Cultura

A ditadura manda cartões-postais

Mostra de Gilvan Barreto, que desvenda a violência e a tortura através de paisagens, segue 10 de junho, com entrada gratuita

O fotógrafo pernambucano Gilvan Barreto expõe na UFRGS seu mais novo trabalho, Postcards from Brazil: A natureza como cenário da violência. O trabalho é composto de fotos deslumbrantes de Foz do Iguaçu, da costa brasileira e de uma mansão em Petrópolis, entre outras, que foram cenários de tortura e ocultação de corpos durante a ditadura. Baseado nas imagens que compunham o catálogo da Embratur de 1966, Gilvan fez uma “pequena” intervenção nessas paisagens paradisíacas. A partir dos documentos da Comissão Nacional da Verdade, o fotógrafo produziu pequenos recortes, mapeando o número de desaparecidos e mortos que tiveram seus corpos descartados nesses lugares no Brasil ditatorial. Os recortes são feitos no local eaxto onde ocorreram assassinatos ou ocultação de cadáveres.

 

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Gilvan Barreto discorre sobre o trabalho que está em exposição durante palestra na UFRGS. (Foto: Vanessa Vargas)

 

Gilvan está empolgado com a primeira exposição de Postcards from Brazil. “É importante lançar um trabalho desses numa universidade, lugar onde podemos desenvolver o assunto. Esse trabalho foi feito para este tipo de espaço”, comentou na palestra de abertura, que ocorreu no dia 13, no Salão de Atos da UFRGS. Um dos cenários mais citados por ele é a Casa da Morte. Localizada num bairro nobre, a mansão serviu de centro de tortura. Por ter uma vasta vegetação e jardim amplo, muitos dos corpos ali torturados, ali ficaram. Foram ocultados no próprio jardim macabro de Petrópolis, como o fotógrafo mesmo se refere. Gilvan fotografou as plantas do jardim da Casa da Morte, curioso para saber que tipo de vegetação nasce de um solo onde há cadáveres. “Do que somos feitos? Que terra é essa na qual pisamos? De onde vêm essas sementes?”, questionou.

Na palestra também estava presente Nair Benedito, fotojornalista que criou uma das primeiras agências de fotojornalismo independente, a F4. Nair contribuiu com a opinião de que o Brasil deve valorizar mais sua cultura no geral para que não vivamos dias obscuros como os do passado. “Sempre que a classe artística entra em qualquer tipo de manifestação, a coisa levanta!”, diz.

 

Nair Benedito faz participação na palestra de Gilvan Barreto. (Foto: Vanessa Vargas)

Nair Benedito faz participação na palestra de Gilvan Barreto. (Foto: Vanessa Vargas)

 

Gilvan Barreto contou que o trabalho ainda não está pronto, e sim em construção: “Achei importante lançá-lo agora, nesse momento em que o país está pegando fogo”. E completou: “Esse trabalho é um grito! Um grito de alerta para que isso nunca mais aconteça. Não é só a estratégia de um artista. Se fosse pelo viés artístico, eu lançaria daqui a 3 ou 4 anos”.

O trabalho de Gilvan nada mais é do que uma belíssima forma de mostrar a parte triste da nossa história. Todos os recortes feitos nas fotografias de turismo são baseados em documentos, não há arte infundada. Barreto contou com a ajuda da Comissão Nacional da Verdade para colocar no papel seu projeto, e hoje apresenta um trabalho importantíssimo, alvo de reflexão para os dias atuais.

A exposição ocorre no Saguão da Reitoria da UFRGS – Av. Paulo Gama, 110 -, no Campus Centro, em Porto Alegre, até 10 de junho, das 8h às 18h30.

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