Esporte

Domingo emudecido

Sem vitórias brasileiras desde 2009, o 'Tema da Vitória' - trilha característica dos triunfos nacionais na Fórmula 1 - calou-se juntamente com a redução do interesse na mais famosa categoria do automobilismo mundial

O “Tema da Vitória”, canção instrumental criada pelo maestro Eduardo Souto Neto – e gravada, veja você, pelo Roupa Nova -, embalou dezenas de vitoriosas manhãs de domingo esportivo durante as décadas de 1980 e 1990. Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubens Barrichello e Felipe Massa, nas 101 vitórias brasileiras na Fórmula 1, irromperam a linha de chegada ao som indefectível que embalou a comemoração dos aficionados pelo esporte.

Com o tempo, entretanto, as vitórias foram rareando. A última ocorreu em 13 de setembro de 2009, com Rubens Barrichello a bordo da Brown – a grande surpresa daquela temporada -, no GP da Itália, em Monza. O pódio, que por um bom tempo contou com a bandeira brasileira tremulando, não é habitado pelos pilotos nacionais desde 6 de setembro de 2015, com um terceiro lugar de Felipe Massa, pela Williams, também no país da escuderia Ferrari.

Curva descendente

A Rede Globo, dona dos direitos de transmissão da Fórmula 1 em TV aberta no Brasil, passou a valorizar cada vez menos a competição em sua programação. Treinos livres e classificatórios foram relegados ao canal de TV por assinatura SporTV. A audiência das corridas teve queda vertiginosa em dez anos. Segundo dados do Instituto Ibope, a Globo perdeu mais de 50% do público no momento das corridas de Fórmula 1, tanto em pontos de Ibope, quanto em share (porcentagem de audiência entre os televisores ligados).

A média de audiência no ano de 2005, o último ano de Rubens Barrichello na Ferrari, foi de 15,8 pontos e 49,3% de share. Em 2015, quando nenhum brasileiro lutou pelo título da categoria, a média atingiu apenas 7,7 e 23,9%, respectivamente. Em 2008, último ano em que um brasileiro – Felipe Massa – disputou o título, os índices de audiência chegaram em 17,1. Cada ponto de audiência corresponde a 69,4 mil domicílios. Os dados apresentados foram coletados na Grande São Paulo, local em que o mercado publicitário se baseia para a distribuição de patrocínios.

Barrichello correndo pela Ferrari em 2001 (Crédito: Richard Jonkman)

Barrichello correndo pela Ferrari em 2005 (Foto: Richard Jonkman)

Segundo a jornalista do blog KTV, do portal R7, Keila Jimenez, a Fórmula 1 tornou-se desinteressante não somente pela falta de títulos e vitórias. “A Globo ajudou a tornar a categoria morna. Poderiam, quem sabe, acabar com o ufanismo de ver o Brasil ganhar e aprender a apreciar a categoria como um esporte. Sem grandes resultados de audiência, a emissora começou a abandonar a competição. Ou alguém imaginaria, nos áureos tempos do Senna, um VT de corrida passando na madrugada de domingo? Era sempre ao vivo”, avaliou a crítica de TV.

 

A primeira vez que o brasileiro não esquece

Há 25 anos, em 24 de março de 1991, Ayrton Senna vencia – pela primeira vez – uma corrida em Interlagos, no GP do Brasil. O piloto, que já havia conquistado duas vezes o título mundial até aquele momento, nunca havia ganho em seu país. O experiente piloto Chico Serra, que fez parte da categoria entre os anos de 1981 e 1983 pelas equipes Copersucar-Fittipaldi e Arrows, sentenciou que aquela vitória mudou o jeito do brasileiro acompanhar o automobilismo. “Já existia uma paixão muito forte pela Fórmula 1 desde o final da década de 1970, mas a vitória do Senna no Brasil apenas com a sexta marcha foi um marco. Crianças, senhoras e idosos, que nunca acompanhavam as corridas, passaram a se interessar. Foi o período áureo do esporte no país”, garantiu o piloto.

Crédito: Iwao

Ayrton Senna em Interlagos: 25 anos atrás (Foto: Iwao)

Só a vitória interessa

Para o jornalista especializado em automobilismo Claudio Carsughi, que trabalha na TV Brasil – emissora pública gerida pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) -, o brasileiro nunca gostou de Fórmula 1. “Para ser mais exato, o brasileiro tradicional nunca gostou de nenhum esporte. Ele só se envolve quando o time ou o atleta brasileiro é campeão. Foi assim com o tênis, com o vôlei, com o próprio automobilismo, e sinto isso com o surfe ultimamente. São fases de euforia que se encerram na primeira derrota”, salientou Carsughi, que já passou pelos canais SporTV e ESPN Brasil.

Segundo a piloto Bia Figueiredo, que atualmente corre pela Stock Car, o mesmo fenômeno de desinteresse aconteceu com a Fórmula Indy no Brasil. “Quando os brasileiros não ganhavam, ninguém se interessava pela categoria. Quando Gil de Ferran e Hélio Castroneves começaram a vencer, logo a Manchete e o SBT se interessaram pela competição, ainda na década de 90. Depois, as derrotas vieram e acabaram as transmissões. A retomada só veio quando Vitor Meira e Tony Kanaan lutavam pelo título, a partir de 2006, e a Band começou a transmitir as corridas”, frisou a piloto, que fez parte da Indy nos anos de 2010 e 2011.

Com a falta de títulos brasileiros, o automobilismo – especialmente a Fórmula 1 – perdeu representatividade e prestígio no Brasil. O que antes era representado por gritos emocionados de Galvão Bueno se transformou em um retumbante silêncio em meio às manhãs de domingo. Com a falta de interesse do país na categoria, o ronco das manhãs de domingo não será, definitivamente, o dos motores.

 

Em silêncio: cinco brasileiros que não deixaram rastros na Fórmula 1

Alex Dias Ribeiro: o atleta de Cristo

O piloto correu na Fórmula 1 nos anos de 1976, 1977 e 1979 pela March, Copersucar-Fittipaldi e Hesketh, conquistando um 8º lugar como seu melhor resultado. Entretanto, ficou conhecido por ser considerado “o mentor espiritual” de Ayrton Senna. Hoje, Ribeiro é comentarista da Jovem Pan FM e dirige a organização Atletas de Cristo, que se espalhou pelo esporte brasileiro na década de 1990.

Tarso Marques: o empresário

Com 26 GPs no período em 1996 e 2001, sempre pela Minardi, Tarso Marques nunca conquistou um resultado expressivo – tendo a incrível marca de nunca completar uma corrida acima da 10ª posição. O piloto abandonou as pistas e virou empresário do ramo do entretenimento, sendo sócio da casa noturna Café de La Musique.

Pedro Paulo Diniz: o aliado de Prost

A estreia de Pedro Paulo Diniz na Fórmula 1 ocorreu em 1995 pela Forti. Sua melhor temporada foi em 1998, quando conquistou três pontos. Abandonou as pistas em 2001 e entrou em sociedade com Alain Prost na escuderia Prost, posteriormente levada à bancarrota. Atualmente, trabalha com a produção de produtos orgânicos.

Raul Boesel: a subcelebridade

Correndo pela March e Ligier nas temporadas 1982-1983, Raul Boesel conquistou destaque apenas em categorias menores, como a Stock Car e a Indy. Em 2014, participou do reality show “Aprendiz Celebridades”, da Rede Record, apresentado por Roberto Justus.

Roberto Pupo Moreno: o persistente

Pupo Moreno correu por nove equipes diferentes na Fórmula 1. A lista de escuderias é extensa: Lotus, Jordan, Benetton, Minardi, AGS, Coloni, EuroBrun, Andrea Moda e Forti. Seu melhor resultado foi um 4º lugar no GP da Bélgica em 1991.

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