Economia

Dólar acima dos R$ 4,00 pesa no bolso e gera incertezas

Especialistas atribuem cenário à crise política e não acreditam em solução a curto prazo

Em 28 de setembro de 2015, US$ 1,00 terminou o dia valendo R$ 4,11*. O valor da cotação vem sofrendo alterações constantes, mas as últimas semanas representam a primeira vez na história do real em que são atingidos patamares tão altos em uma sessão regular. Diante do cenário, não faltam especulações sobre o futuro econômico do país.

Para o diretor da escola de negócios Saint Paul Advisors (SP) e autor do livro Mercado Financeiro: conceitos, cálculo e análise de investimentos, José Roberto Securato Junior, o cenário econômico atual é cercado de incertezas, inclusive para os especialistas. “A especulação e a volatilidade serão altas nas próximas semanas e, provavelmente, até nos próximos meses”, destaca.

O especialista acredita que a pressão da alta do dólar vai continuar, mas que a longo prazo a moeda se estabilizará abaixo dos R$ 4,00. Mas, afinal, por que a alta está sendo tão expressiva?

beta-economia-infodolar

Cotação do dólar em 28 de setembro de 2015

Crise econômica é crise política

Para os experts da área de economia, não há apenas um motivo que levou o dólar ao alto patamar. No entanto, há um fator comum que eles julgam se relacionar ao cenário econômico: a crise política e, principalmente, a sensação de indefinição gerada por ela.

 José Roberto Securato Junior. Foto: Arquivo Pessoal

José Roberto Securato Junior.

“Estamos vivendo uma crise que é mais política do que econômica. Neste caso, a incerteza é muito grande. Isso inibe tanto os empresários quanto os consumidores. Agora, essa incerteza está surtindo efeito no final da cadeia, ou seja, no trabalhador”, resume Junior.

O economista Ayrton Fontes também crê que há componentes políticos envolvidos no cenário. “A incerteza gerada pelo clima político atual é desfavorável e contamina a economia. O governo gastou muito mais do que arrecada e agora tenta desesperadamente criar mecanismos de ajuste fiscal, aumentando e criando novos impostos”, pontua.

Os reflexos da crise

A palavra “crise” já se tornou comum nos grandes veículos midiáticos e, naturalmente, nas conversas das famílias brasileiras. Mas poucos sabem, efetivamente, contextualizar a situação. “Nada se compara à hiperinflação de 1993”, lembra Junior.

Os patamares atingidos hoje são comparáveis aos níveis de 2002 e 2003, de acordo com ele. “A diferença é que, naquele período, a crise era global”, salienta. Ainda que a inflação não seja tão profunda como a dos anos 90, o trabalhador deverá sentir no bolso os reflexos da instabilidade da moeda.

Fontes explica que as consequências da alta já aparecem no preço da matéria-prima dos produtos, o que influi sobre o preço do produto final para o consumidor. Para Junior, o consumidor sentirá um reflexo direto, pois há muitos produtos cuja base de preço é em dólar, começando pela agricultura.

Os empresários também encontram dificuldades diante do cenário. A consequência, portanto, é o aumento no número de demissões. “Um aumento em 10% na folha de pagamento da empresa pode provocar, por exemplo, 10% de demissões”, contextualiza Junior.

De acordo com Fontes, vivemos hoje um quadro recessivo, causado principalmente pela falta de crédito. “As empresas já começaram a demitir e não há mais abertura de novos postos de trabalho, mesmo no terceiro setor”, avalia.

Previsões futuras

Conforme relembra Fontes, o Brasil está passando por seu quinto período de recessão desde o início dos anos 90. “Os quatro anteriores foram de curta duração, não ultrapassando três ou quatro trimestres”, pontua.

Desta vez, no entanto, o economista não acredita em uma solução a curto prazo. “Hoje seria muito difícil dar uma previsão acertada. A luz no fim do túnel deverá passar, primeiramente, por um processo político, através de uma solução temporária para implantar os ajustes necessários no campo da economia”, opina.

O economista é categórico. “Estimo em dois ou três anos o tempo necessário para o Brasil entrar novamente nos trilhos”, finaliza.

 

* Dólar comercial, de acordo com a agência Thomson Reuters.

Lida 724 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.