Cultura

Rappers falam da cena independente de São Leopoldo

Tiex e Nic Kimba, da Dfatus, e Vela, do Karmalion, conversam com a Beta Redação sobre influências, evolução e preconceito

20161006_160852

Tiex e Nic Kimba, rappers do Grupo Dfatus, fazem rap em meio à cidade: no Palquinho atrás da Estação de trem São Leopoldo. Foto: Rafael Erthal/ Beta Redação

 

Em uma sexta-feira à tarde, na Estação São Leopoldo, olhar para o lado e assistir a uma roda de rap é um tanto quanto interessante. Estavam lá Bruno Teixeira, 20, e Nicolas Silva, 20, mais conhecidos como Tiex e Nic Kimba, que atuam como rappers de forma independente e integram o Grupo Dfatus, formado por eles e mais dois amigos: Mada (Jonathan Madalena) e JW (João Wesley). Com apoio do estúdio Gold Line Rec, o grupo lançou alguns singles no Youtube, como Baia Roxa e Elemento Surpresa. Diego Roveda, 24, conhecido como Vela, também atua nas ruas e faz parte do grupo Karmalion, composto por ele e pelo amigo Gabriel Bilha. O artista desenvolve seu trabalho, na maioria das vezes, na estação de trem, em São Leopoldo. Muitos cantores fazem suas rimas em parceria, geralmente no evento Batalha São Hell, que reúne diversos rappers de São Leopoldo e região e acontece uma vez por mês em um lugar comum aos artistas independentes da cena: o “Palquinho”, atrás da estação de trem São Leopoldo.

 

20161006_162013

Vela, integrante do grupo de rap Karmalion, no Palquinho, atrás da Estação de trem São Leopoldo. Foto: Rafael Erthal/ Beta Redação

 

A Beta Redação uniu três representantes da cena do rap independente de São Leopoldo para uma conversa sobre as dificuldades da profissão e o amor pela música. O resultado você pode conferir abaixo:

Beta Redação: Vocês já iniciaram no ramo musical fazendo rap?

Vela: O rap apareceu um pouco mais tarde na minha vida. Meu primeiro contato com a música foi tocando violão. Depois participei de uma banda de rock, que foi o primeiro estilo musical que eu apreciei.

Nic: Iniciamos juntos (ele e Tiex), diretamente no rap. Nós já escutávamos bastante, e com o passar do tempo fomos se aproximando da galera que fazia nas ruas, em São Léo. Gostamos e estamos na luta até hoje.

Beta Redação: Quando vocês começaram esse projeto no mundo do rap?

Tiex: No início de 2016, em janeiro, iniciamos o primeiro projeto, que se chama Elemento Surpresa. Esse foi nosso primeiro single, e a partir daí foram surgindo novas ideias e projetos até mesmo com outros grupos de rap da região.

Nic: Desde o início nunca tivemos apoiadores. Nós mesmos organizamos os eventos, geralmente no Palquinho atrás da Estação São Léo, para divulgar nossas músicas.

Beta Redação: Como você aprendeu a rimar e como foi o processo de evolução?

Nic: Nas ruas mesmo. No início foi difícil o processo para aprender a rimar. Aos poucos fui pegando o jeito e ganhando espaços nas rodas de rap. Eu melhorei bastante, e foi rápido. Já lançamos alguns singles e formamos o grupo em apenas seis meses. Basicamente todos os rappers iniciam da mesma forma, improvisando nas ruas.

Beta Redação: O que te influenciou a ser um rapper?

Vela: Eu iniciei no rock, e a composição das músicas é diferente. No rap, encontrei mais liberdade de expressão, além de curtir bastante esse estilo musical. Encontrei novos horizontes e simpatizei bastante com esse cenário.

Beta Redação: Quais são os temas abordados nas suas músicas?

Nic: Tentamos sair dos assuntos que a maioria fala atualmente. O rap é conhecido por sempre falar de política e pelo papel de fazer críticas à sociedade, e esses assuntos são muito clichês. Nossa intenção é focar mais na liberdade de expressão. É uma vontade nossa e um caminho para não tratar do que os outros já falam.

Vela: Eu trabalho compondo na ideia da fantasia. Escrevo sobre meus sonhos e ambições com o que eu posso alcançar a partir da música.

Beta Redação: Você já pensou em desistir da carreira?

Tiex: Todos os dias (brinca). É muito difícil a persistência nessa carreira. Não é tarefa fácil viver de arte no Brasil, pela falta de incentivo à cultura. Dependemos de uns aos outros para praticamente tudo.

Beta Redação: Quem são suas referências na música?

Vela: Minha maior referência é o rap nacional, como Marechal, Síntese, e até mesmo grupos gaúchos, como Fresno, saindo um pouco do rap. Cartola e Cazuza são artistas consagrados que escuto às vezes.

Nic: Escutamos de tudo. Rap é o que mais escutamos, obviamente, mas também curtimos um pouco de rock, reggae, inclusive Green Day, Linkin Park e Bob Marley. Escutamos desde sons mais pesados aos mais leves.

Beta Redação: O rap brasileiro tem uma grande influência do rap norte-americano?

Tiex: Totalmente. O rap nacional importa muitas coisas dos Estados Unidos. Lá eles já têm uma indústria para isso, enquanto aqui no Brasil, mais precisamente no Sul, esse processo é bem lento. Aqui no país a indústria fica focada mais no eixo Rio-São Paulo, não só no rap, mas na maioria dos gêneros musicais.

Beta Redação: Até que ponto vai o preconceito da sociedade com o rap?

Nic: O preconceito é descarado. Nem tanto com o rap em si, e sim com quem faz o rap. A maioria das pessoas não gosta dessa gurizada que fica até tarde na rua, fumando e tudo mais. Esse não é o padrão imposto pela sociedade. O rap serve para dizer o que está e o que não está errado.

 

Lida 2361 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.