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Dione Kuhn fala sobre a cobertura jornalística da crise política

Na última quarta-feira (1º), em evento comemorativo pelo aniversário de 52 anos do jornal Zero Hora, a Unisinos Porto Alegre recebeu a editora de Notícias de ZH, Dione Kuhn. A palestra sobre a cobertura da atual crise política virou um bate-papo, que contou com a presença de calouros e veteranos do curso de jornalismo e também de seus professores. O evento, em outros anos, já teve a presença das colunistas Rosane de Oliveira e Marta Sfredo. Formada pela PUCRS e com 20 anos de redação em Zero Hora, Dione é editora há seis anos.

 

Foto: Laís Albuquerque

Foto: Laís Albuquerque

 

Na abertura de sua fala, a jornalista apontou quais são os critérios do jornal para buscar se diferenciar na cobertura do atual momento crítico:
– Contar com os melhores profissionais, em todos os setores, do texto até a edição, do vídeo e da imagem.
– Ter conhecimento e domínio dos assuntos, para ter discernimento na hora de dar a informação.
– Uma equipe com pegada e maturidade, disponível para encarar a dura jornada de um momento de crise.

Sobre conteúdo produzido pelo jornalismo, ela destacou que, diferentemente de 1992, quando a mídia foi protagonista do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo, agora o protagonismo pertence aos órgãos de investigação, como o Ministério Público Federal e a Polícia Federal. O jornalismo, para ela, precisa focar na produção de conteúdo diferenciado, já que a investigação não é mais o seu papel.

Dione Kuhn explicou que, como o jornal conta com pouco pessoal em Brasília, centro dos acontecimentos no momento, o factual é comprado de agências de notícias como Estadão Conteúdo e Reuters. O material produzido por ZH sobre a crise deve ser aprofundado e diversificado, como a reportagem que resgatou o contexto do impeachment de Collor e o que os protagonistas de hoje diziam na época. A editora também destacou um teste em que o leitor era classificado entre coxinha, petralha ou isentão.

Ela comentou que o momento de polarização da sociedade gera críticas muito mais acaloradas por parte dos leitores e que “receber um comentário ponderado é raro”. Para Dione, quando o jornal recebe críticas dos dois lados é porque está fazendo um bom trabalho. A editora também ressaltou que é importante que jornalistas façam uma autocrítica das coberturas.

 

Foto: Laís Albuquerque

Foto: Laís Albuquerque

 

Outras questões – deixando a crise de lado

Prisão das quatro meninas nos protestos em Porto Alegre

Questionada pelo professor Pedro Osório sobre a cobertura do jornal no caso, Dione disse que “demos razoavelmente no site, no impresso demos muito mal”. Segundo ela, a escolha de publicar o manual da Brigada Militar sobre a postura que o policial deve adotar quando acontece bloqueamento de vias, dada no desdobramento do caso pelo jornal, foi dada no intuito de responder aos questionamentos sobre o cumprimento desses protocolo. Para ela, a reportagem “não atingiu o objetivo, eu fiz essa avaliação depois que ela ficou pronta. A matéria ficou ‘bêbada’ mesmo”. Sobre a deficiência da cobertura no papel, ela justifica que “às vezes o que é notícia de manhã já não é mais no fim da tarde, então fica essa deficiência”.

Operação Zelotes

Quanto à cobertura feita pela RBS sobre a operação realizada pela Polícia Federal, Dione afirma que o jornal noticia o caso, e dá o exemplo da capa com a informação do indiciamento de Luiz Carlos Trabuco, diretor-presidente do banco Bradesco. Também aponta outra situação, mais para o começo do ano, na qual a ZH noticiou o envolvimento do grupo Gerdau no escândalo. Já sobre a postura adotada pelo jornal quanto ao envolvimento da própria RBS nas investigações, Dione disse que “há conflito de interesse, a empresa é uma parte envolvida na história”.

Saída de Moisés Mendes

Para a editora, tanto o jornal quanto o próprio ex-colunista de Zero Hora saíram perdendo com o desligamento de Moisés Mendes. Dione destacou a capacidade do articulista e sua qualidade, falou que a empresa se esforçou para mantê-lo no quadro de funcionários, mas que foi uma decisão do próprio Moisés não continuar escrevendo para ZH.

Sobre a necessidade de ser repórter para ser editor

“É preciso ser repórter antes.” Segundo ela, sendo repórter se aprende as manhas que estes têm para enganar os editores em algum ponto fraco do texto, e um editor que tem esse conhecimento tem mais capacidade de analisar esses pontos sensíveis.

Sobre os colunistas de ZH

Para Dione, o leitor comum tem dificuldade de diferenciar notícia e opinião, e opinião de colunista de opinião do jornal (editorial). Segundo ela, os colunistas do jornal se reportam apenas para a direção da redação e passam apenas por uma revisão de ortografia.

Sobre a crise no jornalismo

Dione diz que o momento de choque e pavor, de achar que o jornalismo vai acabar, já passou. Para ela, estamos agora em um momento de correr e provar a importância do jornalista para as pessoas e que “é preciso investir dinheiro para ser (um veículo) importante”.

Sobre os acertos dos novos formatos de ZH

A jornalista diz que o caderno DOC tem sido muito elogiado, mas que o jornal faz constantemente ajustes. “Se existe crítica, algo dá pra mudar”, afirma.

Para os que querem ser jornalistas

“Sejam inquietos, inquietos e inquietos. Não se acomodem. Se o professor pediu um texto assim, façam melhor. Assim vocês vão se destacar. Tenham interesse de consumir conhecimento e participar de várias coisas.”

 

Foto: Laís Albuquerque

Foto: Laís Albuquerque

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