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Das arquibancadas ao comando de times à beira do campo, mulheres avançam no esporte mais popular do país

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ÍNDICE: De atleta a treinadora – Lugar de mulher é qualquer lugar  – Paixão discutida nos botecos – “Meu grito de gol é compartilhado com todo o estádio”

 

“Eu não penso que mulher num estádio de futebol tem que ser visto como uma coisa extraordinária. Eu acho que tem que ser visto como uma coisa normal, já que as mulheres cada vez mais ocupam as arquibancadas do estádio e o quadro social também.” A afirmação vem da locutora do Estádio Beira-Rio, Natalia Mauro.

A fala da assessora de comunicação do Internacional é confirmada por uma pesquisa feita na época da Copa do Mundo de 2014, pela Sophia Mind do grupo Bolsa de Mulher, que apontou que 80% das mulheres torcem por algum time de futebol. Entre as 2.084 entrevistadas, que tinham entre 18 e 60 anos, 84% disseram que gostam de assistir às partidas em casa e 30% contaram que acompanham campeonatos.

Partindo da torcida para as gestões dos clubes, a dupla Gre-Nal também conta com a presença feminina nos conselhos deliberativos – são 15 mulheres no colorado e sete no tricolor. Também faz parte da história do Internacional o fato de contar, pela primeira vez, com uma mulher no alto escalão da gestão passada: Diana Oliveira, a 2ª vice-presidente do clube.

A diretora de relacionamento social do colorado, Maristela Maffei, afirma que a política de gênero dentro do Inter é forte: “Nos antecipamos no combate a qualquer tipo de preconceito. O clube tem uma gestão que pensa em todas as esferas, dentro e fora de campo. Interagimos com pautas sociais e traduzimos essas questões para a sociedade”.

Se no Inter há cerca de dez anos a presença da mulher era alvo de preconceito – como relatou Maffei -, hoje a situação é diferente. Seis anos atrás, foi fundada a primeira torcida organizada feminina a ser reconhecida por um clube brasileiro, a Força Feminina Colorada (FFC). No co-irmão, também houve aumento da presença do gênero na arquibancada. O Núcleo de Mulheres Gremistas, fundado em 2004, começou com 20 participantes e já soma mais de 2 mil. Isso sem contar as demais torcedoras que se fazem presentes e as que acompanham os jogos através da mídia.

Além disso, as mulheres também partiram para outros âmbitos futebolísticos e se tornaram jogadoras, bandeirinhas, árbitras e treinadoras. Esses são apenas alguns exemplos de que lugar de mulher tem sido cada vez mais no futebol – independentemente da posição que ela ocupe. Na verdade, elas estão tomando conta do campinho, e nós vamos te contar um pouco sobre isso.


De atleta a treinadora

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Tatiele comanda três equipes pela TetraBrazil Soccer /Foto: Arquivo pessoal

A educadora física Tatiele Silveira se soma ao ainda seleto grupo de mulheres que escolhem a área técnica do futebol para atuar. Pós-graduada em futebol e futsal pela UFRGS, Tatiele já comandou a escolinha de futebol feminino do Grêmio e uma das equipes mais tradicionais do futsal gaúcho, o Chimarrão, de Estância Velha. Atualmente, ela trabalha na TetraBrazil Soccer, nos Estados Unidos, atuando no Sun Prairie Soccer Club. Está à frente de três times na temporada: U11, U12 e U14 Girls.

Questionada sobre a inserção feminina no mundo do futebol, Tatiele afirma que tudo é questão de oportunidade. “A mulher vem conquistando cada vez mais seu espaço dentro do esporte. Capacidade e inteligência estão sendo comprovadas na prática, basta uma oportunidade para que isso aconteça. Porém, ainda somos reféns das diretorias dos clubes e agremiações abrirem as portas para estas profissionais mostrarem seu profissionalismo”, argumenta. No entanto, a treinadora acredita que, no Brasil, ainda são necessários avanços nas relações de gênero dos clubes para que mulheres tenham a chance de comandar um time grande. “Penso que o futebol brasileiro precisa evoluir muito ainda para que isso aconteça. Muitos desses grandes clubes ainda carregam uma mentalidade ultrapassada e equivocada sobre o trabalho das mulheres no futebol. Infelizmente, essa é a realidade.”

Quanto ao relacionamento com as jogadoras, Tatiele afirma que é gratificante poder transmitir seus objetivos e traçar suas metas em conjunto com o grupo. “Esta é a maior marca dos grupos que comando, confiança e dedicação nos nossos objetivos propostos”, afirma.


Lugar de mulher é qualquer lugar

Sábado, 3 de outubro.

Um jogo de futebol começa muito antes do apito inicial. O clima do estádio é construído lentamente, como se cada torcedor fosse um pequeno tijolo que vai dando cor ao lugar. De hora em hora, o entorno da casa do time recebe mais e mais gente. No Beira-Rio, palco do embate entre Sport Club Internacional e Sport Club do Recife, a torcida ronda desde cedo da tarde, mesmo com o jogo marcado para as 18h30min.

Entre as tradicionais camisetas vermelhas da torcida colorada, uma cor se faz intrusa. É, no entanto, uma intrusa muito bem-vinda. O rosa de outubro, que chama atenção para a prevenção câncer de mama, se faz presente fora do estádio antes do jogo. Um posto montado próximo ao Gigantinho recolhe echarpes e lenços rosas – promoção do clube, que libera ingresso às primeiras 3 mil mulheres que fizerem a doação.

Em uma pequena sala dentro do Gigantinho, onde aquecem as torcidas organizadas, um grupo de três mulheres se mostra apreensivo. Faltando ainda algumas horas para a bola rolar, a faixa que seria estendida no campo representando a torcida em ação pelo Outubro Rosa era o motivo. Quem levaria? Qual escolheriam? Fundada em 2009 por mulheres que não queriam ir sozinhas ao estádio, a FFC se prepara para acompanhar mais uma partida do time do coração. A faixa é deixada em um canto da pequena sala, enquanto em outro as torcedoras começam a encher os primeiros de 400 balões rosas comprados para levar ao estádio. Ainda que vazio desde o show do Queen, realizado na semana anterior, o local parece pequeno para receber todas as torcedoras. “Por segurança, levaram nossa geladeira, onde gelava nossa cerveja, para outro local”, explica Malu. Ainda assim, o local, que conta com banheiro e uma placa da FFC exposta em frente à porta, consegue ser aconchegante.

“Tem pouco movimento hoje”, observa Malu. Agora, cinco mulheres ocupam a sala. Decidem carregar uma das duas faixas que que estavam na sala. “É melhor do que nada”, convence a recém-chegada vice-presidente, Ana Carolina Demoliner, filha de Malu. Com poucas horas para o início da partida, é preciso se movimentar. O espaço dedicado à torcida, no Portão 3, precisa ser preparado. Uma candidata carrega os balões e demais adereços – incluindo tirantes rosas – para o estádio. Ao cruzar com uma das assessoras do clube no portão do Beira-Rio, surge a dúvida sobre a ação no campo, que contaria com as torcedoras carregando a faixa alusiva ao Outubro Rosa. A CBF, que controla a entrada de pessoas em campo, não confirmara nada. Apreensiva, a torcedora segue para a arquibancada. É lá que aos poucos vão aparecendo mais integrantes da torcida.

O espaço do estádio reservado à FFC fica atrás da goleira que dá para o Gigantinho. Lá, uma faixa fica pendurada sobre uma das entradas e outra atrás da própria torcida. Do outro lado do Beira-Rio, à direita da outra goleira, uma nova faixa indica a existência da FFC. Ao chegarem, as velhas conhecidas, torcedoras de presença constante, reclamam do baixo movimento no estádio enquanto tomam seus lugares. O início da partida se aproxima e o estádio não enche. Chega a confirmação de que a ação planejada no campo não irá acontecer.

“Por que sentamos aqui?”, questiona uma das últimas a chegar. “Fiquei com medo de sentarmos com os outros que estão ali e descaracterizar a torcida”, responde a torcedora encarregada de levar os materiais da FFC para o estádio. Após breve conversa, todas decidem passar para as cadeiras que estão sob a faixa da torcida, onde alguns casais e famílias já ocupavam espaço. “Vou sentar bem na ponta, gosto de descer a escada correndo para comemorar”, afirma uma torcedora, agilizando-se para garantir lugar. Enquanto os telões do estádio anunciavam um time sem novidades, a torcida contava com duas: as porto-alegrenses Graça Martini, 33 anos, e Bibianna Pavim, 30, assistiriam ao jogo pela primeira vez na FFC. Por indicação de uma amiga, as meninas trocaram a Super Fico pela Força. Bibianna, que disputa campeonatos amadores de futsal e futebol sete, aprovou o espaço da torcida. “É importante. A mulher precisa tomar o seu espaço e mostrar que entende, sim, de futebol”, afirma.

Ao anúncio de Alisson, goleiro-galã do Inter, a FFC vibra. O telão anuncia também o técnico do Sport, Paulo Roberto Falcão, eterno colorado. “Esse é o meu ídolo!”, exclama uma das torcedoras que, pela idade, deve ter acompanhado de fato o jogador. A torcida mescla juventude e velhice, embora a parte mais velha vibre tanto quanto a mais nova quando o juiz apita o início do jogo. É a partir daí que a mágica acontece. Ainda que com poucas integrantes presentes, a FFC lota o seu setor. Os tirantes são erguidos, os balões balançam e as músicas da banda colorada são cantadas a plenos pulmões.

O jogo nervoso é refletido pelas torcedoras. Enquanto alguns torcedores atrasados se inteiram dos primeiros minutos da partida com algumas integrantes, outras cobram e incentivam os jogadores usando expressões que apenas a criatividade gerada pela atmosfera da partida é capaz de inventar. “Corre, seu gordo!”, grita a voz que busca um meia colorado. “Acalma essa bola, pô! Fica emendando de primeira o tempo todo!”, cobra outra, mostrando um entendimento técnico que a maioria dos homens jura que as mulheres não têm.

O primeiro tempo termina sem gols. A FFC discute os lances e pensa em estratégias que, claramente, o técnico colorado não foi capaz de pensar. Após o intervalo de debates, comida e idas ao banheiro, o segundo tempo traz o tão esperado gol. No momento que a bola estufa as redes, a torcida vibra com os tirantes rosas e balões. Aliás, o estouro dos balões imita o som dos foguetes do torcedor de fora do estádio. Malu chega, juntando os balões do chão. “Aqui é que nem no Japão, a gente deixa limpinho”, sorri.

Aflita com a partida, ela mostra irritação com torcedores de outro setor do estádio. “Tentaram tirar nossa faixa. Primeiro colocaram por cima, reclamei e tentaram tirar”, explica para as demais integrantes. “É uma falta de respeito, nossa faixa sempre ficou ali. O homem ainda queria se impôr dizendo que era diretor”, complementa, se referindo ao torcedor que comprou briga, ao qual respondeu com ironia: “Diretor? Quer que eu faça o quê? Uma reverência?”.

O gol de empate deixa as torcedoras coloradas ainda mais nervosas. A maneira como o jogo é conduzido rende algumas homenagens ao juiz por parte da FFC. As mãos que antes estouravam os balões como forma de extravasar a alegria agora os apertam nervosas. A cada nova canção da torcida, somam-se as vozes das torcedoras. Em um momento tenso da partida, a atenção é total no campo. Mal piscam, desejando o gol de desempate que finalmente sai, fazendo ecoar os estouros de balões pelo estádio.

Até o fim da partida, a FFC é um misto de tensão e felicidade. As comemorações sofrem breve interrupção quando algum lance perigoso acontece. Com o apito final, a torcida vibra uma última vez na noite, com abraços e felicitações por parte das meninas. Alguns lances de cadeiras abaixo, João Figueiredo, 50 anos, acompanha com um sorriso o clima da FFC. “Acho essas iniciativas fantásticas”, comenta ele, lembrando que há algumas décadas era difícil ver tantas mulheres nos estádios. “Era raro você ver uma menina sozinha. A minha filha é sócia, tem 30 anos, e vem no estádio com as amigas. Temos acompanhado até vezes em que é mãe e filha no estádio. Às vezes até a vovó”, conta.

“Hoje foi um dia atípico”, brinca Malu, referindo-se ao número menor de torcedoras presentes na FFC. A torcida como um todo não chegou a lotar o estádio, que contou menos de 18 mil pessoas. Após o término da partida, as torcedoras aguardam junto a outras torcidas organizadas a chave para guardar os materiais na pequena sala do Gigantinho, onde se concentram antes dos jogos. Lá dentro, conversam sobre algumas das que não puderam estar presentes no jogo, por motivos como chás de fralda e aniversários; coisas que não seriam justificativas para as faltas dos torcedores homens, por exemplo.

Ainda que o futebol seja potencialmente machista, as torcedoras do FFC não lembram de episódios de abuso dentro do estádio. “Sempre foi tranquilo aqui dentro. O problema mesmo é na vinda, na rua. Os homens sempre comentam, soltam cantadas. Por isso evitamos vir sozinhas”, explica Bibianna. O respeito tem vindo das demais torcidas organizadas, segundo Malu. “Sempre respeitaram nosso espaço. Inclusive hoje, foram outros torcedores que viram quando tentaram tirar nossa faixa e vieram nos avisar”, comenta.

Com cada vez mais força dentro dos clubes gaúchos – Internacional e Grêmio contam com cerca de 25% de mulheres dentro dos quadros de sócios -, as mulheres consolidam essa participação quando garantem seu espaço em forma de uma organizada. Quem acompanha o clima da FFC em dias de jogo garante que não existe uma “forma feminina” de torcer. Existe, de fato, uma forma apaixonada, e é através dela que as mulheres levantam suas bandeiras e se fazem ouvir, somando suas vozes ao coro do estádio. E, no apagar das luzes da casa do time do coração, já começam a preparação para o próximo jogo. Ou, quem sabe, um churrasco de confraternização assado pela presidente.


Paixão discutida nos botecos

A dinâmica do Núcleo de Mulheres Gremistas, no entanto, é um pouco diferente. Os encontros e a paixão pelo clube são pontos em comum, mas, pelo fato de não serem uma torcida organizada, não têm espaço definido dentro da Arena. Por isso, as sócias se reúnem nos bares locais para conversar e fazer apontamentos sobre os jogos. Assim que o horário de início da partida se aproxima, elas invadem as arquibancadas e cadeiras, deixando o Núcleo espalhado por cada canto da casa tricolor.

As primeiras torcedoras se conheceram quando frequentavam as arquibancadas sociais do antigo estádio tricolor, o Olímpico. Desde aquela época, sua principal motivação é apoiar o time em todos os momentos. “São mulheres apaixonadas pelo Grêmio que se encontraram no Olímpico”, conta Elisabet Boito, uma das coordenadoras do Núcleo. Com o tempo, viram o interesse pela iniciativa ganhar corpo e hoje são, ao todo, mais de 2 mil mulheres.

Elisabet explica que elas fazem encontros mensais, além daqueles nos dias de jogos, para discutir os temas que dizem respeito ao clube e ao esporte como um todo. “Se reúne quem tem tempo livre para falar de futebol”, acrescenta. Também realizam ações sociais, beneficiando principalmente crianças carentes. Organizam pedágios de brinquedos em datas comemorativas e, no total, contribuem para a felicidade de 200 a 250 crianças.

A disposição de tarefas dentro do Núcleo segue uma organização simples: as funções variam de acordo com a disponibilidade de tempo das integrantes. Cerca de 60 mulheres participam de todas as atividades mensalmente. Uma preocupação importante é a de manter horizontalidade, sem figuras de comando como a de presidente. No entanto, conta com três coordenadoras eleitas anualmente, podendo estas concorrerem uma vez à reeleição. Além de Elisabet, estão encarregadas de gerir o Núcleo atualmente as torcedoras Cleonice dos Anjos Fontoura e Elis Regina Silva.

O grupo é mantido por meio de doações, sem necessidade de mensalidade obrigatória. “A motivação dessa união foi no sentido de ser conquistado um espaço maior da presença feminina num esporte tão predominantemente masculino”, diz a descrição no site, alimentado com as definições feitas nos encontros e com registros da torcida durante os jogos. Além disso, é por meio de canais como e-mail e Facebook que se mantém atualizado.

Projeto pioneiro no país, o Núcleo de Mulheres Gremistas atende a uma das demandas mais reivindicadas atualmente – o devido espaço à mulher em ambientes tradicionalmente masculinos. Se auto-intitula uma conquista democrática, justa e igualitária que vem sendo galgada pelas mulheres ao longo dos anos.


“Meu grito de gol é compartilhado com todo o estádio”

A modernização do Gigante da Beira-Rio não contou somente com uma nova apresentação física, mas também com uma experiência inovadora para quem vai ao estádio. Quem frequenta os jogos já se acostumou com a voz de Natália Mauro, que conta para a Beta Redação sobre a sua experiência:

 

Reportagem: Francine Malessa, Pedro de Brito e Thaciane de Moura

 

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