Política

Estudantes de Cachoeirinha ocupam escolas estaduais

Eles pedem o reajuste do salário dos professores e verbas para a merenda e infra-estrutura

Até o dia 20 de maio, mais de 150 escolas de todo o Estado haviam sido ocupadas por estudantes. Em Cachoeirinha, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre, a Escola Estadual de Ensino Médio Osvaldo Camargo foi a  primeira a ter suas dependências tomadas pelos estudantes. Desde o dia 17 de maio os alunos se apossaram das salas de aula e do pátio da escola. As dependências do colégio estão sob monitoramento dos alunos, que controlam a entrada e a saída de pais e servidores.

Os professores e funcionários não se manifestaram e nem se posicionaram a respeito da ocupação. Eles têm permanecido em frente à escola, cumprindo o horário em que estariam trabalhando. Já que ficam ao relento, os servidores levam cadeiras, lanches, chimarrão e fazem até fogueira para afugentar o frio. Segundo Sandra Laguna, estudante do 9º ano do Osvaldo Camargo, apenas dois professores assumiram a greve, mas abandonaram a causa com receio de possíveis cortes em seus salários. A aluna tem 16 anos e está envolvida na mobilização desde o início.

 

Foto: Érika Ferraz

Foto: Érika Ferraz

 

Os pais e a comunidade têm apoiado a causa, já que há tempos percebem que a instituição precisa de melhorias. “Esta ocupação é válida, gostaríamos muito que tivesse um resultado positivo. Estamos lutando pela merenda escolar e pela qualidade de ensino, além de algumas outras coisas”, afirma Nair Nunes, de 41 anos, que percebe como é precária a educação que as filhas Camila e Milena têm recebido no Osvaldo Camargo.

Os alunos procuram se ocupar realizando atividades dentro da escola. Na quinta-feira (19), com a ajuda de um mercado local, ganharam desconto na compra de salsichões para fazer um jantar coletivo. A presidente do Grêmio Estudantil, Camila Nunes, de 18 anos, estava organizando para sábado (21) um luau no pátio da escola. Dentro e fora da escola podem ser vistos vários cartazes, com frases como “Priorizar a educação é a razão da ocupação” e “Educação prejudicada, escola ocupada!”. Os alunos prometem que as paralisações irão permanecer até que suas exigências sejam atendidas. Enquanto isso, eles se revezam para supervisionar a circulação de pessoas nas dependências do colégio e passam a noite dormindo nas salas de aula.

 

Foto: Érika Ferraz

Foto: Érika Ferraz

 

A Escola Técnica Estadual Marechal Mascarenhas de Moraes, também de Cachoeirinha, está ocupada pelos alunos desde o dia 19 de maio. A quantidade de estudantes dentro da escola varia durante o dia, mas já chegou a 130 pessoas. Por lá, elas organizam mutirões de limpeza, fazem a própria comida e também participam de palestras e rodas de conversa. Ainda realizam atividades mais recreativas, como escutar música, fazer rodas de chimarrão e jogar futebol.

A iniciativa e toda a organização partiu do Grêmio Estudantil. Eles se dividiram entre comissões, onde cada um fica responsável por algo, mas todos se ajudam independentemente da função designada. A estudante Luiza Martins, por exemplo, é a diretora de Comunicação. Entretanto, no momento em que a Beta Redação esteve no colégio, estava auxiliando os colegas na cozinha. A jovem de 16 anos explica que a ocupação vem sendo bem recebida pela comunidade: “Todo mundo nos ajuda. Pais, alguns vizinhos e até pessoas de outras ocupações já nos trouxeram alimentos e itens de higiene”.

 

Foto: Érika Ferraz

Foto: Érika Ferraz

 

O presidente do Grêmio Estudantil, Daniel Cierco, de 17 anos, explica que, na verdade, eles não queriam ocupar, mas que foi necessária uma “medida extrema”. “Ocupar é um pedido desesperado pelos nossos direitos e pela educação, que está sucateada”, afirma o estudante. Cartazes como “Não é só pelos R$ 0,30 centavos” e “Há tanta coisa errada que não cabe em um cartaz” são vistos pelo pátio da escola. Eles pedem que o salário dos professores seja reajustado e que o repasse das verbas da merenda e da infraestrutura ocorra corretamente.

Os integrantes da ocupação não se aliam a partidos políticos. “Não queremos bandeiras partidárias aqui dentro. Alguns já ofereceram apoio, mas não queremos ficar mal falados. Preferimos pedir apoio à comunidade”, explica Daniel. Eles não se consideram nem de direita, nem de esquerda. Entretanto, política é um assunto que interessa aos estudantes. “Pensamos em trazer palestras sobre o momento atual na política, principalmente para aproximar aqueles que não conversam muito sobre isso”, conta o presidente. A grande maioria dos alunos que aderiram é do ensino médio. “Eles estão se formando, mas pensam no futuro da escola e dos próximos alunos”, conta o estudante.

 

Foto: Érika Ferraz

Foto: Érika Ferraz

 

Alunos e pais têm a entrada permitida no colégio. Alguns visitantes também, dependendo do intuito da visita. Já professores e funcionários da escola não têm tido acesso. O horário de trabalho é cumprido em frente à escola, onde os servidores públicos batem um ponto provisório. Segundo um funcionário que não quis se identificar, a escola não está de acordo com a greve. Entretanto, isso teria sido antes da ocupação, e agora haverá nova reunião para decidir se irão aderir à paralisação. Nenhum professor ou funcionário quis dar entrevista. O presidente do Grêmio, Daniel, explica que isso ocorre pela opressão do governo: “Eles não podem falar, porque, se falarem, terão seu ponto cortado e serão considerados grevistas”, revela.

No dia em que a Beta Redação visitou a ocupação, um dos adolescentes dava uma palestra sobre ações ambientais no Rio Gravataí. Já era noite e, no total, havia cerca de 35 jovens no local. A maioria iria dormir na escola. O apoio dos pais vem sendo um fator importante. A industriária Vanessa Lopes é mãe de Daniel e, apesar de não concordar com manifestações, considera justa a causa dos estudantes. “Estou aceitando e entendendo o que eles querem. Mesmo preocupada, estou apoiando o Daniel”, conta. Vanessa acompanhou desde o início “para ver se não haveria agressões ou uso de drogas e álcool”. Nas paredes, os alunos fixaram cartazes proibindo o uso de substâncias ilícitas no local. Por enquanto, não houve tentativas nem da polícia, nem da direção da escola para tirá-los de lá. Daniel diz que o intuito do grupo é continuar ocupando: “Nós queremos a solução. Senão, ficaremos aqui”.

 

Foto: Érika Ferraz

Foto: Érika Ferraz

 

Reportagem: Érika Ferraz e Laís Albuquerque

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