Esporte

Esporte como ferramenta de transformação social

Dentro de comunidades periféricas e fragilizadas, o esporte tem grande potencial para proporcionar futuros melhores, principalmente às crianças

Passando por um dos cartões postais de Porto Alegre, a Ponte do Guaíba, e seguindo em direção ao interior do Estado, pela BR-290, ingressamos no bairro Arquipélago, composto pelas ilhas do Delta do Jacuí.

Recentemente, nossos jornais e portais de internet vêm noticiando uma série de episódios violentos nessa região, como os arrastões que acontecem durante os içamentos do vão móvel da Ponte do Guaíba e o caso de um jovem que foi baleado no rosto ao ser cercado por criminosos quando parou o carro no local devido à uma pane, com imagens amplamente divulgadas.

Esses fatos refletem uma realidade antiga do bairro, que possui um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano da capital, segundo o IBGE. É uma região de grande vulnerabilidade social, afetada diretamente pela criminalidade e por desastres ambientais constantes, como as enchentes.

O Rio Guaíba, com seu pôr do sol mais bonito do mundo, segundo muitos gaúchos, parece que também separa essa população do restante da cidade. Algumas das crianças da região, inclusive, acham que as ilhas não fazem parte de Porto Alegre.

Saindo da rodovia federal e pegando um pequeno acesso à direita, a situação se transforma. O asfalto em perfeitas condições vira chão batido e a realidade descrita acima salta aos olhos. Casas e mais casas de madeira, simples, todas suspensas por pedras, por conta dos alagamentos, contrastando de forma curiosa com os carros estacionados, modelos praticamente novos.

O silêncio é quase que total, não se vê crianças brincando na rua. Estão todas na escola. Mais precisamente, a Escola Estadual de Ensino Fundamental Oscar Schmitt, na Ilha das Flores. Caso você tenha pensado, o nome da escola não tem relação com o jogador de basquete brasileiro. É sim, uma homenagem ao senhor que doou o terreno para a construção do local.

Escola

Escola Oscar Schmitt (Foto: Jacqueline Santos/Beta Redação)

Desde março do ano passado, nas terças e quintas pela manhã, 54 alunos e alunas entre 9 e 12 anos participam do projeto Futebol de Rua no contraturno escolar. O projeto foi criado em 2006 pelo Instituto Futebol de Rua, localizado no Paraná. Aqui no Rio Grande do Sul, eles iniciaram as atividades após fecharem um patrocínio com a Triunfo Concepa, empresa concessionária de rodovias que administra a BR-290, que atravessa a região das ilhas.

O diretor executivo do Instituto, Alceu Neto, explica que projeto não tem como foco a formação de atletas. – Não temos nenhuma preocupação em gerar talentos no futebol. Nós chamamos de formação humana o trabalho que fazemos com as crianças. A gente usa o futebol de rua, que é um esporte que todo mundo conhece, para atrair essas crianças com a intenção de cidadania, de valores.

Quem trabalha com as crianças a parte prática na escola é o professor Jorge Elias Júnior, 36 anos. Ele afirma que, basicamente, é “jogar e deixar jogar”, sempre com foco no respeito pelos colegas e no fair play (jogo justo). “Nós possibilitamos o desenvolvimento deles, mais do que ensinar. Alguns vão ter uma técnica mais apurada, outros não, mas todos vão ser respeitados e agregados no grupo. O mais importante é a questão do cidadão. Compreender, por exemplo, que um pedido de desculpas para um colega que tu machucou vale mais que um gol”, ressalta.

Uma curiosidade sobre o futebol de rua que o diferencia das outras modalidades de futebol e o potencializa como ferramenta social é a não utilização de cartões. Segundo o professor, no momento da falta, é feita uma espécie de mediação em campo, com o diálogo entre as crianças envolvidas, ao invés de uma simples punição.

Mesmo trabalhando no projeto há pouco tempo, cerca de um mês, Júnior já recebe um retorno das crianças, mesmo que indireto. – Os alunos têm os professores do Futebol de Rua como referência na escola, isso é fato. Quando chegamos de manhã, eles já estão em formação, perguntam o que vai ter no dia. Isso é maravilhoso! Criança é verdadeira, né? Então, se estiver chato, sei que eles vão falar.

Jorge

Jorge desenvolvendo a prática do futebol de rua (Foto: Divulgação Triunfo Concepa)

A metodologia do projeto também inclui atividades pedagógicas em sala de aula. Quem desenvolve elas na Oscar Schmitt é a professora Patrícia Caminha, de 33 anos, desde o começo do ano letivo. Atualmente, ela realiza jogos cooperativos e atividades de relaxamento, com base nas necessidades dos alunos. “Conversando com os professores do turno da tarde, eles disseram que as crianças são muito agitadas e têm dificuldade de concentração, por isso criei uma atividade de relaxamento para eles”, explica.

Agitação e falta de foco são características até comuns para crianças, mas para as que moram na região das ilhas, segundo a professora, o contexto social do local também influencia. A escola recebe crianças das ilhas das Flores, do Pavão, dos Marinheiros e da Pintada, as mais populosas do arquipélago, com histórico de guerra do tráfico entre si. Por conta disso, não é raro ver brigas de alunos de ilhas diferentes dentro da escola. Nada de maior gravidade, felizmente. Mesmo com tudo que a cerca, a escola consegue se manter como um território de paz.

Mesmo não afetando fisicamente, esse contexto de criminalidade abala psicologicamente os pequenos, sem que eles mesmos percebam, como relata Patrícia. “Plano de futuro para eles não existe: ‘Ah, tem que estudar pra conseguir emprego melhor.’ Agora mesmo um deles comentou aqui que anda dentro de carro roubado. Então, dentro da comunidade onde ele vive, ele não precisa, porque o pessoal tem acesso às coisas de outra forma. A gente fez uma atividade chamada ‘Árvore dos Sonhos’ e metade da turma não conseguia sonhar, não conseguia projetar o futuro como algo melhor. A gente sabe que não adianta só sonhar na vida, mas se tu não tem sonhos, é ainda mais difícil”, desabafa a professora.

Mesmo diante das dificuldades, Patrícia se mantém firme e feliz com o trabalho, a medida que vai vendo os resultados. – A gente tem que pensar que quando é mais difícil, é quando eles mais precisam, e que isso vai refletir muito depois. Hoje, se tu olhar isso aqui – ela aponta para vários colchonetes cinzas empilhados sobre uma classe –  parece uma bagunça, mas, no primeiro dia, só não tinha no ventilador. Então é uma resposta de que eles estão começando a entrar na rotina, talvez daqui há três semanas esteja perfeito – afirma esperançosa.

Patricia

Patrícia e as crianças durante o trabalho na quadra (Foto: Divulgação Triunfo Concepa)

Com o sonho de ser jogador de futebol, Ernando, de 11 anos, iniciou este ano no projeto e diz que sua parte preferida é a prática, na quadra. Perguntado sobre o que estaria fazendo naquele momento caso o Futebol de Rua não existisse no contraturno da escola, ele é simples e direto. “Nada”.

Já Maria Cristina, de dez anos, não tem uma atividade favorita, gosta de tudo que a professora Patrícia e o professor Jorge fazem e tenta explicar do seu jeito aquilo que eles ensinam. “A ‘sora’ ensina mais o jeito que a gente tem que fazer as coisas, ensina brincadeiras também, ela faz um montão de coisa legal! O ‘sor’ ensina o que a gente não sabe e o que a gente já sabe, né? Mas ele já facilita o que é para fazer”.

Apesar da pouca idade, ela percebe as dificuldades que o projeto enfrenta e explica que há momentos em que os colegas não colaboram e acabam atrapalhando os professores, que “precisam ter muita paciência”. Da mesma maneira, ela também observa os resultados positivos do Futebol de Rua. “O ‘sor’ está bem feliz! Ele disse que aqueles que não prestavam atenção estão bem melhores, tão nota dez!”.

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