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Representando 6,4% da população carcerária do Brasil, mulheres nem sempre são autoras dos crimes

Ilustrações: Pablito Aguiar

A entrevistadas desta reportagem nas ilustrações de Pablito Aguiar.

| Não são protagonistas, são participantes| | O sistema falhou | | Recuperação social? | | Desenhos na memória |

Como seria a vida na prisão? Quais perfis fazem parte das celas e galerias das penitenciárias? De que maneira o sistema recupera essas pessoas? Por que elas estão lá? Esses questionamentos começaram a surgir após acompanhar as três temporadas de Orange is the new black, uma das principais produções do Netflix – e uma das séries mais comentadas do momento.

Embora um tanto glamourizada, a série é baseada no livro de Piper Kerman e sua experiência na prisão. A história ocorre em Litchfield, Nova Iorque, Estados Unidos e, ainda que gire em torno da personagem principal, Piper Chapman, temas como abusos morais e sexuais, corrupção do sistema e a maneira como as mulheres se envolvem no crime dão corpo ao enredo.

Há semelhança entre a protagonista e as detentas brasileiras? Assim como Piper, a maior parte da população carcerária feminina (68%) responde por tráfico de drogas. Da mesma maneira, Chapman foi condenada por um crime do qual ela era participante, e não a agente principal do ato. A primeira afirmação corresponde a um dos dados divulgados pelo estudo realizado pelo Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça, apresentando o levantamento feito até o mês de junho do ano passado. A segunda informação vem ao encontro do que foi ouvido no anexo feminino da Penitenciária Modulada de Montenegro do agente penitenciário Jair Fiorin, durante uma visita para acompanhar a vida das apenadas.

O Brasil figura entre os 20 países com maior população prisional feminina do mundo, segundo dados do mesmo estudo. Ocupa a 5ª posição, com 37.380 – ou seja, 6,4% do total da população prisional. A pesquisa mostra ainda que a taxa de aprisionamento é de 18,5 por 100 mil habitantes e que a evolução da quantidade de detentas foi espantosa: entre o ano de 2000 e junho de 2014, o sistema ganhou 31.779 novas apenadas.

Veja no gráfico os gêneros de crimes e a raça, cor e etnia das detentas brasileiras:

De Litchfield para Montenegro, as personagens mudam, e algumas histórias também. No entanto, não há nenhum uniforme laranja. Em uma rara manhã ensolarada do chuvoso mês de outubro, o trajeto até a penitenciária apresentava uma paisagem belíssima. Afastado da cidade, o destino seria antecipado por árvores, animais pastando e pequenas lagoas que as chuvas deixaram. Imagens que algumas personagens desta reportagem não poderiam ver.

Acompanhada pelo ilustrador Pablito Aguiar, a repórter que lhes escreve conta, através de um grupo de detentas, como é a vida real nesta prisão.

Ao ingressar no local, passa-se pela identificação. O ambiente é tranquilo, e o silêncio só é quebrado pelo canto dos pássaros e por algumas conversas em pontos isolados. Chama atenção um catavento no poste. Quem o colocou ali? Por quê justo um catavento aqui? O pátio conta com um jardim que solicita cuidados urgentes e com um espaço que deve receber uma horta em breve. Os tons de rosa nos bancos e no prédio avisam que o espaço é frequentado por mulheres.

Chegando na porta, ouve-se um pouco mais de barulho e um cheiro atrativo vindo da cozinha. Os trabalhos iniciam cedo no local. Mesmo com alguns burburinhos, a tranquilidade é unânime naquele espaço. A supervisora Rosemari dos Santos Ramos dá as boas-vindas, junto a um grupo de mulheres que está reunido na recepção. Quem acompanha a visita é a assistente social Débora Vieira dos Santos Rodrigues, que explica a divisão do espaço.

A visitação inicia pelos blocos, também chamados de contêineres. Quem vem conversar através das grades é Juliana*, a plantão de galeria. Entre os gradis que limitam o espaço carcerário e o pátio onde as apenadas tomam sol não se somam mais de três metros. Enquanto Juliana conta um pouco da sua história no espaço recluso, um pássaro aproveita toda a sua liberdade passeando pelo pátio.

A visita pelas instalações do anexo feminino da Penitenciária Modulada de Montenegro segue pelas galerias B e A, pelas cozinhas, pela sala de atendimento, e termina na biblioteca. Quer dizer, é na biblioteca que esta reportagem ganha mais vozes.

Catavento chama atenção no pátio do anexo/Ilustração: Pablito Aguiar

Catavento chama atenção no pátio do anexo. /Ilustração: Pablito Aguiar

Não são protagonistas, são participantes

Enquanto as agentes da Susepe trazem três apenadas para conversar, Débora conta um pouco sobre o perfil das detentas do anexo feminino. “Muitas delas não são protagonistas dos crimes, são participantes. Estão aqui porque o parceiro ou o filho se envolveram com o crime e elas acabaram se integrando a essa realidade”, comenta.

A conversa inicia pelo relato da rotina e sobre o convívio entre as detentas. “Converso bastante com as meninas e peço para elas terem disciplina, temos que dar exemplo. Somos muito cobradas nesta galeria”, conta a plantão da galeria A, Vanessa*.

Ana* é a próxima a falar. Destacando o bom convívio com as colegas de cela, ela está há 3 meses reclusa. Antes, já havia ficado 1 ano e 3 meses presa aguardando a condenação. “Fui condenada a prestar serviço comunitário, e o Ministério Público recorreu. Agora, fui condenada a 5 anos e 4 meses.” Neste período, Ana pôde sentir a liberdade durante dez meses. Entre idas e vindas da prisão, ela teve seu segundo filho. “Sempre dizia que não saberia o que fazer se tivesse ele na prisão e tivesse que me despedir. Mas é claro que deixá-lo e voltar pra cá foi tão difícil quanto seria me despedir dele aqui. Tive que deixar dois filhos”, conta. Questionada sobre como se mantém informada a respeito das crianças, Ana surpreende com uma história curiosa. “Tenho uma amiga que vem me visitar. Fizemos uma união estável para que ela possa vir me ver duas vezes por semana. Se fosse como amiga, ela poderia vir apenas uma vez por mês.” Sobre a união, a apenada explica que não se trata de um relacionamento amoroso, mas sim de uma grande prova de amizade. “Minha amiga é casada e tem filhos. Fez isso para poder vir me ver com mais frequência”, conta.

No outro canto da biblioteca está Luana*. É ela quem cuida desse espaço. “Uma vez por semana passo com o carrinho pelas celas oferecendo e pegando os livros. O que elas mais gostam são os romances e histórias bíblicas”, conta. Reclusa há 1 ano e 3 meses, Luana reforça que é necessário aprender com os erros cometidos durante o período de reclusão.

Questionadas sobre o que mais sentem falta, a resposta vem de prontidão: família. Vanessa, inclusive, estava ansiosa pela visita do filho no sábado, dia 24 de outubro. A respeito dos planos para quando forem libertadas, as projeções são diferentes. Luana quer começar uma vida nova. Vanessa quer abrir uma loja e se dedicar à família. Já Ana afirma que esta fase da sua vida será apagada e ela irá para casa com seus filhos.

Mais à vontade, quase ao fim da conversa, as moradoras da Galeria A mencionam algumas frases impactantes. “A lei pune mais a mulher”, afirma Luana. “Para mim a cadeia não faz diferença. Aqui não é ruim. Sinto que paguei pela fama dos outros. Acho que na hora que fizemos as coisas erradas não chorávamos, não adianta chorar aqui”, comenta Ana. “Não vou na janela para não ficar olhando para o muro. Não pensamos no mundo”, relata Vanessa.

A conversa já havia se estendido por quase uma hora quando uma agente avisa que precisaríamos adiantar o próximo grupo de apenadas, pois o horário de almoço se aproximava – e também o movimento das detentas no anexo.

O sistema falhou

O segundo grupo de apenadas a chegar na biblioteca são três moradoras da Galeria B. Elas também não utilizam uniformes e estão com as mãos algemadas. Ao contrário do primeiro grupo, elas chegam um pouco menos à vontade. Talvez seja insegurança a respeito de com quem elas conversariam. Ou talvez seja o reflexo da rotina que levam no anexo. A galeria onde elas moram é a que conta com uma maior quantidade de detentas.

A representante da galeria, Milena*, 38 anos, é a primeira a falar. Ao comentar sobre algumas dificuldades de convivência entre as presidiárias, ela afirma que tenta viver da melhor maneira possível. “Busco me fortalecer em Deus. Quero voltar para a sociedade. Já fiz muitas coisas ruins. Fui usuária de drogas e estou pagando por um crime que cometi há dois anos, quando tirei a vida de alguém”, conta, em meio às lágrimas e ao nervosismo.

Raquel*, 19 anos, e Patrícia*, 30 anos, reforçam a dificuldade relatada por Milena. “Conviver com 24 mulheres é um peso”, afirmam. Assim como a representante da galeria, Patrícia também veio de São Paulo. Ex-usuária de drogas, ela relata que vive abaixo de remédios. Por não receber visitas, realiza algumas atividades para as colegas de cela, quando não está trabalhando como cantineira (responsável pela compra e recebimento de materiais ou alimentos para as mulheres de sua galeria junto ao responsável pela cantina, um comerciante com autorização para realizar negociações com a penitenciária).

Milena está na penitenciária há 9 meses, aguardando por sua condenação. Na sua quarta passagem pela prisão, ela afirma que o homicídio que cometeu foi em legítima defesa. Estando anteriormente foragida, ela conta que se entregou para não perder a guarda da filha de um ano e dez meses.

“Estou pagando algo que mereço”, afirma Patrícia, que está presa há um ano e terá de cumprir uma pena de 4 anos e 2 meses. Enquanto contava sobre a sua vida fora da prisão, ela comenta que tem uma filha que faria sete anos no dia 23 de outubro. “Hoje, então”, comentamos. Ao receber essa informação ela responde que “aqui se perde a noção do tempo”.

Por fim, Raquel conta que está no anexo há quatro meses, aguardando a sua sentença. A jovem estava se preparando para realizar a prova do Enem naquele final de semana. Ela pretende cursar Direito.

Sobre a rotina dentro da prisão, as apenadas destacam como “pacata” e “monótona”. Elas pintam as unhas, leem livros e dormem. “A saída para o pátio é muito importante, é um pedacinho da liberdade. Não temos o direito de ir e vir, mas os pensamentos são livres”, comenta Milena.

Patrícia relata que sente falta de ter uma escola dentro do presídio. A assistente social informa que o setor técnico já encaminhou a documentação para implantação de um espaço de educação dentro da penitenciária.

Deste tópico surge o gancho para que as apenadas relatem as consequências das falhas do sistema. Segundo elas, falta estrutura do Estado para atender suas demandas mais básicas, principalmente com relação à educação. Milena comentou que tal estrutura ela encontrou em uma prisão de São Paulo. “A segurança pública deve investir na estrutura da sociedade. Muitas vezes fazemos as coisas erradas por falta dessa estrutura”, argumenta.

Questionadas se a lei realmente punia com mais severidade as mulheres, Milena diz que na sua opinião os homens têm mais benefícios nas prisões. É neste momento que as detentas relatam deficiência no recebimento de itens de higiene pessoal e medicamentos. Débora conta, então, que a Administração Municipal tem ajudado com a medicação e o fornecimento de alimentos.

Chega a hora do almoço e elas devem voltar à rotina. Antes, Patricia pergunta a Débora se há a possibilidade de lhe conseguir um chinelo 38-39. É a vez de o sistema lhe dar algo para calçar enquanto ela cumpre o que deve.

Além do sentimento em comum da falta da família e dos filhos, todas as detentas entrevistadas destacam de forma positiva a sua passagem pela penitenciária de Montenegro. “Aqui não tem celular, uso de drogas, trocar favores. As mulheres até saem mais bonitas daqui”, comenta Elaine. Gabriela também afirma que não é ruim estar ali. Outra afirma que sente como se estivesse sendo, realmente, recuperada.

Antes de a equipe de reportagem ter acesso ao presídio, a agente penitenciária Emilinha Silva Nazário, que trabalha há três anos na Penitenciária de Montenegro, já havia adiantado os aspectos positivos destacados pelas detentas. “Trabalhei em quase todas as cadeias com mulheres. Gosto do anexo. É diferente dos outros. Tu vais ver que o ambiente é diferente. Com poucas detentas [até o dia 23 de outubro, eram 84] tu consegues fazer um bom trabalho”, conta.

Recuperação social?

 

Entre as ações desenvolvidas na Penitenciária de Montenegro estão sessões de filme; serviço de triagem de roupas para a Defesa Civil estadual; apresentações teatrais com estudantes da Universidade Estadual  de Montenegro (UERGS); e trabalhos de apoio com igrejas e entidades pastorais. Também já estão nas projeções da direção da penitenciária a criação de uma horta comunitária e oficinas de patchwork.

A respeito do relato de problemas nos repasses de materiais de higiene pessoal para a Penitenciária de Montenegro, a coordenadora da Assessoria de Direitos Humanos da Susepe, Janice Ribeiro, confirma que houve problemas com o processo de licitação. “Já foi resolvido, inclusive as compras já foram feitas e estamos aguardando o prazo do fornecedor”, explica.

Janice informa ainda que os materiais são oferecidos prioritariamente para mulheres que não recebem visitas e que o pedido desses materiais ocorre a partir da solicitação realizada pelos estabelecimentos prisionais. “Esta assessoria apresentou projeto na VEPMA (Vara de Execução das Penas e Medidas Alternativas) Porto Alegre com a finalidade de obter recurso e ampliar o número desses materiais. Os kits serão adquiridos através deste projeto e contarão com absorventes, papel higiênico, xampu, desodorante e sabonetes”,  relata.

Mas ainda que conte com bons resultados em função de seus projetos, a assistente social do Poder Judiciário e doutoranda pela PUCRS Ana Caroline Montezano Gonsales Jardim afirma que não acredita no mito do bom presídio. “Não acredito que alguma penitenciária será capaz de ser modelo, sobretudo em se tratando das mulheres”, complementa. Ana aborda as especificidades de gêneros nas penitenciárias, afirmando que não são tomadas medidas para atender as mulheres em privação de liberdade. “Muitas vezes alguns estados brasileiros pintam as paredes de uma penitenciária de rosa e acreditam que isso atenderá às demandas das mulheres. Metáforas à parte, para algumas pessoas, se a penitenciária tiver uma unidade materno infantil para que as mulheres possam ficar com suas filhas ou filhos, as especificidades de gênero estarão sendo atendidas”, comenta. Para a pesquisadora, o atendimento às presidiárias recai sobre o estereótipo feminino de maternidade e cuidados.

Ana afirma que não possui conhecimento a respeito do funcionamento e atendimento penal de Montenegro, mas comenta que as pesquisas apontam que as mulheres preferem os presídios mistos àqueles exclusivamente femininos. “Isto porque, na sua grande maioria, as penitenciárias exclusivamente femininas estão localizadas apenas nas regiões metropolitanas, e para algumas pessoas estar em Porto Alegre ou em Guaíba, por exemplo, significa privação do convívio familiar.”

Concluindo, a assistente social relata que, no que se refere ao sistema penitenciário, trabalha-se com complexidades e dinâmicas próprias da prisão. “Por isso não acredito no bom presídio. Advogo em favor da redução de danos, em tentar minimizar os efeitos dessocializadores da prisão. Já conheci vários estabelecimentos, tanto no RS quanto em outros estados, e ainda não encontrei um modelo de bom presídio”, afirma, destacando que a prisão não recupera ninguém. O que ocorre, de acordo com a pesquisadora, é que algumas pessoas conseguem se reorganizar e retornar aos seus contextos de vida com perspectivas que não sejam a do crime.

Estudante de Direito Camila Souza, que é coordenadora estadual do Movimento de Mulheres Olga Benário, afirma que o sistema social é falido, pensado exclusivamente numa lógica capitalista patriarcal que transforma a vida humana em mercadoria.  Camila participou, no fim do mês de outubro, de um evento que debateu a vida carcerária das presidiárias da Casa de Detenção Madre Pelletier.  “Os presídios são pensados para os homens, dentro da lógica masculina patriarcal, e isso afeta diretamente as mulheres que estão na penitenciária: mulheres negras, pobres, periféricas, vítimas de violência. No presídio, essas mulheres sofrem o triplo do que sofrem na sociedade”, garante.

Camila ainda reforça a opinião de Ana ao dizer que o presídio não resolve nada. “A prova de que vivemos em uma sociedade machista patricarcal é que se não estivéssemos nela não precisaríamos de presídios, tendo uma educação, um Estado acessível, que chegue na periferia, que assista as mulheres e a população negra e pessoas em situação de risco”, complementa.

Mas a respeito da afirmação de Elisabete de que a lei é mais punitiva para as mulheres, a advogada criminalista Nirvana Brescovit garante que não há uma severidade quanto à aplicação da pena quando o crime é cometido por uma mulher. “Essa questão deve ser um caso isolado, pois, em presídios, normalmente os presos costumam conversar sobre suas penas e saber por outras pessoas que alguém pegou uma condenação pelo mesmo crime que ela, por exemplo.” Nirvana ainda reforça que a lei não separa o quantum de pena quando a acusada é uma mulher, mas leva em conta as circunstâncias do crime cometido.

No entanto, Camila afirma que a lei é, sim, mais punitiva para as mulheres. “Temos por exemplo questões jurídicas quando há duas leis e há conflito entre elas. Desta forma, é delegado ao juiz tomar a decisão final. A gente sabe que os homens são socializados para serem misóginos e a maior parte do poder judiciário é masculina, então, obviamente vai ser mais duro com as mulheres do que com os homens”, opina.

Como alternativa à longo prazo para amenizar os problemas sociais gerados na detenção de mães de família,  a deputada estadual Miriam Marroni (PT) apresentou em 2011 um projeto de lei que institui a Política Estadual de Direitos Humanos e Assistência a filhos e filhas de apenadas. A proposta deve servir para aliviar a aflição de mães como as apenadas de Montenegro, que relatam preocupação constante com seus filhos.

Entre as diretrizes dessa política estão a identificação e o cadastramento, que deverá ser mantido sob sigilo dos órgãos e servidores, e acompanhamento com intuito de garantir a segurança, saúde, atendimento psicológico, educacional e financeiro necessários às crianças em situação de vulnerabilidade social; qualificação dos servidores públicos para a prestação de atendimento às crianças e adolescentes; e resgate e acolhimento dos filhos e filhas de apenadas em situação de vulnerabilidade social.

De acordo com a assessoria da parlamentar, o projeto está tramitando na Comissão de Serviços e Segurança Pública da Assembleia Legislativa, já tendo sido aprovado pela Comissão de Direitos Humanos. Ainda devem ser incluídas emendas que estão sendo sugeridas pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul, que apoia a iniciativa e está atuando junto à deputada para sua consolidação e aprovação.

Miriam Marroni diz que “o projeto é muito importante por garantir que as crianças e adolescentes tenham a oportunidade de encontrar caminhos diferentes, longe do crime. Esses jovens, que na maioria dos casos ninguém sabe onde estão e que tipo de assistência social estão recebendo, não merecem pagar pelos erros das mães. Precisam, sim, ter acesso a educação, cultura e outros programas que não os coloquem no meio da criminalidade”, refere a autora da matéria.

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Paisagem em frente à Penitenciária de Montenegro/Foto: Francine Malessa

Paisagem em frente à Penitenciária de Montenegro / Foto: Francine Malessa

*Nomes fictícios para preservação das fontes


Desenhos na memória

Meu nome é Pablo Aguiar. Fui convidado a acompanhar a repórter Francine Malessa com a função de ilustrar a matéria para a Beta Redação sobre o ambiente do presídio feminino de Montenegro, Rio Grande do Sul. Fiquei muito feliz com a oportunidade de conhecer essa outra realidade.

Chegando no presídio, eu não sabia onde iríamos ficar. Se eu teria um banco para sentar. Nem mesmo se alguma detenta gostaria de dar uma entrevista para nós. E como ela reagiria quando eu começasse a desenhá-la? Estava cheio de dúvidas e inseguranças.

Quando Francine começou a entrevistar a primeira detenta, eu não estava preparado. Ali, de pé mesmo, a repórter com seu bloco de anotações começou a fazer perguntas entre as grades. Peguei o meu lápis e, um pouco afastado das duas, tentei captar os traços mais fortes daquela mulher: sua boca, seus óculos no cabelo, e as grades que a deixavam ao mesmo tempo perto e longe de nós.

Durou cerca de três minutos a conversa entre as duas. Eu deveria ser rápido. O desenho saiu como um susto. Mas foi importante, pois me ajudou a perder um pouco do nervosismo que estava sentindo ali.

O dia estava apenas começando.

Caminhamos pelo corredor do presídio na companhia da assistente social, em busca de outras mulheres para serem entrevistadas. E, por sugestão de uma policial, combinamos de realizar as entrevistas dentro da biblioteca do presídio. Bom, agora eu e Francine ficaríamos ali sentados esperando as presidiárias que seriam escolhidas para a entrevista. E eu poderia organizar os meus materiais.

As três primeiras entraram pela porta que estava localizada à nossa esquerda. E logo após as primeiras respostas, olhando para os narizes, olhos e cabelos que me circundavam, comecei a fazer os primeiros traços a lápis. Eu desenhava na ordem dos depoimentos. Todas muito simpáticas. No começo um pouco tímidas, entretanto, conforme Francine fazia mais perguntas, mais elas se sentiam à vontade para falar sobre as suas vidas no presídio e a vida que as espera fora dele. Todas com muita saudade da família e principalmente dos filhos que, por enquanto, não estavam vendo crescer.

Eu também queria, além de ilustrar a matéria, fazer um retrato para cada uma delas. Como lembrança. Para que pudessem levar alguma recordação daquela manhã. Resumindo, então: precisava fazer seis desenhos, três para a matéria e um para cada uma das detentas.

Eu desenhava enquanto ouvia as histórias contadas para a repórter Francine. Acho que demorei cinco minutos para fazer cada um dos seis desenhos. E, quando terminei, a repórter já se encaminhava para terminar a entrevista com elas. Estávamos sincronizados.

Senti-me muito bem ali, e isso foi surpreendente para mim. Pois, afinal, eu estava em uma prisão. E essa palavra está envolvida por muito preconceitos. Conhecer, mesmo que superficialmente, a realidade delas, já era uma dose grande de aprendizado. E aos poucos fui construindo a minha própria visão de um presídio. Ver o quanto elas ansiavam estudar para que assim pudessem ter um futuro melhor. Ver que muitas ali estavam somente por causa dos maridos que as envolviam no mundo do crime. Tento imaginar se eu tivesse nascido numa situação parecida com a delas. Onde quase todas as pessoas do meu convívio sobrevivem cometendo crimes. Onde as opções de trabalho e estudo para o pobre são quase nulas. Será que eu teria a força necessária para não sucumbir ao mundo do crime? Nunca vou saber essa resposta. Por isso, não as julgo.

O segundo grupo de apenadas entrou. Eu pego mais folhas e me preparo para desenhá-las. Elas, diferentemente do primeiro grupo, estavam algemadas. Ver as algemas mexeu um pouco comigo. Provavelmente cometeram crimes mais pesados. E, logo de cara, uma das presas disse, entre lágrimas de arrependimento, que estava ali por ter cometido um homicídio em legitima defesa. Entre lágrimas. Esse assassinato deve atormentá-la todas as noites.

Essas mulheres eram mais sérias. Com uma mistura de ódio e desprezo em seus olhares. Tinham muito a reclamar. Sentiam também muita falta dos filhos, da família, e sonhavam também com o dia de liberdade. Queriam estudar, e uma delas, com 19 anos, iria tentar passar no Enem, pois ainda tinha frescas as matérias estudadas no ensino médio.

Correndo, sem tempo para parar, fiz os seis desenhos dessa sessão de perguntas. Três para a matéria e outros três que não foram registrados, pois entreguei a elas. Foi incrível o momento da entrega. Precisei colocar o desenho na mão delas, pois estavam com as algemas. Vê-las sorrir por perceberem seus rostos desenhados em um papel teve um valor incrível para mim. Não consigo descrever.

Foi uma experiência muito importante para mim como ser humano. Agradeço muito ao convite da equipe. Se pudesse desenhar com os meus olhos, teria desenhado todo esse dia. Teria feito retratos dos primeiros policiais que nos atenderam, pedindo nossos documentos; do motorista que nos levou até o local; de todas pessoas que aguardavam pacientemente fora do presídio; dos funcionários que nos receberam com muita simpatia; da paisagem que envolvia o presídio… Cada acontecimento foi diferente para mim, e por isso lembro muito bem de cada detalhe. Mas, infelizmente, isso tudo está desenhado apenas na minha memória.

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