Economia

Educação financeira: um caminho para frear o endividamento dos brasileiros

Especialistas avaliam que o excesso de crédito aliado à educação financeira rasa contribuiu para o endividamento da população.

Para evitar o acúmulo de dívidas, há uma premissa básica a ser seguida: não gastar mais do que se recebe. Na prática, entretanto, muitos brasileiros encontram dificuldades em acompanhar essa orientação. A comprovação está nos índices econômicos, que revelam um patamar crescente do número de pessoas inadimplentes no país.

O Indicador do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) apontou que, em março de 2015, cerca de 54,7 milhões de brasileiros estavam endividados – 2,2 milhões a mais do que no mesmo período do ano passado. O levantamento sugere, ainda, que 38,8% deles estão com dívidas há mais de um ano.

Para o doutor em Economia, Fernando Agra Santos, o descontrole nas finanças do brasileiro pode estar diretamente ligado à ausência de uma educação financeira eficaz. “De um modo geral, é possível afirmar que foi dado muito crédito às pessoas nos últimos anos, mas pouca educação financeira”, sinaliza o especialista.

De acordo com ele, o resultado disso é o descontrole nas relações de consumo. “Hoje temos cerca de 40% da população ativa de modo inadimplente”, enfatiza ele. O economista alerta, ainda, para o cuidado necessário em relação aos juros.

“Quanto maiores os juros, como os rotativos do cartão de crédito e os do cheque especial, mais rapidamente cresce a dívida do indivíduo inadimplente”, adverte. Por isso, a dica para começar a quitar a dívida é pagar primeiro aquela com os juros mais altos.

Educação Financeira começa na escola

Professora Denise Kern e sua turma de alunos da Escola Mathias Schütz, em Ivoti/RS. Foto: Arquivo Pessoal

Professora Denise Kern e sua turma de alunos da Escola Mathias Schütz, em Ivoti/RS. Foto: Arquivo Pessoal

Algumas iniciativas são destinadas, especialmente, a educar crianças e jovens para o consumo consciente. A professora Mestre em Ciências Exatas e autora do livro “Uma turma diferente: aprendendo a poupar”, Denise Kern, há 20 anos dedica-se a levar a temática da Educação Financeira para a sala de aula.

“Os temas abordados em aula são amplos. Vão desde o consumo responsável e o planejamento orçamentário da mesada, até sustentabilidade. Outros aspectos discutidos com frequência são os impostos e a ética no ganho e uso do dinheiro”, revela a educadora.

De acordo com Denise, especialistas apontam que as bases das relações das crianças com o dinheiro são construídas a partir dos cinco anos. “Acredito, contudo, que esta temática pode ser abordada desde os primeiros anos escolares. É possível estimular uma consciência sustentável nas crianças”, sublinha ela.

Porém, manter um diálogo na escola não basta. “O tema precisa estar presente também no ambiente familiar. A economia normalmente é gerida apenas pelos adultos da casa, o que afasta as crianças e os jovens desses temas. É importante que pais e responsáveis conversem desde cedo com os pequenos, explicando a importância de economizar dinheiro e recursos naturais, além de planejar gastos”, pontua.

Na opinião da educadora, é óbvio que uma educação financeira rasa na escola não é um motivo exclusivo para o endividamento dos brasileiros. “No entanto, em um contexto em que o tema pouco é abordado, o maior endividamento é uma das consequências previsíveis.

“A educação financeira é quase um tabu para a maioria dos jovens. Por isso, sou defensora da inclusão da disciplina como obrigatória no currículo escolar”, resume.

“Economia brasileira favoreceu o consumismo”, afirma especialista

A jornalista Mirian Gasparin, pós-graduada em Finanças Corporativas, confirma: os brasileiros nunca estiveram tão endividados quanto agora. Segundo ela, o quadro tende a se agravar ainda mais. “Quando o índice de desemprego aumentar, haverá elevação da inadimplência”, avalia.

A problemática, de acordo com Mirian, é que os brasileiros foram cada vez mais induzidos a comprar a prazo nos últimos anos, pois havia dinheiro disponível no crediário. “A economia brasileira favoreceu o consumismo”, crê.

Por isso, ela também pensa que a educação financeira é um possível caminho para estabilizar o orçamento, planejar a compra da casa própria ou se preparar para a aposentadoria.

“Sem uma educação sobre finanças apropriada, as famílias não conseguem escolher as melhores maneiras de poupar e investir o dinheiro. Correm o risco, inclusive, de se envolverem em fraudes”, adverte.

Quando consultados sobre a situação da crise no Rio Grande do Sul, os especialistas creem que os próprios governantes têm dado um mau exemplo à população. “Está na hora deles também serem punidos por não saberem administrar suas receitas em relação às despesas”, conclui Mirian.

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