Cultura

Falta de recursos afasta o protagonismo negro na literatura

Escritores apontam o racismo como o principal fator para a exclusão

Negros representam 54% da população brasileira, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda assim a etnia é marginalizada pela sociedade. De acordo com a Agência Brasil, o país tem a cidade com mais negros fora da África: Salvador. Contudo, a negritude não é vista na mesma proporção que brancos em muitos espaços, como na cultura, por exemplo.

Escritores como Oscar Henrique Cardoso e Lilian Rocha lutam diariamente para que suas obras sejam publicadas e para que as pessoas tenham acesso ao seu trabalho. Oscar, que atualmente é Presidente do Conselho Municipal dos Direitos do Povo Negro, possui oito livros lançados. Sua carreira como escritor começou em 2009. Sua primeira obra publicada foi no ano de 2010, intitulado “Nós”, que fala sobre amizade e temas polêmicos como tráfico de mulheres, de órgãos e adoção inter-racial. Lilian, é poetisa e desde pequena já escrevia poesias, contos e crônicas. Recentemente lançou o livro “Negra Soul”, que trata da poesia e música como alicerces da dança através do protagonismo negro e empoderamento das mulheres. Este ano, a escritora foi homenageada no 2º Encontro de Escritores Negros do Rio Grande do Sul, realizado no Santander Cultural.

 

Oscar Henrique Cardoso no 2º Encontro de Escritores Negros realizado no Santander Cultural. Foto: Câmara RioGrandense do Livro.

Oscar e Lilian compondo a mesa do 2º Encontro de Escritores Negros do RS.  Foto: Divulgação/Câmara Rio Grandense do Livro.

 

Para a escritora, há uma invisibilidade se tratando de escritores negros, pois os mesmos produzem e publicam, mas não possuem uma estrutura que possibilite que um número maior de pessoas conheçam os seus trabalhos. “Falta divulgação e distribuição ou seja, visibilidade desta literatura negra”, afirma.

Já Oscar acredita que há pouca visibilidade porque o autor negro é pouco capitalizado para publicar seus livros em editoras de renome nacional, tampouco tem sua obra e sua produção  com destaque pela imprensa. “A visibilidade no mercado editorial se dá pela força financeira de cada autor. Veja o meu caso. Eu tenho oito livros lançados e mais três livros prontos para lançar. São poucas as ocasiões em que sou procurado para dar entrevistas e palestras”, diz. Isso acontece também porque muitos escritores não dispõem de recursos financeiros para investir pesado em marketing e mídia para divulgar os seus trabalhos.

A falta de editais governamentais  é uma das questões que acaba desmotivando os escritores, pois mesmo que eles consigam publicar a sua obra, geralmente é através de uma editora independente que não conta com uma divulgação e distribuição  eficiente, assim um trabalho que foi realizado com grande esforço não chega nas livrarias. ” É necessário  incentivo devido ao fato de que o processo editorial é muito caro”, completa a Lilian.

 

Lilian Rocha durante a 62° Feira do Livro de Porto Alegre. Foto: Jovanir Miranda

Lilian Rocha durante a 62° Feira do Livro de Porto Alegre. Foto: Jovanir Miranda

 

Oscar acredita que a exclusão da negritude se dá pela falta de capital para investimento. Os negros não são vistos como protagonistas, porque, muitas vezes, são percebidos como mão de obra barata e acessível. “Não somos vistos como protagonistas, escritores e contadores de nossa própria história. Mesmo com poucos recursos, continuamos a lutar e não deixar de escrever e produzir”, ressalta.

O racismo é reforçado diariamente por conta da situação financeira dos negros. Em tempos de crise financeira mundial, como a que atravessamos, vemos fenômenos como o preconceito racial ganhar ainda mais força. O racismo e o preconceito inviabilizam a possibilidade de se ver o belo e o diverso que existe nas narrativas e histórias que contam sobre os orixás, sobre os quilombolas, sobre as mulheres e os jovens negros. “A juventude negra produz histórias e mais histórias nas canções de rap e hip hop. Histórias de vida que rendem narrativas literárias. Pouco é explorado e pouco é visto. Os negros trouxeram uma ampla riqueza para a História. Contudo, continuamos em uma colônia europeia e norte-americana”, salienta Oscar.

 

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