Cultura

É a vez delas no Hip Hop

No rap, as mulheres rimam sobre suas lutas diárias, dores e conquistas

“Me ensinaram que éramos insuficientes. Discordei. Pra ser ouvida, o grito tem que ser potente.” A letra de protesto caberia em qualquer rap, mas preste atenção no gênero: quem quer ser ouvida é uma mulher. Na música 100% Feminista, MC Carol sintetiza uma nova vertente que cada dia fala mais alto e tem mais a dizer. “Mulher oprimida, sem voz, obediente. Quando eu crescer, eu vou ser diferente”, continua a letra, mostrando que representatividade feminina no rap surge para lutar por igualdade e respeito, quebrando barreiras do machismo, racismo, violência e outros tipos de opressão.

No Hip Hop gaúcho, as mulheres também se mobilizam para serem ouvidas. Veja no vídeo abaixo:

 

Em muitos estilos musicais, a mulher foi – ou ainda é – discriminada. No rap, ainda ocorrem casos de machismo. Porém, ao longo dos últimos anos, as mulheres vêm conquistando espaço na cena musical. A cientista social Suélen Acosta explica que essa crescente representatividade feminina se dá devido à insistência das mulheres em enfrentar obstáculos, resistir ao machismo e garantir seu lugar. “A primeira motivação para a aproximação das mulheres a esse circuito vai estar em sua identificação com as críticas sociais cantadas no rap, especialmente enquanto moradoras de periferia e, claro, ao estilo que traz a reafirmação positiva da identidade negra”, completa Suélen.

Na cena, inicialmente dominada por homens, surgiram representações femininas em meados dos anos 1980, quando as mulheres começaram a se afirmar nas ruas, rádios e televisões. Atualmente, as rappers nacionais e internacionais utilizam a música como forma de conscientização.

“É interessante notar que o Hip Hop ascende nos Estados Unidos como denúncia à permanência do racismo no período pós-movimento por direitos civis. Enquanto isso, no Brasil, o processo ocorre na década de 1980, também como denúncia do racismo e do mito da democracia racial, das mazelas vividas na periferia. O engajamento e a visibilidade de mulheres são formas de denúncia e exposição do machismo presente em diversos espaços da sociedade, de diferentes formas”, explica a cientista social.

O que se nota hoje é o rap cantado por mulheres como ferramenta de militância, formando um movimento social feminista. Cantoras como Karol Conká, Tássia Reis e Flora Matos utilizam cada vez mais a música como instrumento de abordagem para discussão de gênero.

Geralmente, as letras escritas por mulheres falam sobre suas experiências pessoais, quem são, onde vivem, revelando como se veem, como constroem suas identidades. “As mensagens trazidas tocam em uma série de esferas de suas vidas. Então, a presença das mulheres traz uma maior variedade das mensagens que o rap transmite. Mesmo quando abordadas questões comuns, essas mulheres as trazem a partir de outras perspectivas, tornando-as mais complexas e, ao mesmo tempo, atraentes a um maior público”, comenta Suélen.

De acordo com ela, uma das características do Hip Hop “é que este se configura como um espaço de engajamento e mobilização da juventude, como também são as redes sociais. Então, acho que um impacto positivo é a aproximação, especialmente de meninas e mulheres jovens, a questões políticas diversas que as afetam”. Para Suélen, a identificação com a figura de uma mulher rapper, o estilo e o que ela canta tem reflexos importantes na experiência dessas meninas. “Acho representativo, por exemplo, a crescente onda de meninas negras que ressignificam suas identidades de modo positivo, algo que impacta em sua autoestima e não se limita a uma ação individual.”

Para a produtora fonográfica Adelaide Zigiotto, o rap é um dos pilares fundamentais do Hip Hop. E não é possível falar de um sem falar do outro. “As pessoas gostam de falar que pessoas negras e pobres são minoria, mas, na verdade, é a maioria dentro da sociedade. O Hip Hop deu voz a essa maioria, pois fez com que jovens se identificassem diretamente com algo que não fosse fora da realidade deles”, salienta Adelaide.

Música, danças, arte e poesia fazem parte do movimento cultural, que expõe problemas sociais. Segundo Adelaide, o Hip Hop foi o movimento brasileiro que mais se transformou. Para ela, trata-se de identificação da maioria.

“Eu ouço muito falar do machismo no rap, acho que esse problema nós temos em qualquer lugar, até dentro de casa, dentro de nós mesmos. A mulher no rap é fundamental para a cena”, esclarece Adelaide. A produtora fonográfica explica que o rap mudou de 10 anos para cá, embora sempre tenha abordado a realidade, o cotidiano e os problemas sociais. “É música de resistência negra”, comenta.

O machismo no rap, assim como no mundo musical em geral, é reflexo de uma cultura machista da sociedade. O retrato da mulher no Hip Hop é, muitas vezes, de registros de como ela é vista por grande parte da sociedade, que ainda carrega ideias conservadoras e patriarcais. Assim, ícones importantes do movimento ainda objetificam a figura feminina nas músicas.

“O público de uma artista mulher, em grande maioria, são as mulheres. É identificação. Em shows, a maioria do público é de negras, embora brancas também estejam presentes. A música para mim sempre foi um trabalho de formiguinha”, diz a produtora. Para ela, a mulher no rap é consciente sobre a cultura do machismo e sobre a música como forma de comunicação e conscientização.

Adelaide também afirma que a representatividade feminina está em crescimento, assim como a identificação das mulheres negras e a música de mulher para mulher. “Os homens são atingidos, mas a identificação é com a mulher”, explica. A produtora ressalta, porém, que a movimentação do público feminino ainda precisa ser mais forte. “Há várias mulheres fazendo um trabalho muito bonito. Há cada vez mais representatividade. O importante é o começo, o fazer, e elas estão fazendo bonito”, pontua.

Nascido nos anos 1970, em Nova Iorque, o Hip Hop surge de um movimento cultural entre latino-americanos, jamaicanos e afro-americanos. O gênero musical engloba quatro elementos como pilares fundamentais: rap, DJ, breakdance e graffiti.

DJ

O DJ faz a mixagem e a transmissão das músicas – autorais ou não. O termo foi criado para retratar o locutor de rádio que mixava músicas através de discos e vinis. O conceito de DJ foi sendo alterado significativamente com o passar do tempo e com o aparecimento de novas tecnologias fonográficas.

Breakdance

O Breakdance também é conhecido como breaking ou b-boying. A dança de rua surgiu com os negros das metrópoles estadunidenses, unindo-se ao pilares do movimento Hip Hop.O Site Dança de Rua aponta que as primeiras manifestações surgiram na época da crise de 1929, no Estados Unidos. Os músicos e dançarinos que trabalhavam nos cabarés e bares ficaram sem emprego, buscando alternativas de fonte de renda nas ruas, com shows e apresentações de dança de rua.

Graffiti

A arte urbana surge como uma forma de manifestação artística em espaços públicos. O graffiti tem indícios desde o Império Romano, com inscrições em carvão na paredes de monumentos como forma de protesto.

Nos anos 60, também em Nova  Iorque, jovens oriundo da periferia começaram a espalhar suas marcas nas paredes da cidade utilizando tinta em spray. Com desenhos e ilustrações, o graffiti ressurge também como forma de manifestação e protesto contra a ordem social, dando início a um movimento de arte urbana.

No Brasil, o graffiti surge na cidade de São Paulo, em meados da década de 70, época conturbada da história do país, silenciada pela censura com a chegada dos militares ao governo. O Site Toda Arte aborda que, paralelamente ao movimento que despontava em Nova Iorque, o grafite – que no Brasil passa a ser chamado assim, em português – surge no cenário da metrópole brasileira como uma arte de rua, que dá voz a marginalidade e a uma geração incomodada com a realidade política e social da época.

Rap

Um dos elementos fundamentais do Hip Hop, o Rap se caracteriza pelas letras recitadas, não cantadas. O gênero associado à população afro-americana, de zonas marginalizadas, aparece como importante forma de protesto contra problemas sociais.

Apesar de ter surgido na periferia e conter expressões de rebeldia com letras combativas, o rap ganhou as ruas e o mercado fonográfico, tornando-se um sucesso comercial. De acordo com a revista Forbes, só em 2010 o rapper estadunidense Jay-Z acumulou 63 milhões de dólares. Outros tantos rappers nacionais e internacionais de sucesso também se destacam na cena cultural, em especial nos Estados Unidos, movendo milhões de dólares por ano.

Existem muitos subgêneros dentro do rap. O site Genius Brasil apresenta os diferentes tipos de rap nacional, conhecidos atualmente por levantarem discursos de liberdade com produções temáticas.

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