Economia

A incômoda equação da greve nos bancos

Enquanto permanece o impasse entre bancários e banqueiros, população sente os transtornos da paralisação

Greve se prolonga há 15 dias/Foto: Francine Malessa

Greve já se prolonga há 15 dias/Foto: Francine Malessa

De um lado estão funcionários defendendo a sua pauta com mais de 200 itens de reivindicações. De outro estão os cidadãos que ficam reféns dos serviços mínimos das agências bancárias. Entre eles, estão os banqueiros, boa parte com os lucros em alta.

Esse quadro de greve segue assim desde o dia 6 de outubro em todo o Estado. Na região dos municípios de Novo Hamburgo, Estância Velha, Ivoti, Dois Irmãos, Campo Bom e Sapiranga, são 48 agências fechadas. “Não há previsão de término da greve”, afirma o tesoureiro do Sindicato dos Bancários e Financiários de Novo Hamburgo, Joey de Farias. A explicação para o prolongamento da situação é que em anos anteriores havia negociação principalmente com relação ao reajuste salarial. “Este ano estamos pedindo os 9% da inflação e os banqueiros ofertaram 5,5%. A nossa leitura é que essa greve vai longe”, argumenta Farias.

Além do reajuste e da aplicação do piso para categoria com base no valor apresentado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a pauta conta ainda com a regulamentação de participações nos lucros, manutenção dos empregos, quadro de funcionários concursados nos bancos públicos e fim do assédio moral na cobrança abusiva de metas. “Há uma pressão muito grande para se cumprir as metas e, quando o funcionário atinge, elas aumentam ainda mais. Impossível não existir assédio moral e esse tipo de coisa acaba afetando a saúde. Junto com os professores, somos uma das principais categorias com maior índice de benefícios do INSS [afastamento do trabalho por motivos de saúde]”, relata Farias.

O tratamento de gênero também está entre as reivindicações da categoria. De acordo com a bancária Marilane Mônica de Souza, as mulheres recebem 28% a menos do que os homens. Isso faz com que muitas agências optem por um quadro mais feminino. “Para subir, há muito mais exigência do que homens, e não somos valorizadas. Isso ainda se soma à pressão para atingir metas  e à carga horária fora do banco, com as responsabilidades pessoais como tarefas do lar e filhos. A mulher se cobra muito e isso acaba prejudicando a sua saúde”, comenta a bancária.

Pagamentos atrasados e saques indisponíveis

Enquanto os bancários buscam seus direitos, a população enfrenta dificuldades com o fechamento de agências e redução de serviços ofertados. “Estou com a parcela do meu financiamento habitacional atrasado, e já me ligaram cobrando. Fui pagar e não consegui. Tenho que retirar o boleto dentro da agência para pagar, pois o que emite no site não é aceito”, relata a autônoma Vanessa Bervig. Fora o problema para pagar os seus compromissos, ela conta que ainda está com um cheque de um cliente, devolvido por estar sem fundo, que também não consegue resgatar para receber.

Ao entrar em contato com a central da Caixa Federal, Vanessa diz que também não conseguiu ser atendida. “Além de não resolverem, eu perguntava ‘então você está me dizendo que eu não posso pagar?’ e a menina respondia ‘posso ajudar em mais alguma coisa?’”.

Empresas também estão enfrentando dificuldades. Conforme a assistente administrativa Morgana Dias de Sá, inclusive os saques para pagamentos de funcionários estão sendo afetados. “Não podemos sacar dinheiro, não podemos pagar boletos de mais de R$ 700 na lotérica”, conta. Morgana informa ainda que recebeu um cheque e não sabe como fazer para trocar. “Vou ter que depositar e esperar compensar”.

Negociações seguem

Questionado se os grevistas se preocupam com as consequências da paralisação, Farias garantiu que o assunto também é levado em conta pelos sindicalistas e bancários. “Não tem como não se preocupar com isso. Invariavelmente, nós mesmos temos dificuldades com as nossas famílias. Isso é um conflito natural de greve. Enquanto isso, o banqueiro lucra milhões e não se preocupa”, declara.

Em nota publicada no portal da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), no dia 6 de outubro, a respeito da proposta salarial apresentada aos bancários, a entidade afirma que tem com as lideranças sindicais uma prática de negociação pautada pelo diálogo. “A proposta econômica já apresentada às lideranças sindicais prevê a participação nos lucros dos bancos, de acordo com uma fórmula que, aplicada, por exemplo, ao salário-piso de um caixa bancário, de R$ 2.560, pode garantir até o equivalente a quatro salários”, diz trecho do documento. Ao final da nota, a entidade informa que existe a avaliação de cláusulas não econômicas, que vem se desenvolvendo de maneira positiva. A Febraban reiterou que segue aberta para negociações.

Na terça-feira (20), bancários grevistas e representantes da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) se reuniram em São Paulo para tentar negociar o fim da greve, que acabou não ocorrendo. As agências seguem fechadas, os grevistas na busca pelos seus direitos e a população prejudicada. E os banqueiros? Seguem com lucros em alta. De acordo com o G1, a soma das quatro principais redes (Bradesco, Santander, Itaú e Banco do Brasil) representou um acréscimo de 40% em comparação ao primeiro semestre do ano passado.

 

Lida 581 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.