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ESPECIAL: Esteio luta contra as enchentes

Com histórico de inundações, município deposita esperança em obras da Avenida Brasil e criação de bacias para resolver o problema

 

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Defesa Civil realiza retirada de moradores de áreas alagadas durante a última enchente, em outubro / Foto: Prefeitura de Esteio

Décadas atrás, quando boa parte do que hoje é concreto era mato, novas cidades ainda organizavam seu espaço no mapa de um Estado em crescimento. Em 1955, ano de sua emancipação de São Leopoldo, Esteio era formada por poucas ruas de chão batido e muitos cursos d’água. Na busca pelo crescimento, a cidade acolhia pessoas de diferentes partes do Estado. Terrenos eram negociados, novas moradias surgiam, novos moradores chegavam.

Às margens do Arroio Sapucaia, que fica no limite do município com Canoas, famílias criaram uma verdadeira comunidade. Menos de dez metros separavam as construções das águas. As áreas marginais serviram de chão para novas residências antes da existência de qualquer lei que impedisse uma casa de ser erguida em áreas verdes.

Com o avanço do processo de urbanização de toda a região, o chão batido deu lugar ao asfalto. A área mais baixa da Bacia do Rio dos Sinos (que contempla 32 municípios) recebe a água escoada pelos cursos d’água desde Santo Antônio da Patrulha. O solo, que antes absorvia a chuva, agora a repele.

Sessenta anos depois da emancipação, os arroios de Esteio são mais estreitos e menos limpos. Nos 27,676 km² de área, quase todas as ruas são asfaltadas. De acordo com levantamento do Atlas do Desenvolvimento Urbano do Brasil, a taxa de urbanização do município é de 99,89%. Mais de 80 mil habitantes ocupam a cidade.

Calejados pelas constantes enchentes ao longo dos anos, alguns moradores de Esteio já se preparam para o pior quando a previsão é de muita chuva. Assim como em outros municípios da região, o extravasamento dos cursos d’água coloca em risco diversas famílias. A maior parte, que habita há anos as margens dos arroios, a exemplo daqueles que ficavam a menos de dez metros do Sapucaia, já teve que se erguer do zero em mais de uma ocasião. A vida recomeça assim que a água baixa.

 

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Avenida Brasil, que acompanha o Arroio Sapucaia, deve ligar a Rua Érico Veríssimo à Avenida Presidente Vargas / Imagem: Google Earth

A luta contra as águas

A fim de minimizar os danos, além do constante serviço de limpeza das redes de drenagem – o lixo é um dos principais agentes que contribuem para as inundações – e de desassoreamento dos arroios e demais canais de escoamento através do programa desenvolvido pela Secretaria de Obras, chamado Esteio Superando as Enchentes, a prefeitura busca uma outra solução. Neste ano, deve finalizar a maior parte da Avenida Brasil, obra que iniciou em 2010 e funcionará como um dique. Segundo os dados divulgados pela prefeitura, um total de R$ 19,2 milhões foi destinado à via, investimento recorde no município.

A avenida, de 1,8 km de extensão, acompanha trecho da margem do Arroio Sapucaia, lá mesmo onde muitos moradores haviam fixado residência. De acordo com a prefeitura, 142 famílias foram retiradas de suas moradias em 2013, onde sofriam constantemente com as inundações, e realocadas em loteamento financiado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na ocasião, a mudança foi comemorada por gente que convivia há anos com inundações. “Depois de 24 anos, vou sair de uma casa na beira do Arroio Sapucaia, que enchia de água a cada enchente, e me mudar para um local seguro”, comentou Antônio Pedro Visnieski, hoje com 60 anos.

Como a obra é vista como prioridade desde sua concepção, já que deve solucionar parte do problema das enchentes, o seu atraso não é motivo de orgulho para a prefeitura. Em nota oficial divulgada através do Facebook após a enchente de julho, a prefeitura lembrou que, mesmo que a obra estivesse completa, não seria capaz de conter o grande volume de água (180 mm de precipitação em 36 horas, 50% a mais do que o previsto para todo o mês), embora tenha garantido a segurança dos moradores que costeiam o dique até cerca de 100 mm de chuva.

A via, antes no nível da margem do arroio, foi elevada em mais de um metro, forçando que as águas tenham que subir muito para causar qualquer inundação no trecho. Junto à avenida, estão sendo trabalhadas a construção de uma pequena bacia de amortecimento, que deve represar 14,6 mil m³ de água quando o nível estiver alto, e a correção da entrada do Arroio Guajuviras, que atualmente represa parte da água do Sapucaia devido à força com que entra em Esteio.

As margens estão sendo ampliadas e ainda devem receber revestimento para facilitar o escoamento da água com velocidade. No momento, o que mais atrapalha a conclusão da obra, que contará com ciclovia e um projeto de revitalização da margem do arroio, é o volume de chuvas.

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Via já começou a receber asfalto e deve ser aberta para o trânsito ainda em dezembro. / Foto: Prefeitura de Esteio

Morador da Vila Navegantes, que fica à beira do dique, há mais de 30 anos, Bartolomeu Machado, 60, acompanhou todo o trabalho. Desde o primeiro semestre, segundo ele, a construção foi intensificada, com operários trabalhando até nos finais de semana. Para Bartolomeu, não há dúvida de que a enchente de julho foi a pior dos últimos anos. Ainda assim, mantém a esperança. “Quando a natureza quer agir, não tem o que fazer. Acho que, quando finalizarem, vai melhorar bastante pra gente”, diz.

Com a obra do dique não finalizada, a água entrou em diversas moradias, transformando novamente aquela parte da cidade em uma pequena Veneza em que as gôndolas davam lugar aos barcos da Defesa Civil. O alto volume de chuva, que deixou marcas em todo o Estado, teve como saldo mais de 600 pessoas em abrigos espalhados pela cidade. O Rio dos Sinos alcançou um marco histórico para Esteio, com 3,78 metros.  De acordo com o perfil da prefeitura no Facebook, mais de 3,5 mil pessoas afetadas receberam doações que lotaram o Ginásio Municipal Edgar Piccioni. Além disso, segundo números da Secretaria Municipal de Obras Viárias e Serviços Urbanos (SMOVSU), as equipes de limpeza do município recolheram um total de 4,5 mil m³ de resíduos; o equivalente a 27 vagões da Trensurb.

O tenente Luiz Carlos Terra, que integra a Defesa Civil no município, admite que a situação é diferente no local. “Já atuei em outros lugares antes de vir para cá, mas nunca vi nada assim. Esse lugar aqui [terreno entre os dois arroios, onde hoje está sendo construída a bacia de amortecimento] era tomado de casinhas, eu virava a noite resgatando gente. A correnteza era muito forte, não sei como conseguíamos. É um milagre não ter morrido gente”, comenta.

Com a proximidade da finalização da avenida, que deve ser aberta para o trânsito no final de dezembro, outras ações começaram a ser tomadas pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Semduh). Vinte e cinco famílias foram retiradas das margens do Arroio Esteio na Rua Theodomiro Porto da Fonseca, em trecho que sofria constantemente com as águas. Além de tirar os moradores de situação de risco, a ação, com a derrubada das antigas moradias, permite realizar a ampliação da margem e limpeza do local, onde o Arroio Esteio diminuía a largura de 10 para três metros.

Os antigos moradores foram contemplados com moradias pela prefeitura em área urbanizada afastada do Centro. Depois de 10 anos morando na Theodomiro, Maria Beatriz da Silva, 61 anos, lembra de episódios em que a família teve de ser socorrida de barco. “O meu neto pedia ‘papai, não deixa a gente morrer’. Hoje, a gente ainda não dorme tranquilo porque o trauma é muito grande”, conta. Mas agora, a rotina é diferente. “Aqui só assusta o barulho no telhado”, brinca.

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Loteamento destinado a moradores da Rua Theodomiro Porto da Fonseca, durante período de construção / Foto: Prefeitura de Esteio

 

Redes sociais ajudaram nos salvamentos

Durante as semanas com maior volume de chuva, o Facebook da prefeitura virou ferramenta de movimentação. Através do perfil Gabi Net, responsável pelas relações públicas de Esteio dentro da rede social, moradores enviavam pedidos de socorro, informando o exato local onde pessoas se encontravam isoladas. Através de um grupo de Whatsapp, agentes da prefeitura se mobilizavam com a Defesa Civil. O perfil também foi responsável por manter a população informada sobre a situação do município, como locais onde ainda havia acúmulo de água, abrigos para moradores que perderam as casas e pontos de doação para desabrigados.

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Um dos posts do perfil Gabi Net Esteio atualizando os moradores sobre a situação do município / Imagem: Facebook

Em busca da solução

A solução final, de acordo com o planejamento da prefeitura de Esteio, seria a criação de bacias que reservem parte da água que desce pela bacia dos Sinos. Um projeto que destina 60 hectares de área atrás da sede da Petrobras no município para a construção das bacias já foi apresentado ao governo federal, no final de outubro. Como o valor do investimento é de cerca de R$ 147 milhões, a prefeitura segue aguardando. As obras, complementares à Avenida Brasil, fazem parte de um conjunto de medidas apontadas pelo estudo de 2006 do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, e devem ter a capacidade para reservar 1,3 milhão de m³ de água.

Além da geografia local, que coloca Esteio no caminho das águas, há ações de vizinhos que não foram de grande ajuda. Recentemente, foi visto que a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), que ocupa a margem oposta do Arroio Sapucaia, havia iniciado a construção de um pequeno dique. O muro repeliria a água do arroio em direção a Esteio. A prefeitura de Esteio entrou em ação e conseguiu entrar em acordo com a Refap, que interrompeu a construção. Na divisa com Cachoeirinha, também foi encontrado um muro com cerca de 600 metros de extensão.

Ex-titular da SMOVSU, Francisco Alves acredita que a solução deve ser buscada em conjunto. “É preciso fazer um estudo de maior volume. Os municípios precisam se unir, acabar com ações como essa que vimos na divisa com Cachoeirinha.” Para ele, a real solução passa pelas bacias de contenção. “Tem que ter essa bacia. De preferência, microbacias desde as partes mais altas da bacia dos Sinos.”

Na ocasião da entrega do projeto, o prefeito de Esteio, Gilmar Rinaldi (PT), deixou claro que um problema complexo como o do município exigirá uma solução complexa. “Somente com obras de grande porte poderemos superar as enchentes e nenhum município pode, sozinho, arcar com custos tão elevados”, pontuou, lembrando também que, além de todo o drama para os moradores, as enchentes também afetam a economia da região, já que a área de distribuidoras de combustível também alaga. A obra já teve licença ambiental concedida e inclusive já conta com áreas desapropriadas para a construção das bacias.

Dessa forma, o município busca reverter a situação; diminuir o peso que é receber as águas de toda uma bacia. A luta, além das grandes obras, também passa pela conscientização dos moradores, para que todos, quando ouvem o som da chuva nos telhados, não tenham que se preocupar com nada mais do que a roupa no varal.

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Prefeito Gilmar Rinaldi (PT) entrega projeto de construção das bacias para a presidenta Dilma Rousseff, em encontro realizado em Canoas / Foto: Prefeitura de Esteio

 

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