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Efeitos colaterais do anticoncepcional assustam mulheres

Enquanto médicos dizem que os riscos são pequenos, vítimas de problemas causados pelo medicamento se manifestam nas redes sociais

Contraceptivos orais apresentam efeitos colaterais que incomodam mulheres. Foto: Caroline Garske / Beta Redação

Contraceptivos orais apresentam efeitos colaterais que incomodam mulheres. Foto: Caroline Garske/Beta Redação

 

A contadora Bruna Ferreira, de 23 anos, tinha 15 quando começou a tomar anticoncepcionais. A jovem, de Cachoeira do Sul, iniciou o tratamento com contraceptivos orais depois de ter a primeira filha. Sete anos após o uso contínuo do medicamento oral, Bruna foi surpreendida por uma Trombose Venosa Profunda (TVP). Segundo a contadora, ela havia trocado de anticoncepcional para evitar as cólicas, acnes e terríveis enxaquecas que tinha com o uso do outro comprimido. Poucas semanas após a mudança, Bruna começou a notar que havia algo de errado em sua perna esquerda. Sintomas como vermelhidão, muita dor e inchaço começavam a anunciar a TVP. “Fui imediatamente para o hospital. Lá, o médico constatou que eu estava com uma Trombose Venosa Profunda extensa, que ia de trás do joelho até acima da virilha na veia femoral. Baixei hospital e comecei o tratamento com remédios na veia para ajudar na coagulação do sangue, diminuir a dor, não dar outra trombose e, principalmente, para que o trombo não se desprendesse e fosse parar no pulmão, causando uma embolia pulmonar”, lembra Bruna.

Casos como esse preocupam outras mulheres que tomam pílulas anticoncepcionais. Para o médico ginecologista e especialista no assunto Marcelino Poli, o risco de uma mulher que faz uso do contraceptivo oral ter trombose é muito pequeno. Marcelino afirma que efeitos colaterais da pílula, como dores de cabeça, vertigens e trombose dependem muito da composição do medicamento: “A pílula é composta de dois hormônios, um estrógeno e um progestágeno. O estrógeno é sempre o mesmo em todas as pílulas, e o progestágeno é o que varia de uma pra outra. O risco de trombose varia dependendo da constituição da pílula, mas ele é muito pequeno. Se em mulheres que não usam pílula nós temos um risco de trombose de quatro em 10 mil, usando pílula vai ser o dobro, oito em 10 mil, mas são quatro a mais num índice pequeno. É muito raro, não chega a justificar o não uso”, defende o médico.

 

O médico ginecologista Marcelino Poli defende o uso de anticoncepcional oral e afirma que o risco de trombose entre mulheres que tomam o medicamento é muito baixo. Foto: Caroline Garske / Beta Redação

O médico ginecologista Marcelino Poli defende o uso de anticoncepcional oral e afirma que o risco de trombose entre mulheres que tomam o medicamento é muito baixo. Foto: Caroline Garske/Beta Redação

 

A Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) estima que ocorram 60 casos de Trombose Venosa Profunda para cada 100 mil habitantes durante um ano, entre homens e mulheres. Segundo a Sociedade, o perfil mais comum a ter TVP é o do idoso, mas também pode ocorrer em pessoas com doenças no sangue, que passaram por cirurgias, traumatismos, reposição hormonal, entre outros.

No entanto, existem reclamações de mulheres que sofrem com os efeitos colaterais da pílula anticoncepcional. Camila Stoll, 24 anos, de Porto Alegre, e Aline Barbosa, 21, de Catalão, Goiás, não passaram por um trauma como o da trombose, mas se incomodaram com o que o remédio as fazia sentir. Aline, que hoje opta por não usar mais o contraceptivo, diz que após começar o tratamento com o medicamento passou a sentir seu humor alternando muito, além de perceber uma redução da libido. Camila, por sua vez, fez a troca de anticoncepcional orientada por um médico e, após isso, começou a sentir muito enjoo, tontura e dores fortes de cabeça. Efeitos colaterais como esses, segundo o médico Marcelino, variam de paciente para paciente: “Uma pílula pode não causar nada em uma pessoa e deixar outra com dor de cabeça, com apetite exacerbado, pressão alta. Ou seja, depende das características da pessoa e depende das características da pílula”. Para ele, e também para a médica ginecologista Ione Picanco, antes de começar o tratamento com o contraceptivo oral é importante que a mulher seja avaliada por seu médico, para que ele prescreva a melhor opção, pensando no histórico próprio e familiar da paciente.

 

Indignação faz com que mulheres se manifestem no Facebook

Indignada após ter uma TVP e uma embolia pulmonar, a bacharel em Direito Daniela Ayub, 34 anos, criou uma página no Facebook para se manifestar contra a pílula anticoncepcional. A página, criada pela gaúcha de Porto Alegre e que leva o nome  “Um veneno chamado anticoncepcional”, já conta com mais de 60 mil curtidas de mulheres de todo o Brasil. Lá, mulheres postam fotos com a descrição dos problemas de saúde que tiveram após o uso de contraceptivos orais.

Segundo Daniela, a ideia de criar a página surgiu da necessidade de alertar as mulheres sobre os riscos de se utilizar métodos contraceptivos hormonais. “Eu já tinha ouvido falar de casos de mulheres vitimadas pelo uso de anticoncepcional, mas não imaginava que fosse tão frequente até acontecer comigo”, lembra. Após o tratamento contra a trombose e a embolia pulmonar, ela conta que desenvolveu um quadro de estresse: “Perdi mais da metade do meu cabelo em função da doença e desenvolvi estresse pós-traumático, o qual estou tratando com terapia. Ainda existem momentos em que acho que vou morrer, como no dia em que fui parar no hospital. Em muitos momentos fico nervosa e tenho crises de choro”.

 

Daniela Ayub, administradora da página "Um veneno chamado anticoncepcional", incentiva mulheres a participarem de campanha que tem como objetivo alertar para os riscos do uso do anticoncepcional. Foto: Arquivo pessoal, Facebook

Daniela Ayub, administradora da página “Um veneno chamado anticoncepcional”, incentiva mulheres a participarem de campanha que tem como objetivo alertar para os riscos do uso de anticoncepcionais. Foto: Arquivo pessoal/Facebook

 

Hoje, a administradora da página “Um veneno chamado anticoncepcional” vê na sua experiência uma forma de alertar as mulheres e as autoridades do país. Daniela diz que nem imaginava o sucesso que a iniciativa faria. Conta que a página recebe inúmeros elogios das mulheres e vários relatos de vítimas de problemas parecidos com o que ela teve. Entretanto, mais do que fazer com que as mulheres deixem seus depoimentos ali, Daniela pensa que a página deve servir de alerta para que se crie uma lei que exija prescrição médica de anticoncepcional com controle e retenção da receita nas farmácias. “Também é importante que exista uma lei que obrigue a requisição de exames prévios de trombofilia e doenças autoimunes por parte dos médicos ginecologistas”, completa.

 

Métodos alternativos de contracepção

Outros métodos contraceptivos podem ser escolhidos por mulheres que não podem ou não querem tomar a pílula anticoncepcional. Segundo Marcelino, métodos não hormonais e que não aumentam o risco de trombose, por exemplo, são o DIU de cobre, preservativos feminino e masculino e o diafragma. Mas também existem os métodos comportamentais, como a tabelinha, controle do período fértil, e ainda métodos cirúrgicos, como a ligadura de trompa, na mulher, e a vasectomia, no homem. Entretanto, o médico reafirma que o risco de efeitos colaterais do anticoncepcional não justifica o não uso.

 

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