos boxes. Com a força do impacto, Diumar teve 52 fraturas distribuídas entre pernas, pés, braço, ossos faciais e nasais. Ele teve que ser internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um Hospital de Curitiba, sua cidade natal, para onde foi transferido após o acidente. Apesar do susto, o piloto se recuperou bem e voltou a correr.

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