Esporte

Escalada, muito mais que um esporte

A escalada esportiva fará parte dos Jogos Olímpicos de 2020, no Japão. No Rio Grande do Sul há adeptos que fazem da atividade um estilo de vida

Caroline Paiva e Sabrina Stieler

 

 

A sensação é de que os movimentos são fáceis e intuitivos. Mas isso é apenas uma sensação. Uma mão sobe e agarra uma pequena fenda na rocha, uma das pernas ergue-se e acomoda-se em um espaço minúsculo no paredão cinza. Depois, a outra mão e a outra perna vão juntas. Como uma dosagem entre equilíbrio e força, o movimento lembra uma lagartixa subindo uma parede. Mas a cena é protagonizada por escaladores esportivos, que tomam conta das rochas da cachoeira do Parque Salto Ventoso, em Farroupilha, que fica a 111 km de Porto Alegre, cerca de uma hora e meia de carro. Mesmo o dia estar cinzento e chuvoso, não afastou os aventureiros que aproveitaram o sábado para fazerem sua atividade preferida: a escalada.

Em agosto, o Comitê Olímpico Internacional (COI) incluiu cinco novos esportes para a competição de 2020, em Tóquio, no Japão, entre eles a escalada esportiva. O esporte ainda não é muito popular, mas vem ganhando cada vez mais adeptos no Rio Grande do Sul. Segundo o presidente da Associação Gaúcha de Montanhismo (AGM), Rafael Caon, a novidade ajudará na divulgação da modalidade. “Nossa expectativa é de que o esporte obtenha uma maior visibilidade, principalmente no Brasil, onde o montanhismo não tem tanta tradição e não é um esporte tão popular”, opina. Além disso, Rafael acredita que dessa forma o esporte possa ter mais investimentos públicos e privados, com isso, as entidades representativas, como confederações, federações e associações possam melhorar suas estruturas, ampliar os quadros sociais e crescer de forma organizada e ecologicamente correta.

 

 

Segundo o vice-presidente da Associação Brasileira de Escalada Esportiva (ABEE), Raphael Nishimura, a entidade já vinha promovendo competições no Brasil desde 2014. “Procuramos seguir ao máximo as regras da Federação Internacional de Escalada [International Federation of Sport Climbing] , para que os atletas possam estar familiarizados nas competições internacionais”, afirma. A escalada esportiva que entrará nas Olimpíadas, é diferente daquela praticada nas rochas, como na cena de Salto Ventoso. Os atletas escalam em paredes artificiais, a chamada escalada indoor. Nos Jogos, os atletas terão que competir em três modalidades, como explica Raphael. “A escalada esportiva é uma modalidade dentro do universo da escalada. Nas Olimpíadas teremos três modalidades de competição: velocidade (speed), dificuldade (lead) e o boulder. Nas Olimpíadas será feita uma somatória dessas três modalidades, portanto o campeão terá que escalar muito bem elas”, explica. Raphael entende bem de competições: ele é vice-campeão mundial de para-escalada, campeão brasileiro de para-escalada e foi considerado o atleta do ano em 2012 pela Revista Go Outside. O para-atleta já fez a façanha de escalar o Pão de Açúcar (RJ) – confira na entrevista ao final da matéria.

 
Promessas para 2020

Na capital gaúcha, uma jovem, bem menos experiente, mas promissora, sonha com a possibilidade de representar o Brasil na competição. Amanda Criscuoli, de apenas 10 anos, já venceu alguns campeonatos e coleciona lugares no país e no exterior, onde já escalou. A menina magra de cabelos longos distribui sorriso contando sobre sua brincadeira preferida. “Eu comecei quando era bebê, com três meses eu já acompanhava meus pais. Comecei brincando e, com seis anos iniciei o treino em parede”, conta. Para a AGM, a pequena Amanda é uma promessa de destaque no cenário gaúcho, e tem chances de representar o Brasil em 2020.

 

Amanda Criscuoli fala sobre treinos na escalada. Foto: Beta Redação

Amanda Criscuoli escala desde os seis anos de idade. Foto: Beta Redação

 

Outro nome que é lembrado pela associação é o de Bruno Milani, de 24 anos. Com habilidade e rapidez, Milani iniciou na escalada pelas paredes artificiais, quando tinha 13 anos, e só depois se aventurou nos paredões rochosos. Milani também carrega algumas vitórias em sua bagagem e, participou do Mundial de Escalada Esportiva na Escócia, em 2010. Sobre as Olimpíadas, Milani é realista. “Não sei se vou ter idade até lá, pois tem muita gente jovem e boa. O esporte está evoluindo para um pico de rendimento muito forte, mas vou tentar ao máximo. Ficarei bem feliz”, comenta.

 

Bruno Milani em competição. Foto: Arquivo Pessoal Facebook

Bruno Milani em competição. Foto: Arquivo Pessoal Facebook

 

Escalada e natureza

Paredes irregulares e cheias de agarras de resina, formam uma espécie de obra de arte que compõe o visual da academia de escalada Sherpa, em Porto Alegre. Ali, se reúnem escaladores experientes e curiosos que vão em busca do clima animado do lugar e da oportunidade de poder escalar. Paulo Menezes Menezes, 45 anos, escala há mais de 15 e leva a atividade como hobby e também como profissão. Paulo trabalha para a Sherpa, que atua no ramo de alpinismo industrial e realiza trabalhos de difícil acesso. Mas para ele, a escalada faz parte de um estilo de vida e deve ser realizada ao ar livre. “O montanhismo tem a ver com a natureza. É uma atividade que conecta a gente ao ambiente. Quando tu escala é tu e a rocha”, opina. O montanhismo que Paulo se refere é uma atividade que engloba também as técnicas de escalada, mas vai além: são atividades que perpassam cuidados e interação com as montanhas, que podem ser de uma trilha ou o próprio alpinismo, por exemplo. Paulo é proprietário do Refugiosonho Do Montanhista Menezesepinheiro, em Tabaí, a 80 km de Porto Alegre, onde fica o monte Yeyê, local de encontro de escaladores e aventureiros.

 

 

Monte Yeyê, Tabaí. Foto: Refugiosonho Do Montanhista Menezesepinheiro/Facebook

Monte Yeyê, Tabaí. Foto: Refugiosonho Do Montanhista Menezesepinheiro/Facebook

 

O engenheiro mecânico, Cristiano Fell, 30 anos, que escala desde 2004, também concorda com Paulo. Para ele, o montanhismo aproxima o ser humano da natureza e desafia-o à superação. “A gente organiza saídas para escalar e sempre acaba conhecendo lugares lindos. A relação com outros escaladores também quase sempre acaba virando amizade, trocamos informação de técnicas e locais para escalar. Aprendemos a superar nossos limites”, ressalta.

 

O que vem depois de Tóquio

Para o presidente da AGM, Rafael Caon, os desafios são grandes. “Temos esperança de que esta demonstração olímpica no Japão seja apenas uma apresentação ao mundo do que é a escalada. Que ela possa encantar e emocionar o público e assim se perpetue como esporte olímpico”, comenta. Raphael Nishimura, vice presidente da ABEE, relata que a empolgação em ver a escalada tornar-se um esporte olímpico foi geral. “Estávamos colaborando com a federação internacional de escalada para promover o esporte e tínhamos forte esperança que neste último anúncio a escalada seria incluída”, acrescenta.

 

Entrevista com o para-atleta e vice-presidente da ABEE, Raphael Nishimura

Raphael Nishimura, 35 anos, é um para-atleta praticante da escalada desde 2007. Portador de Distonia Muscular, fundou em 2011 o projeto Paraclimbing Brasil, que visa divulgar e incluir pessoas com deficiência física na escalada esportiva.

O atleta, que é também profissional da área da Tecnologia da Informação, convive com a deficiência desde os oito anos, mas já foi campeão brasileiro de para-escalada, vice campeão mundial de para-escalada, e eleito atleta do ano pela Revista Go Outside, em 2012.

 

 

Beta Redação: Como foi a receptividade pelos atletas de escalada sobre a entrada do esporte nas Olimpíadas de 2020?

Raphael Nishimura: A comunidade festejou muito o anúncio com a inclusão da escalada nas Olimpíadas. Há alguns anos a federação internacional de escalada tentava essa inclusão. Agora estão todos muito empolgados para 2020 e para saber se teremos um brasileiro nos representando.

BR: Como foi escalar o Pão de Açúcar? Ele foi o local mais difícil que já escalou?

RN: Foi muito incrível, era um sonho escalar o Pão de Açúcar. Desde 2008 eu queria escalar lá. Quando eu cheguei lá em cima fiquei muito emocionado. Foi uma escalada bem difícil, com um trilha de 40 minutos subindo até a base da pedra. A escalada durou cerca de cinco horas. A primeira hora foi bem difícil, pois não estava acostumado com o tipo de pedra e escalada do Rio de Janeiro, mas a melhor parte é que o tempo estava nublado e assim o sol não castigou muito.

BR: Quais os maiores desafios que enfrenta dentro da escalada?

RN: Hoje o maior desafio está fora da escalada: conciliar trabalho, treinos, viagens, campeonatos, família e, ainda, trabalhar voluntariamente na ABEE. Mas, com muita paixão pelo esporte, consigo encaixar tudo no meu dia a dia.

BR: De que forma a escalada ajuda na manutenção da saúde física?

RN: O esporte em si é fundamental para mais qualidade de vida. A escalada me proporciona trabalhar todo o corpo e ajuda muito na parte mental também. Existe um forte trabalho físico e mental para que a escalada flua bem. No meu caso, a escalada ajudou como se fosse uma fisioterapia, aliado a uma boa alimentação, o que melhorou até mesmo no sono.

BR: Acreditas que há incentivos suficientes para para-atletas?

RN: Infelizmente não há incentivo financeiro no esporte, eu só tenho apoio de empresas que me fornecem material esportivo.

 

Confira outros locais para escalada no Rio Grande do Sul:

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Comentários

2 comentários sobre “Escalada, muito mais que um esporte”

  1. Bruno disse:

    Gostaria de parabenizar Beta Redação pela matéria muito bem construída.

    Parabéns pelo trabalho é muito obrigado por essa divulgação do esporte!

    1. Caroline Paiva disse:

      Nós que agradecemos! 🙂

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