Economia

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Nesta reportagem, a Beta Redação conta a história do auge e da decadência de uma atividade que se entranha na própria identidade de um município

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ÍNDICE: | A Capital dos Curtumes || Curtumes vazios e alternativas || Época de trabalho intenso || Município busca diversificação da economia || Calçados e couro: tudo interligado || NR 12 e as cobranças por mais segurança || Fragmentação e diversificação do setor || A China e a concorrência desleal || Mão de obra hoje é escassa || Formação e exportação de talentos |


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História do setor coureiro de Estância Velha by Slidely Slideshow

Como parte do processo de colonização após a independência do Brasil, em 1824 os alemães chegaram ao Rio Grande do Sul, instalando-se na antiga Feitoria da Linha Cânhamo. No ano seguinte, parte desses colonizadores desbravaram as matas de Estância Velha – ainda um distrito de São Leopoldo – e fixaram moradia próximo à Lagoa Lourenço Torres, no bairro Boa Saúde. Na bagagem, os alemães trouxeram consigo a prática do curtimento do couro.

“Salve, salve Estância Velha / Do couro a Capital.” As duas primeiras estrofes do hino do município comprovam que a arte de curtimento em couro é parte fundamental da história do desenvolvimento da cidade há pelo menos 180 anos. O primeiro registro é entre os anos 1835 e 1845, durante a Guerra dos Farrapos, quando o curtume Matzenbacher e Dhein foi assaltado. Porém, o primeiro registro oficial de um curtume estanciense é de 1869, que pertenceu a Augusto Jung.

Do século 19 até o 21, muito couro foi trabalhado no município. Principalmente entre as décadas de 1970 e 1980, quando as produções eram quase ininterruptas, os trabalhadores tomavam as ruas da cidade e o cheiro específico dos curtumes dominava o ar de Estância Velha. Mas foi neste novo milênio que o setor viu se completar a sua derrocada. Talvez, a principal marca desta queda seja o grande vazio deixado pelo prédio do curtume Berghan, no coração da cidade. Ou, ainda, a calmaria pelas ruas, que hoje já não contam com o grande movimento dos trabalhadores que iam de bicicleta ou com os ônibus das empresas até o seu local de trabalho. Muitos ainda se lembram do Centro colorido com os guarda-pós dos funcionários. Hoje, a recordação mais forte é o Monumento ao Curtidor, situado no Centro, um símbolo do que já foi Estância Velha.

 

Monumento ao Curtidor mantém viva a lembrança da atividade responsável pelo desenvolvimento de Estância Velha (Foto: Francine Malessa/CMV)

Monumento ao Curtidor mantém viva a lembrança da atividade responsável pelo desenvolvimento de Estância Velha / Foto: Francine Malessa/CMV

Quando Estância Velha se emancipou, em 1959, o município já era conhecido como a Capital dos Curtumes, atraindo cada vez mais empresas de preparo e beneficiamento de couro. Com as exportações impulsionando as indústrias, em 1980, e uma produção de 60 mil metros de cabedais (parte superior do calçado) para a região, a cidade passou a ter esse título reconhecido em nível nacional, segundo a historiadora Suzana de Farias. No entanto, a atividade que por muito tempo foi a principal fonte de receita de Estância Velha hoje agoniza entre os poucos curtumes que restaram no Município. 

“Tenho documentos de 17 massas falidas para encaminhar. Ou seja, 17 curtumes já fecharam aqui”, conta a presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Curtimento de Couros e Peles, Marisa Schneider.

Embora os dados da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo apontem para uma economia baseada na indústria do couro, calçado e borracha, de 2011 até julho de 2015, verifica-se que o setor está em queda constante, somando  muito mais desligamentos do que geração de postos de trabalho (veja no gráfico abaixo).

As causas formam uma lista extensa e diversa. Entre elas, problemas administrativos das empresas; a entrada da China no mercado – que acabaram levando os profissionais da região para lá; os altos impostos e escassa oferta de incentivos às indústrias; a fragmentação do próprio setor coureiro; a utilização de outros insumos na formação do calçado, como couro sintético, tecido e lona; as obrigações e preservação ambiental e, por fim, a NR 12.

A norma regulamentadora de segurança no trabalho exige um alto investimento das empresas. “A NR 12 impõe normas a serem seguidas, podendo interditar as empresas que não as seguirem. Assim, se de um lado há a redução de consumo e produção, de outro lado há exigências legais sendo cobradas”, diz a Secretária de Indústria, Comércio e Turismo, Maria Regina Silva, acrescentando outro motivo: “o alto custo da energia elétrica impactou negativamente a saúde econômica das empresas e comércio em geral”.

O presidente executivo da Associação das Indústrias de Curtumes do Rio Grande do Sul (AIC Sul), Moacir Berger de Souza, acrescenta ainda os efeitos de medidas políticas dos governos. “Inserido na cadeia coureiro-calçadista, o nosso setor sofre, tal qual o calçadista, os efeitos de políticas fiscais e tributárias que fizeram com que o então próspero Vale do Sinos, que já exportou mais de 100 milhões de pares de calçados fabricados em couro por ano nas décadas de 1980 e 1990, reduzisse a exportação desse produto a não mais de 16 milhões de pares ano atualmente”, relata. Como consequência, a queda na produção de calçados confeccionados em couro para exportação trouxe reflexos para a comercialização dos curtumes do Rio Grande do Sul, e as indústrias estancienses não escaparam. Por fim, a concentração de matéria-prima em apenas uma indústria também acabou prejudicando o setor.


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Em 2013, a direção do curtume Áquila já havia cogitado a possibilidade de parar com as atividades. “Em função do apelo de clientes, resolvemos dar mais uma oportunidade. Ano passado, com os altos e baixos do mercado calçadista, chegamos ao fim do ano com decadência no consumo. Como já não estávamos fortes e no início deste ano o mercado deu mais uma baixada, ficou muito caro manter uma indústria”, relata um dos diretores-presidentes do curtume Áquila, Jacó Immig. Os 22 funcionários foram dispensados e todos receberam seus direitos trabalhistas. Agora, a empresa está fazendo a venda de máquinas e estoques.

 

Curtume Berghan está entre as indústrias que fecharam as portas na última década. No local do prédio, atualmente está um grande vazio no Centro da cidade. (Fotos: Isaías Rheinheimer - O Diário (antes)/Francine Malessa (depois) Beta Redação)

Curtume Berghan está entre as indústrias que fecharam as portas na última década. No local do prédio, restou um grande vazio no Centro da cidade / Fotos: Isaías Rheinheimer/O Diário (antes); Francine Malessa (depois)

Enquanto isso, outras indústrias seguem abertas e soluções são buscadas. Dos sete curtumes filiados ao Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Couro, seis optaram por parar um dia por semana, geralmente na sexta-feira. O único que segue com as atividades normalizadas é o Finileather.  

Com 60 funcionários, a empresa trabalha com beneficiamento de couro, estampados e produtos para bolsas. “Não é que não optamos pela folga, nós buscamos outras alternativas, como revezamento de férias e redução do turno da noite, por exemplo”, conta o diretor Luis Carlos Petry, que relata uma redução de 30% no quadro de funcionários em julho.


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“Era uma época boa. Os curtumes não conseguiam funcionários suficientes. Lembro que nos finais de semana eles pegavam os trabalhadores que vieram do interior para voltar lá e auxiliar na busca de mais funcionários. Os curtumes trabalhavam quase ininterruptamente, fazendo serão aos sábados, o que rendia hora extra também”, recorda Celso Ivo Rott, 59 anos, que saiu de Feliz para Estância Velha para trabalhar no setor em 1973. O aposentado e hoje tesoureiro do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Couro conta que construiu sua casa e fez sua vida durante os anos em que trabalhou nos curtumes estancienses.

Quase duas décadas após sair do mercado, Rott acompanhou a queda do setor no município. “Naquela época tu saía de um curtume num dia e no outro já estava trabalhando. Hoje, a maioria que sai do setor troca de carreira, vai pra metalurgia, por exemplo.”


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Enquanto o setor coureiro-calçadista de Estância Velha segue em queda livre, a administração municipal busca diversificar a economia. “Embora o setor ainda seja responsável por 33% da arrecadação, há uma grande diversidade de empresas se instalando no município, mudando essa matriz de forma significativa. Exemplo disto é o grande crescimento nas indústrias alimentícia, metalúrgica e moveleira”, relata a secretária de Indústria, Comércio e Turismo, Maria Regina.

Segundo dados da Semict, há 749 empreendimentos ligados ao varejo registrados no município. Há ainda 467 negócios ligados ao comércio de administração de imóveis; 2.047 empreendimentos atacadistas e 411 serviços de alojamento e alimentação, como bares e restaurantes.

Entre as 10 maiores empresas de Estância Velha – Seta, Johann, Delloto, Mepfil, Suzuki, Conforto, Brespel, Torralba, Cartrom e Dimel -, apenas uma integra o setor coureiro (Brespel) e duas correspondem ao mercado calçadista (Conforto e Delloto).

Diante da crise deste ano, a Semict não prevê investimentos a curto prazo. “Por outro lado,  temos o Parque Industrial, que oferece lotes de 2.700 m² a 6.000 m², com isenção de IPTU por 5 anos, 60 meses para pagamento, redução de ITBI, carência de um ano para pagamento da primeira parcela. Enfim, queremos estimular a instalação de novos empreendimentos”, argumenta Maria Regina.

 

Parque Industrial é alternativa para a diversificação da economia no Município (Foto: Francine Malessa/Beta Redação)

Parque Industrial é alternativa para a diversificação da economia no município / Foto: Francine Malessa

A busca por incentivos e para a recuperação da economia iniciou já nas administrações anteriores. Quando o diretor-presidente da Fenac – Feira Nacional do Calçado (hoje não mais uma feira, mas uma entidade que administra o Centro de Eventos dedicado ao setor -, Elivir Desiam, foi prefeito (de 2001 a 2008), diversas medidas foram tomadas. “O mercado sempre foi oscilante. E os curtumes foram, ao longo da história de Estância Velha, a mola mestra da economia local. Na minha gestão, criamos um selo de qualidade, situações para expor em feiras, leis de incentivos para novas empresas. Sempre estava atento e disposto a ajudar as empresas”, garante.


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Situada em uma região que concentra uma grande quantidade de empresas de calçados, Estância Velha sempre contou com um casamento entre os setores coureiro e calçadista. Paralelamente ao curtumes, a cidade também sediou, e sedia ainda, empresas de calçados. No início dos anos 90, uma das principais delas, a Novisol, fechou suas portas quando o mercado internacional começou a ser invadido pela China e os produtos chineses. Problemas administrativos e de controle de qualidade colaboraram para a perda de contratos com o mercado europeu.

Zuleica Pinto Bauermann, 43, trabalhou por cinco anos na Novisol, passando por diversos setores. Segundo ela, os funcionários sentiram a crise antes do fechamento. “A produção já não era mais a mesma, todos na empresa sentiram a mudança. Era visível. Funcionários estavam sendo desligados com frequência”, recorda.

 A importância da indústria para o município ficou evidente durante o processo de fechamento. “Foi triste, pois era uma empresa antiga, de credibilidade. Lembro bem que tinha famílias que trabalhavam na empresa, como pai, mãe, filho, e com a crise do mercado a família inteira sofreu. Alguns funcionários trabalharam a sua vida toda nessa mesma empresa”, afirma. E é claro que a questão econômica na família de Zuleica também sofreu consequências: “Foram mudanças de orçamento, corte de gastos e preocupações, até porque na época nós tínhamos uma filha pequena”, conta.

 

Setores coureiro e calçadista sempre andaram juntos (Foto: Francine Malessa/O Diário)

Setores coureiro e calçadista sempre andaram juntos / Foto: Francine Malessa/O Diário

Outra empresa de renome que teve as portas fechadas foi a Veância, localizada em alguns pavilhões no Centro da cidade. Questões familiares impediram a continuidade, pois o filho não tinha interesse em assumir os negócios do pai. Elivir Desiam recorda a representatividade dessa indústria. “Lembro quando o Veância fechou, foi no meu último ano [como prefeito]. E eram aquelas 600 pessoas com guarda-pó laranja que ficavam ali, meio-dia, no Centro. Aquilo também foi muito simbólico na época. Deu aquele vazio.”

Nair Back, 50, trabalhou 14 anos como preparadeira no Veância (preparava peças do sapato para ser costurado) e sentiu muito o fechamento, mais por gostar do ambiente de trabalho do que pela questão econômica familiar.

A queda do mercado calçadista influenciou diretamente na economia do setor coureiro. “A região era muito rica na questão de fábrica de calçados, e as nossas indústrias [de couro] abasteciam essas fábricas. O setor calçadista caiu drasticamente nos últimos 20 anos e isso arrastou a indústria junto. As exportações tiveram seus altos e baixos e começou a ficar mais difícil”, comenta Jacó Immig, executivo da Áquila.

Paralelamente a isso, quando as fábricas começaram a adotar outros insumos na confecção de calçados, os curtumes também foram prejudicados. “Até 20, 30 anos atrás, entre 70% e 80% dos calçados eram feitos com couro, enquanto hoje apenas 15% ou 20% contam com o material.” A informação é do diretor-presidente da Fenac, Elivir Desiam. “Hoje o tecido, o couro sintético, o PU, os materiais alternativos para o mercado interno também acabaram mudando o insumo do calçado.” A sindicalista Marisa Schneider conta, inclusive, que em Estância Velha já existe uma empresa que trabalha totalmente com sintéticos.

Com novas alternativas para os calçados, problemas administrativos e queda na exportação devido à invasão do mercado pela China, muitas fábricas de calçados e curtumes se voltaram para os consumidores nacionais. “Quando as empresas sentiram a exportação desacelerar, começaram a fazer as marcas deles no mercado interno. Investiram em revistas e fizeram markerting e se consolidaram. Muitos sucumbiram porque acharam que o alerta do mercado chinês não ia abalar. E o que aconteceu foi catastrófico na época. Hoje o setor calçadista continua produzindo quase 1 bilhão de pares de calçados por ano. Deste, 85% são absorvidos pelo mercado interno”, conta Desiam.

Hoje, para o diretor-presidente da Fenac, o Brasil volta a se posicionar e buscar o mercado internacional. “As empresas estão com um produto mais elaborado, com valor agregado maior, vendendo com as suas próprias marcas e indo em feiras internacionais.”


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Somada aos aspectos citados anteriormente, a NR12 se tornou a principal vilã dos empresários de Estância Velha. Recentemente, mais um curtume fechou no município: o Áquila. Numa sexta-feira à tarde, o pavilhão da empresa estava escuro, assim como vem acontecendo desde maio. Um dos diretores-presidentes, Jacó Immig, explicou a dificuldade em manter as atividades enquanto a indústria teria que arcar com os altos custos da NR 12, somados à conta de energia elétrica, folha de pagamento, entre tantos outros aspectos. “Acho que tá justo, só que estamos partindo de uma indústria velha, com muitos equipamentos para serem adaptados com a segurança máxima. Isso sai muito caro. Hoje todos os curtumes estão com essa dificuldade.” Immig critica ainda a dificuldade de informações disponíveis sobre a norma. “Às vezes, não se sabe bem como fazer essa adaptação. Na Europa é mais flexível, segundo informações, e aqui está se aplicando a lei ao máximo. Se tu pegar um parque novo, com equipamentos adaptados, tudo bem. Mas, das indústrias daqui, poucas têm máquinas novas”, complementa.

O técnico em segurança do trabalho Rodrigo da Silveira Carlos explica que a NR12 prevê referências técnicas, princípios fundamentais e medidas de prevenção para garantir a saúde e a integridade física dos trabalhadores. Além disso, a norma estabelece requisitos mínimos para a prevenção de acidentes e doenças de trabalho em máquinas de todos os tipos. “As principais consequências do não cumprimento da norma podem ser multas, embargos e até interdições de diversos estabelecimentos e empresas que possuam máquinas e equipamentos em desacordo”, cita.

Ainda de acordo com o técnico, o investimento para a adaptação depende do tipo de máquina, da operacionalidade dela e do ramo de atividade da empresa.

A adoção da NR 12 acabou gerando conflito também entre o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e Confederação Nacional da Indústria (CNI). “O INSS alega que gasta bilhões por ano com acidentados devido às máquinas e equipamentos sem proteção para o trabalhador em todo território nacional. Já a CNI contesta que os custos para a adequação são inviáveis e que a maioria das empresas ou faz adequação, ou fecha o estabelecimento devido os altos custos. Isto está pesando para o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que por sua vez está tentando reformular a NR12 em condições mais amigáveis com as comissões tripartites [formadas por empresas, empregados e governo] para que todos possam atender à legislação”, comenta.


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A diversificação da utilização do couro surge no início dos anos 2000, trazendo uma sobrevida aos curtumes. E o modo tradicional de produção, desde a matéria-prima até o produto final, tornou-se inviável. Hoje, as empresas assumem uma parte do processo, geralmente o acabamento. “Graças ao considerável desenvolvimento tecnológico do setor, os curtumes gaúchos conseguiram em definitivo ver reconhecido o produto aqui fabricado como essencial ao mercado internacional, destinado à fabricação de automóveis, móveis e artefatos, além do tradicional mercado calçadista. Encontrada a solução, para suprir a queda no consumo interno os curtumes conseguiram não só continuar suas operações como também aumentar a quantidade e, especialmente, a qualidade de seus produtos”, comenta Souza.

 

Para sobreviver, setor coureiro também se diversificou (Foto: Francine Malessa/O Diário)

Para sobreviver, setor coureiro também se diversificou / Foto: Francine Malessa/O Diário

Hoje, o Rio Grande do Sul sedia as indústrias especializadas no acabamento final do couro. Para o presidente executivo da AIC Sul, essas empresas devem estar sintonizadas com a moda no mundo. “É certo que a quantidade de curtumes hoje no Rio Grande do Sul é menor do que na década de 1980. A seleção natural, aliada à necessária especialização, fez com que as empresas procurassem se adequar a um novo nível de atividade. A redução do número de curtumes não implica, necessariamente, em redução de volume de produção.  Pode, sim, apontar para um melhor índice de produtividade das empresas remanescentes.


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Divulgado pela Agência Brasil, um levantamento da Comissão de Defesa da Indústria Brasileira (Cdib), de 2011, já apontava que na última década muitas indústrias fecharam as portas devido à invasão do mercado pelos chineses. Em 2012, por exemplo, os produtos chineses corresponderam a 15,03% da importação do país entre janeiro e agosto, segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior publicado pelo portal Terra. E é evidente que o setor calçadista se enquadra entre as vítimas desse avanço. A empresa Novisol, fechada nos anos 90, foi um exemplo de diminuição de contratos devido à concorrência da China.

 “O que diferencia o valor do sapato brasileiro e chinês: a concorrência é desleal. Hoje já tem leis sociais lá também. Mas em um primeiro momento, era uma concorrência muito desleal. O funcionário lá trabalhava 14 horas por dia e ganhava 50 dólares por mês. Não tinha como competir. Perdemos o calçado de menor valor em função de uma concorrência desleal. Então, hoje o setor começa de novo a buscar mercado exportador, mas diferente das décadas passadas. Na época tu entregava o sapato com a marca do americano, uma caixa do americano e não era ninguém, apenas um made in Brazil. Hoje as empresas brasileiras têm levado a sua marca e o seu produto. Agora tu é alguém lá”, afirma o diretor-presidente da Fenac, Elivir Desiam.

Questionado sobre a influência do mercado chinês também no setor coureiro, Desiam garante que outro aspecto pode ter interferido. “A crise dos curtumes é outra realidade. Houve uma concentração muito grande, principalmente na JBS [inclusive, havia uma filial em Estância Velha], que detém 60%, 70% da matéria-prima do setor, que é exportada para a China e depois volta para nós. Estamos alimentando com matéria-prima um concorrente nosso. Isso é um pouco, também, a monopolização da matéria-prima”, complementa.


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A escassa mão de obra também fez com que algumas indústrias procurassem outras regiões para se instalar ou, até mesmo, reduzissem a produção. O progresso dos pais que trabalharam nos curtumes e nas fábricas gerou oportunidades para a nova geração. Os filhos desses funcionários querem trabalhar em outras áreas, não mais em chão de fábrica. 

Como consequência, muitas empresas foram para outras partes do interior do Estado, pois a mão de obra das metrópoles não quer empregos com baixa remuneração, principalmente quando há conhecimento técnico por parte dos trabalhadores. Atualmente, dos 90 curtumes no Estado, 50 estão no Vale do Sinos. “Há dois anos, vários empresários me diziam que não conseguiam mão de obra. Por ser muito artesanal, o setor coureiro-calçadista não pode pagar bons salários, e os filhos desses trabalhadores que colaboraram anteriormente para o mercado acabam buscando empregos mais qualificados”, relata o diretor-presidente da Fenac, Elivir Desiam.

 

Escassa mão de obra também é um dos motivos para queda do setor (Foto: Francine Malessa/O Diário)

Escassa mão de obra também é um dos motivos para queda do setor (Foto: Francine Malessa/O Diário)


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Marco do desenvolvimento tecnológico do município, uma parceria entre prefeitura, Ministério da Educação (MEC), Fiergs e Ciergs, possibilitou a construção da Escola Técnica de Curtimento Senai, a única unidade da América Latina a oferecer a formação de curtimento em couro. Segundo a orientadora pedagógica da escola, Márcia Gottardi, mais de 2.800 alunos já concluíram sua formação no local.

Atualmente, o Senai conta com cinco turmas e 100 alunos do ensino técnico. E, apesar da queda do setor, a procura segue constante, tanto por pessoas que queiram fazer a formação quanto por profissionais que buscam aperfeiçoamento. “Considerando a economia presente, nestes últimos anos a procura tem baixado em relação aos anos anteriores, mas, como ainda somos referência em escola técnica de curtimento, a procura sempre existe, inclusive por alunos estrangeiros, de países como Canadá, Itália, República Dominicana e Portugal”, conta Márcia.

O curso conta com a fase de estágio obrigatório, e muitos alunos já são absorvidos pelo mercado. “Nas últimas turmas que entraram para estágio, temos alunos estagiando no Vietnã, Uruguai, China, Equador. Mantemos uma boa relação com os ex-alunos da escola que ingressaram nos mais variados ramos da cadeia produtiva, como curtumes, indústrias químicas, companhia de exportação, fábricas de sapatos e bureau de desenvolvimentos”, complementa a orientadora pedagógica. Questionada sobre o mercado atual, Márcia afirma que os egressos do Senai ainda terão espaço pela relevância da produção do couro, material considerado nobre que possui características técnicas insubstituíveis, como a capacidade de transpiração e a durabilidade.

Apesar de manter em alta a formação de novos talentos, muitos alunos acabam por sair de Estância Velha para trabalhar em outros cidades. Assim aconteceu com Matias Herter, 24 anos. Em 2008, Herter decidiu por fazer a qualificação pois, naquele momento, havia uma grande procura pelo curso e uma carência de profissionais, principalmente na região de Estância Velha. “Tínhamos o conhecimento que essa profissão oferecia uma ótima remuneração. Me formei em 2010, porém, neste momento a realidade já era outra”, comenta. Em um intervalo de dois anos, muitos curtumes estavam fechando, a produção era pouca, a remuneração era baixa e muitos profissionais estavam desempregados.

 

Formado no Senai de Estância Velha, Matias atualmente trabalha em Rondônia (Foto: Arquivo pessoal)

Formado no Senai de Estância Velha, Matias atualmente trabalha em Rondônia / Foto: Arquivo pessoal

“Eu me lembro de algumas entrevistas que realizei onde se tinha até 30 pessoas, entre desempregados e recém-formados, lutando por uma vaga. Como eu tinha uma expectativa muito grande em relação ao ramo, mas infelizmente o cenário era negativo, resolvi buscar algo fora do Rio Grande do Sul”, conta Matias.

A oportunidade surgiu a mais de mil quilômetros de distância. Funcionário da Friboi desde 2010, Matias já atuou em Minas Gerais e, atualmente, está Rondônia. “Encontrei uma oportunidade fora do Estado que me apresentou um plano de carreira sólido e com uma remuneração muito acima do teto na região de Estância Velha. Acredito que profissionais como eu fizeram a escolha certa, pois hoje o índice de desemprego do setor no Sul está alto”, relata.


Arte: manipulação sobre foto de Shelley Freedman

 

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