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Enchentes castigam novamente o Vale do Caí

Em 2000, enchente pegou a região de surpresa, diferente do que aconteceu na última semana

O ano é 2016. 16 anos não foram suficientes para as pessoas esquecerem a última enchente que aterrorizou o Vale do Caí. Em 2000, uma enorme quantidade de chuvas em um curtíssimo espaço de tempo fez com que o principal rio da região, o Rio Caí, saísse de suas normais condições e alagasse diversos municípios. Na última semana, iniciada no dia 16 de outubro, os fatos foram parecidos. Em 24 horas, o volume de chuvas foi o equivalente a precipitação de todo o mês de outubro, causando problema semelhante, senão igual: a cheia do Rio Caí.

Segundo dados da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler – RS (FEPAM), o Rio Caí possui 285 quilômetros de extensão, 5.05,25 km² de área, o equivalente a 1,79% da área total do estado. Suas águas banham 41 municípios, ou seja, 8,25% dos 497 cidades gaúchas. Já o Vale do Caí, região situada entre Caxias do Sul e Porto Alegre, possui 20 municípios, de colonização Ítalo-Germânica e Açoriana, e tem como uma das suas principais atividades econômicas a agricultura.

Uma região que possui índices mínimos de violência e criminalidade, quando comparado a região metropolitana, convive com outro problema – as cheias de seu principal rio – o Rio Caí. Cinco dos municípios da bacia hidrográfica do Caí são atingidos de forma “linear”. Nova Petrópolis, Vale Real, Feliz , Bom Princípio e São Sebastião do Caí fazem parte dessa “linha”. É como se fosse aquele jogo no qual depois de empurrar a primeira peça do dominó, as outras caem por consequência.

A primeira peça cai em Nova Petrópolis.

 

Imagem do Rio Caí visto de Nova Petrópolis / Imagem: Facebook Bombeiros Voluntários NP

Imagem do Rio Caí visto de Nova Petrópolis (Foto: Facebook Bombeiros Voluntários NP)

 

A segunda cai em Vale Real, onde as principais perdas devido a cheia do rio foram registradas na região habitada por agricultores. Além disso, devido ao volume de água, a movimentação das terras resultou no desmoronamento de duas casas, onde cinco pessoas ficaram desabrigadas, e três desalojadas. Segundo o coordenador da Defesa Civil de Vale Real, Geberson Christian Barth, 24 anos, o grande volume de água é proveniente de regiões mais altas. “A grande quantidade de água depende muito das cidades que estão acima de Vale Real. Com isso, deve-se tomar nota que os arroios entram no Rio Caí de diversos lugares, como Farroupilha, Caxias do Sul, e principalmente Nova Petrópolis”, explica o Coordenador da Defesa Civil.

 

Vale Real sofreu com os deslizamentos, além da destruição em regiões de produção agrícola. Imagem: Geberson Cristian Barth

Vale Real sofreu com os deslizamentos, além da destruição em regiões de produção agrícola. (Foto:  Geberson Cristian Barth)

 

A terceira é em Feliz, município da moradora do bairro Bomfim, Carla Simoni Gonçalves de Oliveira, 44 anos. A costureira conta que nesse ano esperava o que aconteceu. “Apesar da água ter invadido a minha residência, estávamos preparados e tomamos as medidas necessárias para que tivéssemos o mínimo de prejuízo material”, explica. No entanto, no ano de 2000, o desastre foi pior. “Na enchente de 2000, ninguém imaginou que a água viria daquela forma. Perdemos várias coisas, entre móveis e roupas, principalmente”, conta Simoni.

 

Tradicional Ponte de Ferro de Feliz é ponto crucial na cidade para saber a altura do rio / Imagem: arquivo pessoal

Tradicional Ponte de Ferro de Feliz é ponto crucial na cidade para saber a altura do rio. Foto: Arquivo Pessoal

 

A quarta peça a cair é  em Bom Princípio. Segundo Paulo Portinho, 53 anos, Coordenador da Defesa Civil e Comandante do Corpo de Bombeiros de Bom Princípio, o elevado índice de chuva num curto espaço de tempo ocasiona a saturação das regiões de várzea no município, provocando alagamento e inundações. “Devido ao volume de chuvas, as regiões mais afetadas no município são a localidade de Bela Vista e Caí Velho”, esclarece Portinho.

Corpo de Bombeiros de Bom Princípio pratica diversas ações de prevenção e salvamentos / Imagem: Facebook Bombeiros Princípio

Corpo de Bombeiros de Bom Princípio pratica diversas ações de prevenção e salvamentos (Foto: Facebook Bombeiros Princípio)

Um dos principais trabalhos da Defesa Civil e Corpo de Bombeiros do Município é trabalhar com o monitoramento e divulgação dos dados no menor espaço de tempo possível. Além disso, Portinho cita outras ações da equipe. “Também fazemos buscas e salvamentos quando necessário, levantamentos dos prejuízos, relatórios  e auxílio em projetos para captação de recursos aos governos estadual, federal”, relata o comandante.

No entanto, 16 anos atrás, não havia nenhum tipo de controle sobre os níveis, o que foi um dos fatores determinantes para o desastre surpresa. “Em 2000, não existiam ainda as réguas oficiais de monitoramento. Portanto, apenas podemos afirmar que a enchente na época foi similar a essa, pegando a população desprevenida”, lembra Portinho.

 

Equipe exibe monitoramento contínuo pelas redes sociais / Imagem: Reprodução - Facebook

Equipe exibe monitoramento contínuo pelas redes sociais (Foto: Reprodução/Facebook)

A quinta  peça a cair é em São Sebastião do Caí, cidade que em seus primórdios de emancipação, já foi um porto, devido a sua localização privilegiada em relação ao rio Caí. Na época, por volta de 1875, esse porto servia como posto de escoamento da produção dos moradores da região. Com isso, até hoje, a cidade sofre muito com as cheias, pois  centro da cidade fica a três quadras do rio. Portanto, com a cheia da última semana, 65% da área habitável da cidade foi inundada.

O técnico em eletrotécnica Eder Dutra Soares, 29 anos, morador do Bairro Navegantes, em São Sebastião do Caí, esteve presente nas duas enchentes e lembra com detalhes do que aconteceu em 2000. “Lembro que acordei de manhã, e ao abrir a porta de acesso do segundo andar para a garagem, me deparei com um volume de água assustador, faltando apenas dois degraus para chegar no segundo andar, em torno de uns 45 centímetros. Até então, morava lá apenas dois anos, e não havia acontecido um fato igual”, conta o eletrotécnico, que tinha 13 anos na época.

 

Altura da água em alguns pontos da cidade ficou superior a 2 metros / Imagem: Éder Dutra Soares

Altura da água em alguns pontos da cidade ficou superior a 2 metros / Imagem: Éder Dutra Soares

Dutra afirma que na enchente da semana passada, as consequências foram mínimas, apesar da quantidade de água que o cercou. Com isso, mesmo com a água entrando cerca de 1,70 metros de altura dentro de sua casa, ele não foi pego de surpresa, pois  sempre se tem a noção de que o rio irá invadir a cidade, devido o volume de chuva que caiu. “Teve um bom trabalho da defesa civil junto a prefeitura, que se preocupou em manter os moradores a par do que estava por acontecer, fornecendo informações, tais como estimativa do volume de água. Não tivemos perdas de objetos, porém, existe toda a logística e transtorno, na qual ninguém deveria passar. A água não vem sozinha, mas sim com muito lixo, animais peçonhentos e odores desagradáveis”, conta o morador do bairro Navegantes.

Apesar de não terem consequências graves com a última cheia do rio, o eletrotécnico passou alguns transtornos, comuns a enchentes. Pois, após a cheia do rio, sempre é perdido muito tempo tendo que fazer uma boa limpeza. sem contar com a umidade no ambiente após o fato em si. “Apesar de ser uma área pouco utilizada onde a água entrou, por se tratar de garagem, sempre ocorre o pensamento nas pessoas que tiveram seus móveis, eletrodomésticos,  e roupas atingidos pela água. Ficamos três dias ilhados,  no entanto, geralmente as enchentes duram umas 36 horas. Mas, nesse caso, quando ela estava escoando, houve mais uma chuva torrencial na serra, fazendo com que o nível da mesma voltasse a subir. Sendo que, nesses três dias, um e meio foi sem energia e água”, explica Dutra.

Mesmo que esporádicos, os problemas com as cheias ainda assombram os moradores do Vale do Caí, que convivem com as enchentes, sem ter a certeza de quando será a próxima. O coordenador da Defesa Civil de Vale Real, Geberson Christian Barth, acredita que, diante desses eventos climáticos, a principal preocupação são as pessoas. “Quantos as cheias, acredito que a maior precaução seria alocar as pessoas que moram perto de rios em outros lugares”, comenta Barth.

Já o morador de São Sebastião do Caí, Eder Dutra Soares, vê que algumas medidas de prevenção já deveriam ter sido adotadas. “Algumas cidades da região Rio dos Sinos tem projeto de contenção. Porém, já deveria existir um projeto para o Vale do Rio Caí, há no mínimo 50 anos. Pois, que talvez nos dias de hoje, estaria sendo colocado em prática. Deve se ter ciência de isso leva tempo, mas se começarmos a pensar nas soluções hoje, daqui a 50 anos o problema poderá estar resolvido”, enfatiza Dutra.

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