Cultura

Feminejo e empoderamento

Com músicas que põem a mulher em posição de destaque, segmento cresce no país

Laíse Feijó e Vinicius Ferrari

Quem nunca ofereceu R$ 50 reais para a amante do personagem da música de Naiara Azevedo que atire a primeira pedra. Se você não sabe do que estamos falando, com toda a certeza deve ter passado o último ano fora do país ou em um retiro budista. A onda de mulheres sertanejas que tomou conta do Brasil no último ano tem ganhado cada vez mais espaço nas rádios, programas de televisão e principalmente na internet.

Conhecido como Feminejo, o segmento dá oportunidade para as mulheres se expressarem através da música, ocupando um espaço que antes era dominado por homens. As letras tratam do empoderamento feminino, invertem o papel de submissão das mulheres e as colocam em posição de destaque perante o sexo masculino. Deixa-se de lado a imagem da mulher sofredora e submissa ao tratar de temas como traição, balada e relacionamentos amorosos.

Para se ter uma palinha desse sucesso podemos usar como parâmetro o número de vezes que os singles foram executados nos canais do YouTube dessas sertanejas: Maiara e Maraisa (2 bilhões de vezes), Marília Mendonça (3,7 bilhões) e Simone e Simaria (600 milhões). Já na plataforma Spotify, as cantoras sertanejas aparecem 5 vezes na lista das 50 músicas mais tocadas no país na última semana, entre artistas brasileiros e estrangeiros, o que significa que 10% dessa playlist é Feminejo. Esse tsunami de sertanejas desencadeou pequenas marolinhas por todo o Brasil: cantoras sertanejas locais que almejam conquistar a fama. Porto Alegre não é diferente, e a Beta Redação ouviu duas promessas do sertanejo.

No capô da van, Jessyca leva música ao interior do RS

Uma van adesivada que vira palco móvel estacionada em praças, parques e festas populares. Este é um dos formatos do show de Jessyca Bueno, porto-alegrense que desde 2011 vem conquistando espaço na cena sertaneja do sul do país. Jessyca cantou em corais na escola, por incentivo de seu pai que tocava violão por hobbie, e chegou a estudar música quando mais jovem. Mas foi por incentivo de seu marido, e agora empresário, DJ Summer, que decidiu investir na carreira sertaneja. De lá pra cá, Jessyca se orgulha dos reconhecimentos que a música lhe trouxe: Cantora Revelação do prêmio Comunicação e Destaque da Assembléia Legislativa de São Paulo, atração na Festa Nacional da Música de 2014, abertura de shows nacionais e sete fã clubes espalhados pelo Brasil.  “O palco móvel foi uma iniciativa do meu marido para que possamos ter mais uma forma de divulgação levando um pocket show para todas as regiões do Brasil em parceria com rádios e prefeituras. Nosso foco é atingir o sucesso nacional”, comenta orgulhosa.

 

Cantora se apresenta em palco móvel, instalado no capô de sua van (Arquivo Pessoal)

Cantora se apresenta em palco móvel instalado no capô de sua van (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Bem ativa nas redes sociais, a sertaneja exibiu durante a semana de seu aniversário uma série de vídeos enviados pelos comunicadores de rádios sertanejas do estado, o que mostra que a estratégia de marketing de uma candidata a estrela sertaneja precisa levar em conta as redes sociais como forma de se aproximar de seu público.  Jessyca e o marido conseguem viver com o dinheiro dos espetáculos e do trabalho de Summer como DJ: “a agenda de shows vem crescendo gradativamente, faço show acústico em bares e pubs e também faço grandes shows em prefeituras e eventos em geral”, comenta. A sertaneja conta que enfrentou muita resistência para difundir seu trabalho, antes do boom das mulheres sertanejas em 2016. “Graças a estas artistas isso mudou, e eu acredito que vai permanecer assim. A era do Feminejo veio para ficar, e eu espero poder fazer parte disso tudo. Estamos trabalhando muito para isso”, garante.

Do pop para o sertanejo

Gaby Christo, de 28 anos, trabalha há 13 como cantora. Formada em Ciências Contábeis, não seguiu na profissão após a formatura para se dedicar aos palcos. Durante a maior parte de sua carreira, o estilo musical que seguia era o pop, porém o espaço para esse segmento foi diminuindo cada vez mais, o que fez com que a artista migrasse para o sertanejo em 2015.

“Eu sempre gostei muito de sertanejo, mas nunca tinha cantado. E aqui no estado o pop não é muito valorizado nos bares casas de show, então eu entrei num dilema na minha carreira. E por gostar do sertanejo, optei por migrar pra ele”, conta Gaby.

A artista lembra que logo após a mudança, o sertanejo feminino passou a ganhar o país gradativamente, o que contribui para uma maior aceitação do estilo nos espaços de show da região. “Os bares estão sendo obrigados a aceitar porque o sertanejo feminino esta estourado no cenário nacional. Mas aqui no Rio Grande do Sul ainda tem muito preconceito com o segmento. Enquanto uma dupla sertaneja masculina ou um cantor conseguem fazer shows mensais e até semanais em casas de festa, as mulheres são chamadas a cada dois ou três meses, mesmo lotando as apresentações’, pontua.

Moradora de Porto Alegre, ela explica que a maior procura pelo seu trabalho vem do interior do estado, onde faz vários shows durante o mês. Segundo a cantora, as cidades menores consomem e aceitam mais o sertanejo e também o “Feminejo”. Gaby conta que essa onda do empoderamento feminino no sertanejo, que teve espaço a partir de cantoras como Marília Mendonça, Naiara Azevedo e Simone e Simaria, acabou incentivando um redirecionamento também na sua forma de fazer música.

“No ano passado eu lancei uma música que se chama Bela, recatada e do lar, na qual eu passo essa mensagem do poder feminino. Até então eu seguia mais uma linha romântica e, quando troquei de produtor, ele me disse que esse estilo não combinava comigo, e é verdade. Pelo meu estilo, meu posicionamento, eu não tenho cara que quem vai falar de amorzinho nas letras, mas sim de quem vai lá defender os direitos da mulher, dizer que somos fortes e que estamos longe de ser o sexo frágil”, conta.

 

Gaby Christo fala sobre empoderamento feminino em suas músicas (Foto: Roger Decke/ Acervo Pessoal)

Gaby Christo fala sobre empoderamento feminino em suas músicas (Foto: Roger Decke/ Acervo Pessoal)

 

Gaby destaca que seu próximo trabalho, que já está em fase de produção, segue essa mesma linha, com letras que ressaltam a mulher e as colocam em destaque. Sobre a importância desse reconhecimento nacional do sertanejo feminino, a cantora destaca que o mais legal, na sua opinião, é o reconhecimento desta linha musical.

“As mulheres, através da música, estão se posicionando muito mais. Estão colocando nas letras o que elas sentem, o que pensam. Antes a mulher era sempre a que estava sofrendo, numa posição de submissa, e agora vejo que a coisa se inverteu. Até mesmo em algumas músicas cantadas por homens se vê essa mensagem de que nós também saímos, também vamos pra balada, fazemos o que quisermos. E esse empoderamento é muito legal”, diz Gaby Christo.

A cantora foi a primeira gaúcha a se apresentar no Festival de Barretos, um dos mais importantes da música sertaneja no país. Gaby tem quatro videoclipes gravados.  Seu trabalho pode ser conferido através da página oficial do Facebook  e também pelo seu canal no Youtube. Abaixo o vídeo da música Bela, recatada e do lar, que segundo a artista é um marco dentro de sua carreira.

 

 

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