Cultura

Produtora se destaca com obras de temática homoafetiva

MACA Entretenimento, do Rio de Janeiro, trouxe a Porto Alegre “Enquanto todos dormem”, peça que apresenta um romance gay entre militares

Peça "Enquanto todos dormem" apresenta relacionamento homoafetivo. Foto: Divulgação

Peça “Enquanto todos dormem” apresenta relacionamento homoafetivo. Foto: MACA Entretenimento, Divulgação

 

Com quase dois anos de atividade, a MACA Entretenimento, do Rio de Janeiro, já conta com várias peças teatrais e três curta-metragens, e no final deste ano lança seu primeiro longa-metragem. A produtora surgiu com a parceria entre o roteirista e ator Thiago Cazado e o diretor de fotografia Mauro Carvalho. Os dois, que eram amigos de muitos anos, começaram a produzir peças e filmes de maneira independente. “Ainda não temos nenhum patrocínio ou apoio, produzimos com o capital que conseguimos juntar com bilheteria, venda de produtos”, comenta Cazado.

Tendo como foco a temática homoafetiva, os trabalhos da produtora estão ganhando destaque nacional através do YouTube e também de peças teatrais. O curta-metragem Tenho local foi selecionado para o 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo. O evento tem como objetivo promover o respeito e a livre expressão da diversidade sexual, buscando novas perspectivas para a compreensão da comunidade LGBT. “Estamos muito felizes por participar do principal festival LGBT do país”, destaca Thiago.

 

 

Sobre atuar de maneira independente, Cazado diz que é uma forma muito limitada de recursos, exigindo mais criatividade, tendo que achar outras soluções e trabalhando com um pouco de tudo. “Esse é o ponto bom, de você estar envolvido em todas as partes e encontrando soluções muito legais para as coisas, justamente por causa do limite”, relata.

“Eu particularmente acho muito bom quando você tem uma independência muito grande. Se eu pudesse crescer nessa linha, de não precisar de muito dinheiro de estatal e nada, é um caminho muito bacana, pois a liberdade é total”, conta Cazado.

Além das produções fílmicas, a produtora trabalha com peças de teatro. O espetáculo Enquanto todos dormem percorreu várias capitais do país e esteve, recentemente, em Porto Alegre. A peça mostra a história de Luíz e Pedro, dois jovens recrutas do Exército que foram convocados para um treinamento especial no período pré-Segunda Guerra Mundial. Em meio ao treinamento, eles desenvolvem uma amizade peculiar e vivem aventuras escondidas dos demais recrutas.

 

Luíz desperta a curiosidade de Pedro na peça "Enquanto todos dormem". Foto: Divulgação

Luíz desperta a curiosidade de Pedro na peça Enquanto todos dormem. Foto: MACA, Divulgação

 

A Beta Redação esteve na peça Enquanto todos dormem e conversou com os atores Thiago Cazado, que também é o roteirista do espetáculo, e Renan Mendez. Confira:

Beta Redação: Como surgiu a ideia da peça?

Thiago Cazado – Eu gosto muito desse tema. É o tema que eu gosto de assistir filmes, tudo. Então, faço o que eu gostaria de ver. Muitas das histórias que crio passeiam por esse universo. Não todas, essa é minha 11ª peça. E, das 11 que escrevi, essa é só a segunda em que trato o tema. A gente tem trabalho com cinema também. E no cinema sim, todos os trabalhos foram relacionados ao tema LGBT. Temos três curta-metragens.

Beta Redação: Sim, vimos no canal de vocês no YouTube. Assistimos ao curta Tenho local.

Thiago Cazado – Assistiram, é? Às vezes as pessoas falam “Fiquei com raiva de você”. E outros: “Mais um curta preconceituoso onde o mundo gay é retratado só dessa maneira”. Daí chega no meio do filme e… Fico torcendo para que as pessoas cheguem até o meio do filme para que vejam que não, não é só isso, sabe. E daí as pessoas adoram.

Beta Redação: O público de vocês é mais LGBT ou é variado?

Thiago Cazado – Por conta de a história ser um romance entre dois rapazes, acaba que a maioria do público é LGBT. Mas hoje tem muita gente que é diversificada também. É um público que gosta de teatro, de cultura… Muitos héteros, né?

Renan Mendez – Muitos. Vêm casais, pessoas mais velhas, inclusive idosos, e militares também.

Thiago Cazado – Inclusive, na última apresentação veio um militar e perguntou se tínhamos feito alguma pesquisa de como é a vida militar. E eu falei que não, mas conversei com pessoas que serviram. Ele já foi (aponta para Renan).

Renan Mendez – Sim, durante aquele período de serviço militar obrigatório. Fiquei pouco tempo, mas já percebia o tratamento (que gays recebiam). Tinha até apelido, eles chamam de “Paulinho”. Alguns militares até nos rechaçaram no Facebook.

Thiago Cazado – A gente recebe alguns ataques no Facebook.

Beta Redação: E por que fazer a história com dois militares?

Thiago Cazado –  Assim, as ideias dos roteiros que eu escrevo sempre vêm e eu não sei muito bem de onde. Quando vem, eu avalio se a ideia rende. Eu me lembro que estava conversando com o Mauro (sócio da MACA), tinha acabado de fazer o Tenho local, e falei “Caramba, como deve ser louco você ser gay dentro do Exército num período onde tu só vê homem, homem, homem. De repente você pode desenvolver um afeto por alguém e deve ser difícil viver ali enclausurado, convivendo sempre”. E então eu comecei a pensar que isso dava um conflito muito bom, imagina. E daí fui temperando isso. Até isso virar uma peça deveria ter muita coisa. Então fui avaliando, e isso começou a me inspirar. E falei “Poxa, imagina isso num período pré-Segunda Guerra Mundial”. Tipo, a guerra é justamente o oposto do amor, então temos um contraste muito grande aí. Imagina o que seria o amor entre dois homens? Como a gente vive em uma sociedade que não aceita isso plenamente, tem melhorado, mas não plenamente, dois homens aceitarem viver uma história de amor verdadeira é uma das maiores provas de que o amor existe. E a guerra é justamente o oposto disso. E pensei que valia a pena desenvolver isso.

Beta Redação: E como são as personalidades do Luíz e do Pedro?

Thiago Cazado – Eu interpreto o Luíz. O Luíz é totalmente aventureiro. Ele é questionador, é à frente do tempo dele, ousado. Tem um pensamento dele, não é muito o convencional. E é um cara muito livre, nada para ele. Ele tem as vontades e os pensamentos dele, não se baseia na cabeça de ninguém. É um cara sedutor. E eles (Luíz e Pedro) desenvolvem uma amizade. E o Luíz mostra para o Pedro, que é um personagem totalmente o oposto, um mundo de adrenalina, de pensar. Ainda mais naquele tempo, em 1938, quando se libertar era muito mais difícil. Hoje em dia a gente tem muito mais visibilidade, não é maravilhoso, você não pode andar de mãos dadas com seu namorado em qualquer lugar, existe isso. Eu gostaria de poder andar com meu namorado por qualquer lugar, mas não dá. Naquela época era muito mais difícil ter uma relação. Então ele (Luíz), que tem uma liberdade muito grande, mostra isso para o Pedro. Luíz abre um mundo que Pedro não conhecia e ele se encanta por isso. Já o Pedro…

Renan Mendez – É aquela típica história, parece até clichê, mas serve muito para ilustrar: a história da pessoa do interior que vem para a capital e se apaixona. O Pedro é do interior, de uma família tradicional, então ele tem alguns parâmetros da vida dele. Está na guerra porque o pai o obrigou a ir. Então o fato de se aproximar assim de uma pessoa o surpreende, tanto quanto a própria guerra. Talvez a guerra nem seja a preocupação dele. Ele está ali para agradar a família, para completar o ciclo familiar. Por ser do interior, é muito tímido, desconfiado, mas o Luíz vai mostrando para ele, passo a passo, com o que eles vivem, que o mundo é muito mais aberto do que o pobre Pedro imaginava que seria. Ele se liberta de uma maneira que o deixa feliz no fim de tudo. Mas sempre com muito receio, pois nós temos um conflito para resolver dentro da peça, que são os medos do Pedro sobre o que as outras pessoas vão achar. E isso mexe com ele, faz com que volte a se enclausurar, mas ele está querendo (aceitar seus sentimentos por Luíz). Ele não sabe ainda, mas está querendo. Vai se libertando aos poucos, mas não só em relação a esse sentimento. O Luíz abre as portas para a vida. Depois da guerra ele poderia ter voltado para casa e viver como lavrador, mas de repente isso abriu as portas da vida para o Pedro e fez com que ele mergulhasse de cabeça. Abandonando os medos, abandonando as impressões que os outros iam ter sobre o que ele ia fazer.

Beta Redação: Vimos que vocês dão descontos de 50% para quem apresentar o post do Facebook na hora de comprar o ingresso. Vocês fizeram isso só aqui em Porto Alegre ou estão fazendo no resto do país também?

Thiago Cazado – Sim, em todas as capitais.

Renan Mendez – Tem muita gente que ainda pensa assim “Ah, eu não tenho carteirinha de estudante”, e o desconto é realmente para quem é estudante, tem muita gente que tem carteirinha de estudante e não é estudante, mas aqueles que não têm pensam: “Não tenho carteirinha e não consigo pagar o ingresso cheio”. Assim, ele já tem um incentivo para poder vir nos assistir. Lógico que não achamos ruim aqueles que pagam a inteira (risos), mas a promoção está mais para incentivar aqueles que não poderiam vir. Para não podar o público por causa do valor.

Thiago Cazado – Sem dúvida. Tem muitas pessoas que entram na internet e falam que R$ 25 já é caro para elas, e o espetáculo já não é tão comum. Por exemplo, em Goiânia, é uma cidade que é muito preconceituosa. Muito. A gente recebeu muitas mensagens de ódio e coisas assim. Daí a gente pensa “Poxa, o cara já não tem muita oportunidade de ver uma peça com essa temática (homoafetiva), e eu vou por o ingresso a R$ 50, R$ 100, daí o cara não vai poder ir”. Então a gente coloca a R$ 25, porque é o mínimo que podemos fazer sem tomar prejuízo.

Renan Mendez – É um espetáculo totalmente independente. Nós não temos patrocínio. é bom ressaltar isso.

Thiago Cazado – Então, é um preço que a gente consegue cobrir as despesas, e dá para as pessoas pagarem. Fazemos isso para facilitar para o público. Se nós pudéssemos fazer a peça com patrocinador, talvez de graça, todos poderiam ir ver.

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Comentários

Um comentário sobre “Produtora se destaca com obras de temática homoafetiva”

  1. Poxa, que legal ler a entrevista dos caras. Dá pra perceber que eles tem uma consciência do país e do tempo em que eles vivem. Que o Brasil é um lugar muito grande o muito diverso, aqui em São Paulo, com uma boa divulgação no OFF, na internet, eles conseguirão um público bem grande, porque aqui a diversidade e principalmente o teatro, tem bastante espaço, mas existe preconceito como em qualquer outro lugar. Que legal o trabalho deles. Ansioso para assistir ao espetáculo.

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