Economia

ESPECIAL: Uma minoria barulhenta

Impulsionadas por novos sabores, cervejas artesanais buscam espaço no mercado

De uma hora para outra, a prateleira reservada às cervejas nos mercados ficou mais colorida. As marcas tradicionais deram espaço a diferentes rótulos, cores e sabores. As cervejas artesanais ganharam terreno e, por consequência, o coração do público. Os cervejeiros de plantão agradecem. Ainda que feitas em menor escala, a ideia de unir o útil ao agradável fez com que elas entrassem com força no mercado, mas sem perder a característica de hobby para os seus produtores.

A rápida expansão possibilitou a criação de um universo próprio. Dentro do meio, compartilhar conhecimentos e experiências sobre a cerveja artesanal é tão importante quanto produzir e degustar.

Falando sobre cerveja

Depois de 20 anos e meio em uma redação, Altair Nobre resolveu se especializar em jornalismo para tablet e celular. A decisão de investir em algo novo aconteceu em um momento de ascensão das cervejas artesanais no mercado. “Como tinha interesse pelo tema e sempre abominei as cervejas mais ‘standards’, eu me empolguei com a possibilidade de contribuir para o desenvolvimento do mercado das cervejas artesanais com jornalismo especializado”, justifica. Sempre gratuita, a revista Beer Art surgiu em  agosto de 2013, em formato para iPad. Meses depois, passou para o iPhone e, a partir da sexta edição, chegou também ao Android.

Ao longo das 18 edições, a revista também se fortaleceu dentro do site revistabeerart.com e nas redes sociais e resultou até no livro-guia Cervejas Premiadas Brasileiras, lançado em outubro de 2015. Para o jornalista, a diversidade foi importante para garantir o sucesso das bebidas. “O universo das artesanais é mais diverso. Só no livro que escrevi, reuni exemplos de cervejas de 105 estilos. As cervejas mais consumidas no Brasil fazem parte de apenas dois desses 105 estilos: ou são American Lager, ou American Light Lager”, explica.

Livro Guia das Cervejas Premiadas Brasileiras, escrito por Altair Nobre, foi lançado em outubro de 2015 / Foto: Divulgação/Revista Beer Art

Livro Cervejas Premiadas Brasileiras, escrito por Altair Nobre, foi lançado em outubro de 2015 / Foto: Divulgação, Revista Beer Art

Ainda em desenvolvimento, o mercado da cerveja artesanal tem o Rio Grande do Sul na vanguarda, de acordo com Altair. Das 455 cervejas brasileiras premiadas nos concursos mais relevantes a nível nacional, continental e internacional, 250 são do Sul do país. O protagonismo do Estado pode ser notado ao analisar as principais premiações. No Festival Brasileiro da Cerveja de 2015, as duas cervejarias mais premiadas foram a Tupiniquim e a Seasons, ambas de Porto Alegre – e vizinhas de parede no bairro Anchieta, que conta com 12 cervejarias apenas em uma quadra.

Além disso, a Tupiniquim, com pouco mais de um ano de operação, foi campeã no Chile. Já na South Beer Cup, realizada na Argentina, a cervejaria Heilige, de Santa Cruz do Sul, foi eleita a melhor das Américas. A força do Rio Grande do Sul é indiscutível e, segundo Altair, tem ajudado o mercado a se expandir, junto com São Paulo e Minas Gerais, para outros lugares como o Rio de Janeiro, a região Centro-Oeste e o Nordeste.

Um dos desafios da expansão desse segmento são os tributos. Para Altair, “os governos têm de estimular as artesanais com a redução dos tributos. Hoje a carga tributária é de quase 60% sobre o valor da cerveja. Ou seja, se você está bebendo uma cerveja de R$ 10, você entregou para o cervejeiro apenas R$ 4, e para os governos foram R$ 6.” No Brasil, hoje o mercado de artesanais representa apenas 0,7%. Isso significa que, de cada mil garrafas de cerveja consumidas, apenas sete são artesanais.

Um exemplo a ser seguido, segundo o jornalista, seria o dos Estados Unidos. “Nos EUA, onde a expansão da indústria da cerveja artesanal impressiona, a carga de impostos é menos de 10%”, conta. No contexto brasileiro, essa tributação permitiria que a cerveja de R$ 10s custasse a metade do preço. Para ele, dessa maneira “o cervejeiro teria mais margem para investir, crescer, gerar emprego e mais arrecadação e aumentar mais rapidamente a fatia das artesanais no mercado. Em vez de 0,7%, caminharia para ser como nos EUA, onde passa de 13%.”

O Sebrae como um aliado

Quando os novos cervejeiros começaram a empreender, alguns buscaram apoio dentro do Sebrae, através do projeto de Gastronomia. Com diferentes demandas para atender e o grupo cada vez maior, o Sebrae decidiu criar um projeto próprio para o mercado de artesanais. Em 2014, seguindo o que foi feito pelo Sebrae de Minas Gerais, teve início o Projeto de Apoio às Microcervejarias Artesanais do RS, com objetivo de estimular a profissionalização da gestão e o associativismo nas pequenas cervejarias artesanais gaúchas.

Um ano depois, já são 44 microcervejarias artesanais espalhadas por todo o Estado que integram o projeto, que existe também no Rio de Janeiro. Segundo Francine Danigno, coordenadora do projeto, a parceria, que inclui apoio na realizações de festivais como os de Santa Cruz do Sul e Feliz, tem rendido frutos. “O crescimento [do mercado] é contínuo, isso se dá pela qualidade e pelos diferentes sabores que temos no mercado gaúcho. As pessoas precisavam de opções e temos hoje excelentes opções no mercado”, explica.

Ainda que não faça parte do núcleo do Sebrae, a Perro Libre, criada em 2013, marca presença nos festivais e aprova o contato direto com o público. “Participamos quase todo fim de semana. É sempre muito bom como marca, porque estamos diretamente com o público, criando conexões, explicando sobre nossas cervejas e passando nossos valores”, conta Thiago Galbeno, idealizador da cervejaria. Como todas as pioneiras no mercado, a Perro encontra problemas com logística, além da tributação citada por Altair. “É realmente insana”, comenta ele.

Equipe que produz a cerveja Perro Libre/ Foto: Divulgação/Perro Libre

Equipe que produz a cerveja Perro Libre / Foto: Arquivo pessoal, Perro Libre

Ainda assim, o futuro é encarado com otimismo, embora demande um salto de qualidade. Para Altair, existe espaço suficiente para todos, mas só sobreviverão os que tiverem talento para produzir cervejas diferenciadas e capacidade de gestão. “É um mercado desafiador e, assim como os cervejeiros, o consumidor está se aprimorando e ficando exigente”, explica. Para Thiago, ainda é um mercado muito novo e há muito para ser aprendido, embora venha evoluindo. “A realidade de hoje, comparada à de dois anos atrás, é inacreditável. Recentemente o Garret Oliver [mestre-cervejeiro norte-americano] esteve por aqui e falou que o Brasil fez em 10 anos o que os Estados Unidos fizeram em 30”, aponta. Sem dúvidas, parece bem otimista.


 

Tupiniquim: da cozinha de casa para o mundo

O que começou em 2006, com cerveja feita em casa, hoje é uma das cervejarias mais conceituadas do Estado. Em um ano, a Tupiniquim colecionou mais de 50 premiações, sendo exportada para todo o globo. A produção hoje fica na média de 70 mil litros por mês, distribuídos em mais de 40 rótulos. Entre um gole e outro de cerveja, a Beta Redação conversou com Christian Bonotto, formado em Ciência da Computação e um dos idealizadores da marca, na fábrica da Tupiniquim, no bairro Anchieta, em Porto Alegre.

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Formado em Ciência da Computação, Christian Bonotto abandonou o antigo emprego e decidiu apostar na cerveja / Foto: Pedro de Brito

Apostando na ideia – “Somos em cinco sócios. A gente começou fazendo cerveja em casa, em 2006. Montamos uma importadora e, em 2010, o pessoal começou a nos pedir cervejas brasileiras. A gente viu que o mercado estava nessa tendência e aí resolvemos criar a Tupiniquim. Em 2013 fizemos a primeira produção, em Santa Catarina, e em março do ano passado fizemos a primeira produção aqui.”

Tupiniquem? – “A gente queria criar um nome bem brasileiro. Até porque era o conceito que a gente tinha, queríamos criar uma cerveja bem brasileira. Fizemos uma lista de nomes e todo mundo curtiu Tupiniquim.”

Mão na massa – “A gente começa a trabalhar aqui às 4h da manhã, nos dividimos em dois turnos. Fazemos em média 4 mil litros de cerveja por dia, dependendo do dia, e produzimos cerca de 70 mil litros por mês. Filtramos a cerveja, acompanhamos a produção da cerveja. Eu venho todos os dias acompanhar todo o processo.”

Ousadia e inovação – “Estamos sempre tentando inovar, criar e ser ousados, nos diferenciando no mercado com a nossa criatividade. Acho que a gente tem trilhado um bom caminho. Não é fácil, tem surgido muitas cervejas boas por aí no mercado, mas isso é um desafio para a gente melhorar mais. Acho que esse é o nosso diferencial.”

Sebrae – “O Sebrae é um apoiador, um facilitador em vários processos, tanto de gestão, quanto de controle de qualidade e do processo em si. Então é um apoio bem interessante, traz um pessoal qualificado para nos ajudar nas coisas que a gente precisa. E, além da gente ir atrás do Sebrae, o Sebrae vem atrás da gente com sugestões.”

O mercado – “O Brasil teve um boom econômico nesses últimos anos, e isso facilitou que nossas empresas surgissem, que o mercado crescesse. Quem aproveitou esse boom aí, acho que teve uma boa largada. Hoje já está meio difícil: o mercado está meio recessivo, meio estranho. Mas acho que para a cerveja tem mercado. É um mercado em crescimento, é um mercado novo. Foi uma aposta trabalhosa, mas boa.”

A crise – “A crise nos afetou diretamente, principalmente por causa da alta do dólar. Todos os produtos são importados, desde o malte, o lúpulo, o fermento, tudo. E é um mercado um pouco estranho também, o consumidor se segurou um pouco.”

A cerveja brasileira na gringa – “A gente vende para quase todos os estados aqui do Brasil. Exportamos para os EUA, a Europa (Dinamarca, Alemanha, Inglaterra, Slovênia, Espanha), e temos um feedback positivo. É bem legal ver que uma cerveja brasileira tá tendo reconhecimento fora daqui.”

Premiações – “Em um ano tu ser escolhido como a melhor cervejaria do país é sensacional. É sinal de que tá dando certo.”

Texto: Bárbara Müller e Pedro de Brito

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