Cultura

CRÍTICA: Escravos de Jô

Novos talk shows ainda tem humoristas na apresentação, mas as entrevistas são deixadas de lado

JO SOARES

Programa do Jô foi encerrado em 2016

Jô Soares mal aposentou seu talk show na TV Globo e todos já estão se perguntando: quem será o novo Jô Soares da televisão brasileira?

Há 16 anos no ar, o Programa do Jô, exibido na Rede Globo, tornou-se praticamente unânime. O atual formato de apresentação e entrevistas de Jô vem desde à época em que estreou seu primeiro talk show, o “Jô Soares  Onze e Meia”, em 1988, no SBT. O Gordo apresentou seu programa na emissora de Silvio Santos até o final de 1999, até se transferir para a Globo e levar sua ideia para o novo canal. No entanto, o tal formato, consagrado por Jô no país, na verdade chama-se Late-night talk show. Importado dos EUA, ele é descrito como um programa de variedades, com entrevistas e shows de humor. Consagradíssimo pelo apresentador americano Johnny Carson, que apresentou o The Tonight Show de 1962 até 1992, a atração americana foi o modelo de programa utilizado por Jô e adaptado para o público brasileiro. Sabendo que há um modelo de programa, qual seria a fórmula mágica encontrada pelas concorrentes da Rede Globo para construírem seus talk shows?

Primeiramente, comece pelo apresentador: Jô Soares sempre foi conhecido por ser um dos melhores humoristas do Brasil. Iniciando a sua carreira, em meados de 1967, no programa Família Trapo, da TV Record, o multifacetado também estrelou programas como Faça Humor, Não Faça Guerra e Satiricom, da TV Globo. Já temos o molde para a figura principal.

Atualmente, os  apresentadores que estão com maior destaque em seus talk shows são humoristas de comédia Stand Up.Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Marcelo Adnet , Fábio Porchat e Tatá Werneck podem ser considerados “escravos de Jô”. Cada um à sua maneira, com seus talk shows, eles vêm de uma “escola” muito semelhante a de Jô Soares.

Algumas diferenças precisam ser ressaltadas na comparação do Programa do Jô com outros talk shows da televisão brasileira. Jô era considerado um dos melhores entrevistadores do Brasil, o que não era atribuído a qualidade de suas perguntas, mas sim à fluência que ele dava às conversas. Nem sempre contando com entrevistados mais famosos ou que estão em alta, o Gordo conseguia falar sobre qualquer coisa com seus entrevistados, justificando sua fama.

Entretanto, os novos talk shows não contam só com entrevistas, mas com jogos, esquetes teatrais, brincadeiras, entre outras coisas. Será que esse plus no formato dos programas de entrevista ocorre pela incapacidade desses humoristas em entrevistar ou pela necessidade de prender o público? Coincidentemente, o único desses humoristas que não está mais no ar é Rafinha Bastos. Volta e meia, o comediante reclama que o que mais o irritava era ter que fazer esse tipo de “brincadeira no meio das entrevistas”.

Essa mudança de formato ocorre por uma mudança dos talk shows fora do Brasil. Referenciados principalmente por Jimmy Fallon, que é o atual apresentador do The Tonight Show, Porchat e Adnet estrearam no ano passado, com grande expectativa por parte da imprensa. No entanto, o Programa do Porchat, na Record, e o Adnight, na Globo, não alcançaram o que se esperava deles. Atualmente, quem está em alta nesse novo formato de talk shows é a humorista Tatá Werneck. Com seu programa Lady Night, no Multishow, ela vem se destacando pela forma que entrevista seus convidados. Com um tom mais leve e uma piada sempre na ponta da língua, Tatá já vem sendo especulada a levar seu seu programa para a TV aberta.

Já Danilo Gentili conseguiu se encontrar. Em seu programa no SBT, o The Noite, ele já tentou bastante coisa. Atualmente, ele faz o popular “arroz com feijão”,  com poucas inserções humorísticas e um foco semelhante ao de Jô nas entrevistas. Não é à toa que ele está há três anos no ar. O talk show que perdura há mais tempo na televisão brasileira com esse formato.

Com o final do Programa do Jô, a rede Globo resolveu dar  uma carta de alforria ao formato e trazer uma sobrevida aos talk shows, fazendo como se diz: “dar um passo para trás para depois dar dois à frente”. Na grade de programação, o Conversa com Bial entrou para substituir o espaço ocupado por Jô durante 16 anos. Nada de humorista na apresentação, nada de graça ou de outra coisa que não seja entrevista. Diferente das tendências americanizadas, como o nome já sugere, Conversa com Bial é um programa bastante simples, mas que tem um entrevistador com muitas experiências vividas, além de grande carga cultural. Até agora, nada de convidados que estejam “na crista da onda” ou grande celebridades. Somente pessoas com história pra contar. Com simplicidade, Pedro Bial comprova que está habilitado para adquirir a liberdade que precisa para ser o sucessor de Jô na Rede Globo.

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