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Eles querem se armar

Onda de insegurança no RS faz procura por registros e porte de arma aumentar na Região Metropolitana

Os dias – e, principalmente, as noites – na capital do Rio Grande do Sul nunca foram de tanto medo. Por todos os lados as pessoas estão assustadas com a onda de criminalidade que já virou rotina nos noticiários. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, no primeiro semestre de 2016, foram registrados 4.329 crimes a mais do que no mesmo período do ano passado. Somente o número de latrocínios, que é o roubo seguido de morte, cresceu quase 35%.

A incapacidade de controlar a crise na segurança por parte dos órgãos locais de policiamento levou o governador José Ivo Sartori (PMDB) a solicitar ao Governo Federal a presença da Força Nacional. Paralelamente, o número de pessoas que solicitaram e conseguiram o porte e registro de arma de fogo cresceu significativamente nos três últimos meses do primeiro semestre. Em abril, foram 174 pedidos para compra de armas e em junho, 232. Já o número de pessoas que obtiveram o porte de armas quase dobrou, de 39 pedidos em abril, para 60 pedidos em junho. Os dados são das solicitações de Porto Alegre e Região Metropolitana e fazem parte do banco de dados da Polícia Federal.

 

 

Hoje qualquer brasileiro com mais de 25 anos, que não esteja respondendo a inquéritos policiais ou processo criminal, pode solicitar o registro de arma de fogo. Basta que ele apresente alguns documentos pessoais e uma declaração expondo à Polícia Federal os motivos da necessidade de comprar uma arma. Com o documento em mãos, ele poderá ir até uma loja de armas credenciada pela PF e adquirir o modelo de sua preferência. A arma deverá ficar armazenado em casa ou no local de trabalho. Para carregar consigo, a pessoa necessita de um documento diferente: o porte de armas. “Para solicitar o porte de arma, a pessoa precisa apresentar basicamente a mesma documentação que ela já apresentou para o registro, mas desta vez com um teste psicotécnico diferente. Caprichar no teste prático e apresentar um bom motivo para andar armado”, explica o Delegado Solon Cardoso Filho, responsável pela Delegacia de Controle de Armas e Produtos Químicos (DELAQ).

A legislação brasileira permite que o cidadão carregue uma arma de fogo somente se comprovar para a Polícia Federal que exerce uma profissão que coloque sua vida em risco ou que está recebendo ameaças.”Existem alguns casos excepcionais, como os atiradores profissionais, que são aqueles credenciados no Exército e que participam de competições de tiro. Nesses casos, a licença é apenas para transportar consigo a arma, pois precisam estar desmuniciadas e armazenadas dentro de seus cases. Esse tipo de licença não serve, portanto, para quem deseja o porte para auto-defesa”, completa Solon.

 

Solon Cardoso Filho - Delegado Chefe da Delegacia de Controle de Armas e Produtos Químicos | Fotografia Vinicius Ferrari/Beta Redação

Solon Cardoso Filho, delegado Chefe da Delegacia de Controle de Armas e Produtos Químicos | Fotografia Vinicius Ferrari/Beta Redação

 

O uso de armas para combater a violência

Para obter o registro de compra, o solicitante precisa aprender a manusear o armamento e saber atirar. Nessa parte do processo, as escolas de tiro exercem um papel fundamental. A Magaldi, uma das mais importantes academias de tiro do país, registrou alta de mais de 50% no número de alunos nos últimos seis meses. “As nossas turmas são formadas principalmente por profissionais liberais, comerciantes, empresários, funcionários públicos e famílias inteiras preocupadas com a segurança e que buscam adotar medidas de comportamento pessoal para conseguirem prevenir abordagens de suspeitos”, explica Dempsey Magaldi, dono da escola.

A onda de aumento no número na criminalidade foi o que levou Rafael Keller a ingressar no curso. O advogado é filho de policial militar e sempre demonstrou interesse pelas armas “Tendo em vista a carreira que quero seguir na segurança pública, combinado com o aumento da criminalidade, me vi obrigado a aprender a me defender e a defender a minha família também. Não possuo arma ainda, mas pretendo adquirir assim que possível”, afirma. Rafael treina em média 50 tiros por semana na escola Magaldi, em Porto Alegre.

“O cidadão de bem armado, contribuiria muito para a diminuição do índice de criminalidade, pois bandido procura facilidade, como sabe que cidadão de bem não anda armado, sabe que é presa fácil, sem chance de reagir. No momento que o porte de arma for facilitado para todo cidadão de bem, será uma enorme barreira para a criminalidade”, opina Rafael.

 

Marco Antônio Ribeiro é piloto de avião e seu interesse pelas armas veio por influência do avô, que era oficial da Brigada Militar. “Desde criança meu avô me ensinou o que fazer e o que não fazer quanto ao manuseio de armas de fogo, tratando-as como uma ferramenta indispensável. Minha primeira arma foi o revólver calibre 32, que herdei quando ele faleceu e hoje encontra-se registrado no meu nome”, lembra. Marco Antônio é credenciado junto ao Exército Brasileiro com a licença chamada CAC, concedida a caçadores, atiradores e colecionadores e, assim como Rafael, acredita que o porte de armas diminuiria a criminalidade. “Estamos vivendo em uma das 10 cidades mais perigosas do mundo, onde o crime cresce exponencialmente. E o bandido está cada vez mais covarde. Defendo que toda a pessoa idônea, após passar por todo o processo legal e por treinamento especializado, tenha devolvido o direito de defender sua vida, sua família e patrimônio. Estamos sendo vítimas de uma guerra injusta onde só ocorrem baixas no lado do bem”, afirma. 

Marco Antônio treinando no stand de tiros. Foto: Marco Antônio/Arquivo pessoal

Marco é sócio de dois clubes de tiros e treina praticamente toda a semana. Segundo o piloto, em breve ele deverá começar a competir profissionalmente em uma modalidade chamada  IDSC (International Defensive Shooting Confederation), que busca simular situações reais de combate defensivo com arma de fogo.
O delegado Solon relata que, embora a Polícia Federal não tenha uma opinião formal e institucional sobre o assunto, a regra intrínseca é que todos os documentos e requisitos do porte ou registro de arma seja emitido. “Em casa eu acho que todo mundo deveria ter uma arma e se preocupar em estar preparado para usar, caso for necessário”, alega o delegado.
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