Geral

Entre o medo e a vontade de ajudar

Fobias podem ser empecilho na hora da doação de sangue

Laís Albuquerque e Laíse Feijó 

Doar sangue é um ato de solidariedade e compaixão que pode salvar vidas. A vontade de doar, porém, as vezes não é suficiente. Mesmo querendo ajudar, muitas pessoas não conseguem em decorrência de problemas como o medo de agulha e de sangue, cientificamente chamados de aicmofobia e hemofobia, respectivamente. O pânico muitas vezes acaba tornando impossível ou, pelo menos, muito difícil a doação.

A aicmofobia é um medo excessivo e muitas vezes irracional de agulhas que pode ser causado por um trauma ou apenas pelo receio de contato com elas. O problema acaba criando uma barreira em quem é afetado, tornando difícil e até impossível processos rotineiros como vacinação e coleta de sangue para exames e doação, por exemplo. O estudante Rocio Nugui conta que não consegue lembrar quando e como esse medo surgiu em sua vida. “Parece algo que eu sempre tive, porque não sei apontar um momento exato em que isso começou. Eu nunca doei sangue justamente por conta desse mede e nunca mais tomei nenhuma vacina desde que completei aquela cartela de vacinas obrigatórias, a não ser quando se tornou exigência para uma viagem que fiz. Caso contrário, evito ao máximo”, explica.

O estudante conta que o medo é tanto que chegou a evitar medicação na veia em alguns momentos, mesmo sabendo que o efeito seria o mais desejado para o caso. “Fiz um mochilão pela América do Sul e como as caminhadas eram constantes eu acabei tendo um problema no joelho. Na emergência, o médico sugeriu que eu fizesse uma injeção diretamente no local da dor e eu optei por não fazer. Até hoje sinto dores no joelho em decorrência disso.  Toda vez que sou obrigado a encarar uma agulha, para exames, por exemplo, eu não posso olhar para ela. E mesmo sem olhar, meu coração e  minha respiração aceleram e quase desmaio”, conta Nugui. Ele garante que a vontade de doar sangue existe, mas o medo fala mais alto.

Já no caso da estudante Valquíria Meglin foi justamente a vontade de ajudar o próximo através da doação de sangue que a fez buscar por ajuda para superar a fobia. Ela conta que o pânico sempre existiu e que não sabe dizer se passou por algum trauma quando criança que possa ter contribuído para o desenvolvimento da fobia. “Eu fico triste e com medo. Eu não posso fazer nenhum exame com agulhas entrando no corpo ou vacinas que esse sentimento aparece. Fico chateada por não conseguir romper essa barreira e com medo de um dia realmente precisar e eu preferir não fazer exames ou tomar soro, por exemplo, em decorrência desse problema”, conta.

Hoje fazendo tratamento psicológico para superar o medo, Valquíria conta que já conseguiu notar melhoras. “Antes eu não conseguia nem ver cenas com agulhas em filmes ou na TV. E depois que eu comecei a ir psicóloga eu já consegui segurar minha gata pra tomar vacina. Algo simples que antes era impensável pra mim. Estou tratando esse meu pânico e espero um dia conseguir doar sangue, que é algo que tenho muita vontade de fazer e que me motivou na busca da cura”, completa a estudante.

Aicmofobia e hemofobia são empecilhos na hora da doação de sangue. Foto: Prefeitura de Olinda/ Flickr

Aicmofobia e hemofobia são empecilhos na hora da doação de sangue. Foto: Prefeitura de Olinda/ Flickr

 

Outro medo bastante comum na população é a hemofobia. O transtorno causa pânico extremo em ver, tocar e até mesmo falar em sangue, tanto do seu quanto de qualquer outra pessoa. O medo impede tanto de realizar atividades relacionadas ao sangue, como doação ou retirada, até coisas simples do cotidiano, como fazer uma tatuagem, fazer uma aula de primeiros socorros ou ajudar alguém que se machucou. A fobia da jornalista Tainá Rios existe desde sua infância. Ela lembra de desesperar-se ao ver sangue desde os quatro anos de idade e ainda sofre com a fobia em situações cotidianas. “Aos 13 anos resolvi fazer o segundo e terceiro furo na orelha. Quando fui tirar o brinco provisório saiu um pouco de sangue e eu simplesmente desmaiei”, lembra. Tainá também tinha problemas nas aulas de biologia na escola quando o assunto era abordado. Ela afirma que sentia dor só de ouvir falar em assuntos relacionados ao sangue.

Hoje, aos 23 anos, o problema permanece: só de ouvir falar em parto, doação de sangue ou primeiros socorros, por exemplo, ela se sente mal. Os principais sintomas que ela relata são desmaios, náuseas e baixa da pressão arterial. Tainá conta que tem dificuldade para lidar até mesmo com seu período menstrual: “Quando fico menstruada tenho náuseas, minha pressão baixa e a dor é insuportável. Boa parte disso é psicológico devido ao meu pânico”, lamenta. O medo atrapalha também na hora de tirar ou doar sangue. Tainá consegue realizar a retirada para exames, desde que não olhe para a agulha. Entretanto, a doação já se torna mais difícil para ela: “Eu não seria capaz de doar, pois sinto muita dor, fico tonta e é como se eu ficasse sem forças”. Apesar de sofrer bastante com a hemofobia, Tainá admite que nunca procurou tratamento. “Como quase todo mundo diz que é frescura eu nunca procurei uma ajuda especializada para isso”, confessa.

Segundo o Manual de Orientações para a Promoção da Doação Voluntária de Sangue, publicado em 2015 pelo Mistério da Saúde, essas fobias se enquadram numa série de polêmicas acerca da doação que podem ser quebrados através de campanhas de conscientização em ambientes como escolas, universidades, empresas, espaços públicos  e etc. No texto, assistentes sociais que trabalham na captação de doadores garantem que ações educativas são necessárias “a fim de desmistificar esses mitos e tabus, informar e educar a população para a importância da doação de sangue de forma consciente, responsável e saudável”. Os profissionais desenvolvem diversas estratégias por meio de ações, projetos e programas.

Não existe um tratamento e atendimento específico na hora da doação para quem sofre de fobias, mas, segundo os profissionais, é necessário que o responsável pela coleta acalme o doador, ressalte a importância do seu ato, relembre como a ação pode beneficiar outras pessoas, deixando-o mais calmo e confiante mesmo com seus medos.

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