Política

Existe política dentro de uma república estudantil?

Organização política é discutida em casas de estudantes

Todos os anos jovens de diferentes cidades do Brasil e do mundo saem de suas casas em busca de um ensino de qualidade. Em Porto Alegre existem casas de estudantes que servem como moradia para muitos desses alunos que vêm para a capital. E para que tudo ocorra de forma organizada e democrática, é costume nas casas que existam estatutos, regras e cargos.

A estudante Deila Santos, natural de Cabo Verde, saiu do seu país e veio cursar biomedicina na UFRGS. Desde então ela mora na Casa Estudantil Universitária de Porto Alegre (CEUPA) e faz parte da diretoria da instituição. Ela explica que a CEUPA é composta por três casas e conta com cargos hierárquicos como presidência, vice-presidência, tesouraria, secretária geral e segundo secretário. “Ainda existe a Diretoria Executiva, o Conselho Fiscal e três comissões: a comissão de comunicação e eventos, a de assuntos internos e a de patrimônio e assistência social. Todos os cargos são escolhidos em uma assembleia geral, normalmente realizada no final do ano”.

Deila conta que cada casa tem a sua própria coordenação, e que o estatuto e o regimento interno são importantes para que todos saibam quais são as suas responsabilidades: “Na nossa casa uma coisa que ajuda muito é fato de termos regras a serem cumpridas, todos sabem o que deve ser respeitado e que existem consequências caso isso não ocorra”.

A estudante reforça que os membros são eleitos democraticamente, então é um dever de todos cuidar da instituição. “Os representantes dos cargos devem ter como base imparcialidade e neutralidade política, para que a casa seja sempre um lugar democrático, possibilitando discussões que gerem melhorias para a instituição. No fim, é uma experiência enriquecedora porque são muitas pessoas diferentes morando juntas, então o aprendizado é enorme”, afirma.

Integração de moradores faz parte da rotina na CEUPA. Foto: Arquivo CEUPA

Integração de moradores faz parte da rotina na CEUPA. Foto: Arquivo CEUPA

Na Universidade de Federal de Santa Maria (UFSM), os alunos podem contar com o alojamento da universidade. Segundo o estudante Aleff Fernando da Sila, existem 2.500 vagas no campus da cidade, e mais 200 vagas em um alojamento provisório. Os estudantes ficam em apartamentos para até seis pessoas, contando com sala, cozinha, banheiro e lavanderia.

Aleff explica que toda a organização da casa do estudante da UFSM funciona com uma autogestão, realizada pelos próprios moradores. “Existe uma diretoria que é composta por alunos eleitos democraticamente, e essa diretoria tem a responsabilidade de gerir todo o processo de escolha de estudantes, de que forma eles entrarão em cada apartamento, por exemplo. Lembrando que o aluno precisa passar antes pelo alojamento provisório para depois adentrar nos apartamentos, aonde de fatos os estudantes permanecem até a conclusão dos seus cursos”.

Segundo o estudante de Filosofia, que veio de Limeira, São Paulo, para estudar em Santa Maria, uma das principais vitórias dos moradores da casa dos estudantes é a autonomia que os alunos têm. “A estrutura não é a mais adequada possível, mas dá conta de contemplar as necessidades dos alunos no período de estudo. Outro ponto importante é que na casa estudantil os alunos ainda permanecem próximos as suas salas de aula, da reitoria, participando da vida acadêmica. Isso dá uma liberdade para que eles possam fazer os debates políticos que a direção da casa venha a promover, desde o debate sobre como será a distribuição de alimentos, principalmente quando o restaurante universitário não abre, e sobre segurança da casa, por exemplo”.

O estudante Marcelo Scherer é presidente da Juventude Universitária Católica (JUC-7), localizada no bairro Partenon e existe desde 1987. Scherer explica que a casa possui três modalidades de moradores, os sócios moradores efetivos, não efetivos e os hóspedes. “Dentro da nossa organização temos como órgão máximo e soberano as nossas assembleias, elas são presididas e convocadas pela diretoria mensalmente, em caráter ordinário, e ou a qualquer momento em caráter extraordinário, para as tomadas de decisões administrativas e práticas e corriqueiras”.

O presidente da JUC-7 ressalta que todas as decisões são baseadas na análise do estatuto e do regimento interno da casa. “Nos dividimos em dois tipos de departamentos, os eletivos e os não eletivos. Dentro dos não eletivos são distribuídos os moradores de acordo com o conhecimento das tarefas e ou a necessidade do departamento. Cada um deles possui um líder que é responsável por organizar e dividir as tarefas mensais de cada integrante. Já os eletivos se dividem em dois, a diretoria e conselho fiscal”.

Segundo Scherer, a diretoria administra a casa e depois da assembleia é o órgão de maior poder de decisão. É eleita através da concorrência de chapas de sócios moradores efetivos, possuindo três cargos, o presidente, o secretário e o tesoureiro. Já o conselho fiscal é constituído por três sócios moradores efetivos eleitos por indicação da maioria dentro da assembleia e é ele que fiscaliza as atividades da diretoria para evitar possíveis irregularidades administrativas.

Para o presidente da JUC-7, Marcelo Scherer, a existência do estatuto e do regimento são fundamentais para o funcionamento da casa. “Todos os cargos acabam tendo sua importância, pois possuem direitos e deveres de caráter prático e administrativo que fazem movimentar e manter a nossa casa”, afirma.

Já Lorrayne Silva Canto, aluna da Universidade Federal Fluminense de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, conta que na Moradia Estudantil da UFF esse envolvimento político não ocorre. “Acho essencial esse tipo de organização, porque é a forma que temos de expressar a nossa voz. Como a moradia é muito recente, existe apenas há cinco anos, ainda não temos representantes da casa”.

A estudante acredita que os moradores devem se unir mais para poder decidir e reivindicar juntos os direitos da moradia. “Temos que seguir muitas regras com as quais não concordamos, mas nada ocorre porque não temos representação política para mudá-las”, afirma.

 

Lida 631 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.