Cultura

Dia Nacional do Livro: 2 grandes obras da literatura brasileira

O Dia Nacional do Livro provoca discussão acerca de obras da literatura brasileira

No dia 29 de outubro é comemorado o Dia Nacional do Livro. Hoje no país o número de leitores representa 56% da população brasileira, segundo a Pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, realizada pelo Ibope por encomenda do Instituto Pró-Livro. A boa notícia é que, em 4 anos, esse número aumentou 4%.

De acordo com o estudo, o brasileiro lê  4,95 livros ao ano, sendo que o mais comprado e lido é a Bíblia. Dentre as principais motivações para ler estão o gosto, a atualização cultural, a distração, motivos religiosos, o crescimento pessoal e exigências escolares ou de trabalho.

Na pesquisa também foi questionado quais eram os autores preferidos dos entrevistados, sendo os nomes mais citados Monteiro Lobato, Machado de Assis, Paulo Coelho, Maurício de Sousa, Augusto Cury, Zibia Gasparetto, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Chico Xavier, John Green, Ada Pellegrini, Vinícius de Moraes, José de Alencar e Padre Marcelo Rossi.

Entre títulos marcantes, os que apareceram mais vezes foram a Bíblia, Diário de um banana, Casamento Blindado, A Culpa é das Estrelas, Cinquenta Tons de Cinza, Ágape, Esperança, O Monge e o Executivo, Ninguém é de ninguém, Cidades de Papel, O Código da Inteligência, Livro de Culinária, entre outros.

É importante lembrar que renomados exemplares da literatura brasileira não foram citados pelos entrevistados, o que acabou me trazendo à tona a ideia de discorrer sobre duas grandes obras da literatura que, a meu ver, valem a leitura (o livro inteiro!):

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

 

Foto: Wikipedia

Foto: Wikipedia

Esse livro de Machado de Assis marca o início do Realismo no Brasil, em 1881. Sua fase teve como características principais o pessimismo (ou “sofrimento”, nesse caso), a ironia e a não-linearidade da narração.

Na obra que conta a vida de Brás Cubas, por exemplo, o autor utiliza de recursos de reflexão, o que traz a impressão de estar sempre divagando e digredindo. Outro ponto bastante forte é a chamada do leitor ao livro, como se Machado estivesse conversando e questionando quem está lendo, com recursos como: “e você?”.

Além disso, capítulos curtos são outra característica dessa fase. Uma curiosidade é que, neste livro, em específico, há um capítulo chamado “De como não fui Ministro do Estado”, com uma sequência de reticências, trazendo a ideia de que isso nunca aconteceu.

O livro narra a trajetória de Brás Cubas, um homem que resolve contar a sua própria história após estar morto – daí o nome. Em  primeira pessoa, ele conta memórias de sua infância e juventude, mencionando Quincas Borba – personagem de outro livro de Machado, e as traquinagens durante essa época.

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Nos capítulos curtos, o homem também faz revelações sobre o seu grande amor da juventude, Virgília, que, embora correspondesse a paixão, jamais trocaria a seu padrão social para casar-se com ele e, por isso, decidiu ficar com Lobo Neves. Outro nome importante para falar dos amores do personagem é Marcela, uma prostituta de luxo, que só se preocupa com o dinheiro dele. Segundo o próprio, “durou quinze meses e onze contos de réis”.

A história do livro fala bastante sobre as “não-realizações”. Brás Cubas se dedicou à carreira política e a ações beneficentes, mas era infeliz e fazia questão de demonstrar a insatisfação perante sua vida na descrição de suas memórias. Bastante egoísta, em seu discurso fica evidente a reclamação constante quanto aos seus atos durante a vida. A última linha retrata, em poucas palavras, a época realista e pessimista de Machado de Assis e o resumo da vida de Brás:

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. (Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas)

A importância atemporal do livro gerou a criação de filme inspirado na obra.

Paixão segundo G.H – Clarice Lispector

20101102110004clarice_lispectorClarice Lispector não é literalmente brasileira, mas agregou muito à literatura do nosso país. Nascida na Ucrânia, viveu sua vida no Brasil, contando histórias através de célebres títulos como “A Hora da Estrela” e “A Maçã do Escuro”. A autora é conhecida por dar início à criação de obras de caráter intimista, introspectivo e reflexivo.

A narração de “Paixão Segundo G.H”, especificamente, acontece em primeira pessoa em formato de monólogo, situando o leitor em um ambiente, mas transmitindo a sensação de estar em um labirinto de ideias. A maneira como a personagem filosofa traz a sensação de intimismo e proximidade com ela.

A história conta um episódio em que uma mulher, que se identifa-paixo-segundo-gh-clarice-lispector-d_nq_np_14742-mlb3286520241_102012-fica pelas iniciais G.H (Clarice nunca revelou o que significam essas duas iniciais), começa a limpar seu quarto após demitir a empregada. O que define o resto do conto é o surgimento de uma barata na porta do guarda-roupa. A mulher começa a pensar, “em voz alta”, sobre a vida, sobre a sua individualidade, sobre sua essência, sobre as suas “muletas” no dia a dia, sobre a maneira como encara a vida e como aquela barata poderia significar isso. Ela demora até decidir se deve – ou não – matar a barata, o que define os primeiros capítulos do livro. A mulher fala muito sobre a “matéria” da barata, a designação do homem (ser humano).

Ela opta por matar a barata e passa a refletir ainda mais sobre o assunto. Após dormir, no dia seguinte, ela fala sobre a impotência de descrever o que houve e muito sobre o fato de sentir-se mais viva por ter  “livrado-se da barata”, podendo o inseto ter outro contexto naquele momento.

“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.” (Clarice Lispector, em A Paixão Segundo G.H)

 

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