Esporte

Esporte na terceira idade cria laços e ajuda a manter a saúde

Grupos de idosos se unem para jogar Câmbio e criam novas amizades

Envelhecer não é algo tão simples quanto pode parecer. Com o decorrer dos anos, nossos corpos já não são mais os mesmos e lidar com isso é um dos enfrentamentos que devemos fazer. Não à toa, estamos constantemente recebendo avisos e indicações de que o esporte é uma excelente maneiras de nos mantermos saudáveis e ativos na vida. Além disso, também é uma forma de socializar com outras pessoas e criar vínculos de amizades e companheirismo. Muitos esportes exigem grandes esforços físicos, incompatíveis com a terceira idade, o Câmbio veio como uma forma de vôlei adaptado, para que se adeque às especificidades que os seus praticantes necessitam.

O Câmbio segue quase todos os princípios do vôlei tradicional. Disputado em uma quadra regular, jogam duas equipes com nove jogadores em cada lado da rede e até três reservas. Neste esporte, cada pessoa tem uma posição definida durante as jogadas, que vão se alternando cada vez que a bola é lançada contra o time adversário. Diferente do vôlei, o saque se inicia com a pessoa que estiver no centro da quadra, que deve  arremessar a bola para o outro lado, sem bater nela. Caberá ao time adversário não deixar a bola cair na quadra, pois isso se reverterá em pontuação. Com a posse de bola, a outra equipe deve fazer o lançamento de volta para tentar marcar pontos.

Treino de câmbio sendo praticado no Centro de Eventos de São Leopoldo

Treino de câmbio sendo praticado no Centro de Eventos de São Leopoldo (Foto: Lucas Schardong/Beta Redação)

Sem os saltos, cortes e batidas na bola, mas com bastante movimentação e organização, o Câmbio é um esporte bem mais leve que o vôlei, fazendo com que seja uma boa opção de atividade física para os idosos praticarem. Preocupado com sua saúde, Aloísio Ruscheinsky, que tem 66 anos e é aposentado, afirma que o Câmbio, em conjunto com as outras atividades que pratica, ajuda e melhorar o seu problema nas articulações.

Jogador de Câmbio há 8 anos e frequentador de academia, Aloísio afirma que a atividade não é apenas benéfica para a saúde dos idosos, mas também uma criadora de laços de amizade com os praticantes do esporte:

No câmbio se junta a questão lúdica com o entretenimento e o exercício físico. São dimensões que se entrelaçam. A maioria aqui está nessa direção. Depois de um certo tempo as pessoas tornam-se amigas, eventualmente fazem reuniões em almoços, se visitam ou viajam juntas. Nós fazemos laços com pessoas que antigamente não conhecíamos.

Aloísio complementa que o Câmbio não é uma forma de trazer saúde só para o corpo, mas para a mente também. “Esse jogo também é importante na questão da memória. Cada um tem a sua posição e isso se alterna durante as jogadas, as pessoas tem que prestar atenção no giro do campo. Além disso tem que prestar atenção nas regras, isso mantém o raciocínio em atividade”.

Para o professor de educação física e coordenador dos grupos de câmbio da Prefeitura de São Leopoldo, Fabrício Barbosa Bauermann, o esporte tem como algo especial o fato de trazer a competição para os idosos. “Muitos deles nunca praticaram esporte na vida. O diferencial do Câmbio para as outras atividades é a questão de ter adversário. Para muitos idosos é uma novidade e uma forma de incentivo também”.

Como organizador do Câmbio desde 2012, Fabrício revela que os quase 50 idosos que participam das atividades querem se divertir e ganhar, mesmo que seja nos treinos. Entre aquecimentos e partidas, que duram cerca de 2 horas e 30 minutos, os treinamentos costumam ser bastante intensos, mas muitos deles continuam em grupos de Câmbio pagos. Ele também diz que no seu Trabalho de Conclusão de Curso o foco principal dos idosos é criar novas amizades, algo muito recorrente do Câmbio. “Aqui é quase como uma reunião familiar. As coisas fluem sem precisar de muita orientação”.

A participação deles é sempre muito intensa. Se pudesse deixar, eles jogariam de segunda a segunda. Acredito que eles vão dormir pensando quando tem câmbio de novo. Para muitos foi que tirou eles de casa, começaram a sair e praticar atividade físicas.

É o caso das amigas Cledi Benites e Vera Pessin, que praticam o esporte há 9 anos, se conheceram através do Câmbio e estreitaram laços a partir daí. “Eu jogo Câmbio todos os dia, sou muito fominha mesmo. Agora eu saio daqui e de tarde eu vou jogar no grupo da igreja do meu bairro”, afirma Vera. “Isso aqui é uma família. Somos todos iguais e amigos”. Em relação às atividades físicas, Cledi afirma que o Câmbio colaborou para que ela não precisasse mais tomar alguns remédios. “Tu sai daqui com a alma lavada. Academia e caminhada não é a mesma coisa, o Câmbio só traz benefícios pra gente. Antes eu era muito estressada, tinha até que tomar remédio pra controlar. Depois que eu comecei a jogar não precisei mais”, afirma.

Treino de câmbio sendo praticado no Centro de Eventos de São Leopoldo (Foto: Lucas Schardong)

Treino de câmbio sendo praticado no Centro de Eventos de São Leopoldo (Foto: Lucas Schardong/Beta Redação)

Com relação à divulgação do esporte, Fabrício afirma que não é preciso se movimentar muito nesse sentido, já que a própria propaganda no boca a boca fomenta a iniciativa. Algo feito por Adolar Alexandra Petry, que há cerca de 10 anos pratica o Câmbio e se orgulha de ter levado diversos conhecidos para o grupo. Ela também afirma que, aos seus 75 anos, o esporte faz muito bem para sua saúde e revela que os amigos que criou durante a prática do esporte a ajudaram a superar uma tragédia familiar:

Se eu não tivesse essa turma que joga comigo, eu não estava mais [aqui]. Esse ano vão fazer três que meu filho foi assassinado. É por causa deles que eu tive forças pra continuar e voltei a jogar, sei que meu filho iria querer assim.

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