Economia

Economista explica queda na produção industrial e alta no consumo de cervejas artesanais

Ambev registrou pela primeira vez uma queda em sua receita líquida

No dia 2 de março a companhia de bebidas Ambev divulgou seu balanço anual de vendas, o que provocou uma avaliação de cenário para a indústria cervejeira. Pela primeira vez, desde a sua criação, em 1999, houve uma queda de 5% na receita líquida das operações no Brasil. Enquanto a Ambev registrou uma retração de 6,5% nos volumes de vendas em 2016, os supermercadistas não perceberam a queda. A inserção de pequenas e médias empresas de produção artesanal passou a ser um fator de preocupação para toda a indústria tida até então como consolidada.

Ambev surgiu em 1999 pela união da Companhia Antarctica Paulista e da Companhia de Bebidas das Américas, Compañia de Bebidas de Las Américas, American Beverage Company. Foto: Bruno Barreto

Ambev surgiu em 1999 pela união da Companhia Antarctica Paulista e da Companhia de Bebidas das Américas, Compañia de Bebidas de Las Américas, American Beverage Company. Foto: Bruno Barreto

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Segundo o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Antônio Cesa Longo, o setor supermercadista gaúcho não sentiu impacto negativo nas vendas de cervejas. “O segmento de cervejas especiais ou artesanais cresce 12% acima do nicho das cervejas convencionais”, declara. Segundo ele, há um anseio do consumidor por novos rótulos, o que faz com o que os supermercados venham diversificando o mix desses produtos. “Em relação aos rótulos convencionais, as cervejas industrializadas, questões como a Lei Seca e a insegurança fazem com que o consumidor se reúna mais em casa, comprando as cervejas nos supermercados. Por isso, o setor não sentiu essa queda de vendas, que é mais concentrada em bares, casas noturnas e restaurantes”, informa Longo.

Para compreender melhor o cenário atual, a Beta Redação conversou com Magnus dos Reis, doutorando em Economia Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),  que explica como funciona o mercado das cervejas e o que essa queda nas vendas da Ambev representa.

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Beta Redação: A Ambev justificou seus resultados em 2016 pelo “difícil cenário macroeconômico brasileiro”. Apenas este fator justifica a queda na receita líquida ou há algo relacionado com o mercado de cervejas artesanais?

Magnus dos Reis: É provável que a queda na receita líquida da Ambev possa ser explicada por ambos fatores, ou seja, pela crise econômica brasileira, que pode ter reduzido a demanda por produtos oferecidos pela Ambev, e pelo ganho em participação de mercado das cervejas artesanais. Em relação à crise, uma vez que a cerveja caracteriza-se por ser um bem normal, uma diminuição da renda doméstica provoca uma redução no consumo deste bem. Portanto, com a economia em crise, as famílias podem reduzir o consumo de cerveja.

Beta Redação: Mesmo com essa queda, o mercado de cervejas industrializadas ainda movimenta bilhões de reais anualmente. A Ambev registrou R$ 45,6 bilhões de receita líquida no ano passado. Portanto, a queda é relevante e os empresários devem se preocupar ou a Ambev ainda é uma empresa com mercado sólido?

Magnus dos Reis: Segundo a Cerv Brasil, o Brasil é o terceiro maior produtor de cervejas do mundo, produzindo 14 bilhões de litros de cerveja no ano de 2014, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. É um mercado sólido e que movimenta altas quantias. Por mais que produtores de cervejas artesanais venham a crescer nos próximos anos, é provável que o impacto na participação do mercado seja pequeno.

Beta Redação: Quais são as outras características relevantes do mercado de cervejas industrializadas e artesanais?

Magnus dos Reis: O setor se caracterizada por apresentar uma forte concorrência. As maiores cervejarias nacionais fazem altos investimentos para manter seu espaço. As grandes empresas têm altos custos com gastos em publicidade e propaganda, lançamento de novos produtos e com logística e distribuição. Diferentemente, as cervejas artesanais não fazem altos investimentos, atuam de forma mais regionalizada e oferecem um produto diferenciado aos seus consumidores. Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, 17% do mercado de cerveja é ocupado pelas especiais. Se essa tendência seguir no Brasil, as cervejas artesanais crescerão ainda mais nos próximos anos.

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