Geral

O sorriso e a angústia de quem espera

As histórias das pessoas que precisam receber doações de sangue

Cassiano Cardoso e Nicole Fritzen

Muitas vezes, seja por comodismo, medo, ou até mesmo pela falta de informação, as pessoas deixam de doar sangue e ajudar quem tanto precisa. Mas e aquelas que estão em um leito de hospital esperando por doações? O que elas esperam? Como elas esperam? Por quanto tempo elas esperam? Em muitos casos, a luta é árdua. Seja num acidente ou em um caso grave de câncer, pessoas aguardam, todos os dias, por bolsas que poderiam ser doadas de forma solidária e não por meio de grandes campanhas nas redes sociais.

E são pessoas de todas as idades. Desde as mais idosas, quanto aos recém nascidos. Todos precisam de sangue. A necessidade e a correria para ajudar a salvar um ente querido ou até construindo uma rede – como veremos ainda nesta matéria, são o que movem estas famílias que sofrem com os parentes nesta situação complicada.

Um destes casos foi o da auxiliar administrativa Jaqueline Rosa. Mãe pela primeira vez aos 30 anos, mesma idade do marido, o vistoriador veicular Tiago de Mello, ela encontrou uma barreira ainda no início da vida do pequeno Antônio, de apenas cinco meses. O menino foi diagnosticado com craniossinostose, que é quando a sutura do crânio se fecha antecipadamente e impede o desenvolvimento do cérebro.

Foto: Arquivo Pessoal.

O pequeno Antônio nasceu com craniossinostose, uma pequena deformidade no crânio. Foto: Arquivo Pessoal.

“Na primeira semana eu já havia notado que a cabeça estava um pouco mais alongada, mas o pediatra disse que era normal”, conta a mãe. Porém, na medida em que o tempo foi passando, o médico também notou a diferença no formato do crânio do menino. A partir dali, as dificuldades começaram a aparecer e a situação complicou para a família.

“Fiquei bastante aflita. Quando ele disse que seria uma cirurgia complicada, que poderia perder muito sangue, fiquei bem desesperada”, lembra Jaqueline. Ela conta que buscou informações e grupos de mães na internet, na tentativa de compreender melhor a situação do filho e como seria a cirurgia. Segundo ela, o problema é que, como o corpo do bebê é muito pequeno, seria necessária uma transfusão de sangue após a operação.

Ao divulgar nas redes sociais a necessidade, sua esperança aumentou com a grande quantidade de comentários e compartilhamentos. Entretanto, não foi bem assim que aconteceu. “Tinha muita gente dizendo que queria doar, mas não tem muita informação. Não sabiam se podiam. No fim, foram cinco doadores bem certinho, mas pela mobilização, achei que até sobraria”, lembra.

O período até o dia da cirurgia foi bastante preocupante para os pais e, apesar de bem sucedida, o pós operatório foi difícil para os pais. “É doloroso. Ele é uma criança muito ativa. Agora ele tá sedado. O decorrer foi bem difícil e o pós também é bem ruim. Ver que ele não está sorrindo como sempre é complicado”, comenta.

De acordo com a mãe, a dificuldade de encontrar doadores a assustou. “Fiquei com medo que não desse, achei que viriam mais pessoas”, explana. Porém, o médico acalmou-a. “Ele me disse que, de todo modo, eles usariam do banco  para repor, mesmo que não conseguisse. Foi meio tenso, pois não sabia se tinham vindo cinco doadores ou não”, completa.

Quando a mobilização dá certo

Para muitos, a leucemia é considerada monstro à espreita, e enfrentá-la sozinho pode ser um dos maiores pesadelos que uma pessoa terá. A descoberta da doença e a necessidade de receber plaquetas é um dos maiores empecilhos e dificuldades para juntar doadores. Entretanto, a mobilização e a união da família e amigos foram fundamentais para Maria Alice Morais e Gabriel Zimmermann Pires, que se depararam com a mesma doença em momentos distintos da vida.

Após uma breve passagem por um dermatologista, que lhe pediu exames, a aposentada Maria Alice Morais, 67 anos, teve um índice baixo de plaquetas no sangue, o que acendeu o alerta dos médicos. Recebeu a sugestão de ir à emergência do Hospital Moinhos de Vento para descobrir o que estava havendo, pois tinham lhe aparecido manchas na cabeça que haviam deixado-a intrigada.

No hospital, foi diagnosticada com leucemia mieloide aguda pela hematologista que leu os exames e pediu um outro, especialmente para verificar a possibilidade de ter a doença. No entanto, talvez pela longa trajetória e por tudo o que viveu, Maria Alice não se deixou abater. “Quando o bicho é cabeludo, parece que fico mais calma ainda”, explica.

Dali em diante, foram 22 dias de internação no hospital necessitando de doação de sangue e plaquetas que fossem compatíveis com os dela. Ao todo, serão quatro baterias de quimioterapia divididas por períodos em casa, de 21 dias. Tudo isso até setembro. Toda vez em que suas plaquetas baixarem, serão necessárias doações para a reposição. Foi aí que ela se surpreendeu. “Minha sobrinha mobilizou amigos da faculdade para doarem. Meu filho falou com colegas na advocacia e minha filha, militar, chamou colegas. Tudo isso me deu muita força”, lembra.

“Desse jeito vou ficar famosa”, brinca, lembrando das pessoas que a ajudaram no hospital. Para ela, além de tudo, o mais importante foi mostrar a união, e que também estes amigos poderiam ajudar outras pessoas caso  não fossem compatíveis com o dela. “O esforço que meus familiares com certeza vai ajudar algum colega que esteja precisando ali do lado”, afirma.

Para ela, sempre que precisar, o hospital chamará um dos parentes e amigos cadastrados e com compatibilidade para repor ou as plaquetas ou o sangue que serão necessários para o tratamento. Porém, o que poderia ser um momento de sofrimento, pela necessidade de realizar quimioterapia, está sendo leve para Maria Alice. “Até passei a usar mais o Facebook e outras redes para me distrair, algo que eu não fazia. E ver tudo isso que fizeram por mim é muito gratificante”, enfatiza.

Apesar do diagnóstico de leucemia, Maria Alice não deixou o bom humor de lado nos 22 dias que passou no hospital. Foto: Arquivo Pessoal.

Apesar do diagnóstico de leucemia, Maria Alice não deixou o bom humor de lado nos 22 dias que passou no hospital. Foto: Arquivo Pessoal.

Aos 35 anos, Gabriel Zimmermann Pires foi diagnosticado com leucemia em janeiro deste ano, depois de alguns dias internado no Hospital de Clínicas por conta de uma ferida na perna. Ao realizar uma biópsia, surgiu o resultado surpreendente. Porém, mesmo depois do diagnóstico negativo, a fé e a esperança de conseguir as doações permaneceram em Gabriel. “Eu precisava de dez doadores, mas sempre acreditei que conseguiria mais do que foi solicitado”, afirma.

Ele conta que a mobilização intensa dos amigos e o empenho nas redes sociais foram fundamentais para que as doações ocorressem. “Como eu trabalhava com eventos noturnos, contratávamos bandas de pagode do Rio de Janeiro e São Paulo, e eles começaram a fazer vídeos pedindo ajuda para doações, que foram postados nas redes sociais. Virou uma febre no Facebook e Instagram, com amigos e pessoas de vários lugares compartilhando e postando”, aponta.

Segundo Gabriel, em torno de 50 doações já foram feitas até agora. “É um sentimento de felicidade e satisfação muito grande, saber que tem tanta gente ajudando. E essas pessoas que doam ajudam não só a mim, mas a todos que precisam”, comemora.

Para ele, a doação é um ato nobre que precisa ser incentivado. “Eu acho que doar sangue é ajudar o próximo e essa é nossa missão aqui nesse plano. Se todo mundo contribuísse sem querer nada em troca o mundo seria muito melhor”, opina.

A cura por meio da doação

Com alívio e bom humor, o aposentado Euclides Bellaver, 68 anos, conta sobre o tratamento intenso que teve em 2013, quando foi diagnosticado com um linfoma de células do manto, enfermidade que atinge a medula óssea e os gânglios linfáticos. Com sintomas de fraqueza e mal estar, Euclides foi internado em um hospital de Farroupilha, na Serra Gaúcha, onde foi surpreendido com o resultado.

“Não esperava que pudesse ser uma doença grave. Até porque meus sintomas não eram de dor intensa, apenas me sentia fraco e sem vontade de comer”, relembra. Para conseguir doadores para as doze sessões de quimioterapia a que foi submetido, ele contou com a  mobilização da família, que foi atrás doadores. Mas, ao contrário do que se faz atualmente, não foi a internet que possibilitou a mobilização.

“Fomos atrás das doações por telefone e pelo contato com pessoas conhecidas, que saíram a procura de mais doadores. Aqui no interior o pessoal se conhece, procura ajudar na causa. Eu não tive dúvidas de que iria conseguir”, comenta.

Porém, um ano depois, quando teve que realizar uma cirurgia de transplante de medula em Porto Alegre, a situação se inverteu. “Fiquei muito apreensivo, pois precisava de mais doadores e na Capital ficava mais difícil conseguir pessoas, até pelo deslocamento. Não tenho ideia de quantos doadores consegui no final, mas foi o suficiente para me ajudar”, relata.

Para ele, que já doou sangue em outras oportunidades, o ato transforma a vida das pessoas. “Doar é fundamental. Quando você possui uma doença, sente uma grande angústia pois precisa da ajuda e colaboração de outras pessoas, dependemos dos outros. Quem tem a oportunidade de fazer a doação, deve fazer”, aponta.

O procedimento é seguro, doe sangue. Confira a matéria da Beta Redação aqui.

Aos 35 anos, Gabriel Zimmermann contou com mobilização intensa da família e amigos nas redes sociais. (Foto: Arquivo Pessoal).

Aos 35 anos, Gabriel Zimmermann contou com a mobilização intensa da família e amigos nas redes sociais. (Foto: Arquivo Pessoal).

 

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