Cultura

A encenação como forma de tratar a realidade

Companhias independentes de teatro mantém viva a arte

Débora Vaszelewski

 

Cena do espetáculo Caliban. Foto: Débora Vaszelewski/Beta Redação

Cena do espetáculo Caliban. Foto: Débora Vaszelewski/Beta Redação

Opções para quem busca uma boa peça de teatro não faltam em Porto Alegre. A Capital conta com muitas companhias teatrais que colocam em discussão e reflexão assuntos históricos e atuais da nossa sociedade. Além de apresentar suas montagens, também disponibilizam oficinas para aqueles que se interessam no ofício da arte dramática. Apesar do escasso incentivo por parte do governo, os grupos buscam em editais públicos, financiamentos e até contribuições dos próprios integrantes recursos para se manter em atividade e dar continuidade aos seus projetos.

Usina do Trabalho do Ator (UTA)

A Usina do Trabalho do Ator (UTA) completa 25 anos neste mês de maio e se prepara para celebrar sua história no 12º Palco Giratório Sesc. Até o dia 25 de maio é possível conferir a exposição Usina do Trabalho do Ator – 25 anos de Performatividade em Imagem. No dia 14, tem apresentação da peça A Dança do Tempo no Parque da Redenção. A UTA surgiu  com o apoio da Secretaria Municipal da Cultura, em 1992. Através de um processo público, foram selecionados 12 atores, e o grupo se constituiu como núcleo de pesquisa sobre a prática do trabalho do ator. A atriz Celina Alcântara explica: “Nossas criações são constituídas numa relação direta com os vários outros da cena que constituem a prática teatral (várias dessas funções, inclusive, exercidas por nós): músicos, figurinistas, aderecistas, técnicos, costureiros, artistas gráficos etc., mas o ponto de partida segue sendo o ponto de vista de um ator/diretor criador”. Questões como preconceito, racismo, medos, opressão, indignação, resistência, ganância, solidão, morte, culturas populares, especialmente as do sul do Brasil, são também fonte de inspiração desde o início do trabalho do grupo.

SERVIÇO

Exposição: Usina do Trabalho do Ator – 25 anos de Performatividade em Imagem
Data: 04/05 a 28/05
Local: Café Sesc Centro (Av. Alberto Bins, 665)
Visitação: segunda a sexta-feira, das 8h às 20h. Sábados e domingos, sempre uma hora antes dos espetáculos programados no festival do Sesc

Espetáculo: Dança do tempo
Data: 14/05
Local: Parque da Redenção
Horário: 12h
Teatro de rua com classificação etária livre
Duração: 90 min

Companhia Rústica

Humor, crítica, poesia e política são elementos muito explorados pela Companhia Rústica. A diretora Patrícia Fagundes conta que o grupo busca em vários espetáculos a reflexão sobre o mundo e a sociedade a partir do sensível. Trabalhar com a diversidade de pessoas também é muito importante. “Além dos espetáculos de sala, a gente tem linha de ação de espetáculos na rua e intervenções, como o Desvios em Trânsito, que acontece em centros urbanos, movimentados, de dia. Tem a Cidade Proibida, que acontece em parques, praças ou lugares que se tornam perigosos durante a noite. E Feito Criança, que é infantojuvenil, começou na rua e agora tem versão de palco”, afirma Patrícia. O mais recente trabalho da Cia. Rústica é a Fala do Silêncio, que traz um triângulo amoroso num pano de fundo de movimentos sociais e políticos do Brasil e do mundo, ocorridos entre 2007 e 2016.

SERVIÇO

Espetáculo: Fala de Silêncio

Estreia: 15/04
Horário: 20h
Local: Sala Álvaro Moreira (Av. Erico Veríssimo, 307)
Ingresso antecipados e promocionais

Pretagô

Tratar sobre a opressão, a juventude e o papel da população negra na cidade é a bandeira do grupo Pretagô, que completa três anos em maio e está com programação especial. O grupo é criador dos premiados espetáculos Qual a Diferença entre o Charme e o Funk?, apresentado em salas de teatro, e AfroMe, criado para apresentações em bares. A companhia, que surgiu a partir do Departamento de Arte Dramática (DAD) do Instituto de Artes da UFRGS, aborda temáticas do passado e do presente a fim de provocar reflexões para que a sociedade conviva de forma tolerante. Nos espetáculos, a dramaturgia ganha reforço da música ao vivo e da interação com o público, segundo a diretora Camila Falcão.
SERVIÇO

Sarau Pretagô
Data: 04/05, 19h
Local: Usina do Gasômetro, Sala 503
Entrada: Contribuição sugerida de R$ 15
AfroMe
Data: 20/05, 20h
Local: Boteco do Paulista (R. Riachuelo, 230)
Entrada: Contribuição espontânea
Qual a Diferença entre o Charme e o Funk?
Data: 21/05
Horário: 19h
Local: Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana
Entrada: R$ 15 meia | R$ 30 inteira

Depósito do Teatro

Com 20 anos de estrada e com 25 montagens profissionais produzidas que foram aclamadas pelo público e pela crítica, o Depósito do Teatro é outro grupo que mantém uma programação regular em Porto Alegre. No momento é possível conferir a peça Missão Água, que aborda diferentes tipos de seres mitológicos relacionados à água e demais animais aquáticos. Para fomentar a relação com a sociedade, o Depósito busca manter palestras e debates para incentivar a troca de ideias e conceitos para expandir o conhecimento sobre a arte. Também realiza desde 1999 oficinas de formação de atores. Segundo a atriz Elisa Heidrich, atualmente está em um coletivo com o Usina das Artes em busca de um novo espaço, porque a Usina do Gasômetro vai fechar para reforma. Há um diálogo com a prefeitura para ver o que acontece com o projeto e como dar continuidade à formação de atores e os ensaios.
Serviço:
Missão Água
Data: 27 e 28/05
Local: Theatro São Pedro (Praça Mal. Deodoro, S/N – Centro Histórico)

Ói Nóis Aqui Traveiz

Grupo homenageado pelo festival Palco Giratório deste ano, o Ói Nóis Aqui Traveiz surgiu no momento mais difícil do Brasil: no ano de 1987, período da ditadura militar. Segundo o fundador Paulo Flores, a proposta ideológica do grupo é bem definida em “trabalhar com a crítica rigorosa ao sistema capitalista”. Todos os espetáculos partem de uma pesquisa aprofundada a partir do tema que se quer desenvolver, é o denominado teatro investigativo. Apresentou no dia cinco de maio o espetáculo Caliban – A Tempestade de Augusto Boal. A característica do grupo é aplicada nas três vertentes, Teatro de rua, de vivência e trabalho artístico pedagógico. Oficinas de teatro popular são oferecidas na Terreira da Tribo, sede do grupo localizada na Rua Santos Dumont, 1186, onde forma atores e acolhe desde o início da formação. “Temos oficinas que ocorrem todo ano e cumprem esse papel importante de acessibilidade para as pessoas que querem entrar em contato com o teatro. Todas as nossas oficinas são gratuitas e organizamos em diversos bairros de Porto Alegre e cidades vizinhas” garante Paulo Flores. O teatro de rua é praticado para, além de poder atingir mais pessoas, democratiza e descentraliza o teatro, chegando às periferias. Além disso, o grupo desenvolveu o selo editorial Ói Nóis Na Memória que edita livros e DVD’s, para registrar a própria trajetória ou para publicar obras de autores próximos.

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